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O adeus de Very Well

Após 51 anos de trabalho no Palácio do Planalto, simpático servidor que acompanhou a trajetória de 12 presidentes decide se aposentar. E conta “causos” do centro do poder

Por:
11/02/2013 às 09h42
O adeus de Very Well

 

 

 

 

Das Agências


 

De 1961 até hoje, já passaram pelo Planalto 11 presidentes. Dilma Rousseff agora é a 12.ª inquilina do palácio. Nesse período, o país foi uma democracia. Virou uma ditadura com o golpe de 1964. Redemocratizou-se. E, por meio de eleições, redescobriu o que é a alternância pacífica de poder. Dificilmente alguém conseguiria estar perto do poder com governos tão diferentes. O servidor José Henrique Nazareth, o “Very Well”, de 78 anos, teve esse privilégio. Foram 51 anos de trabalho ininterrupto no Palácio do Planalto e uma coleção de “causos” para contar. Uma trajetória que ele decidiu encerrar no fim do mês passado para aproveitar a aposentadoria.

Very Well começou a trabalhar no Planalto como contínuo, em 1961, no governo de Jânio Quadros. Nas cinco décadas de serviço público, chegou ao posto de secretário do Comitê de Imprensa da Presidência. Foi lá que conquistou o apelido pelo qual é conhecido.

O jeito expansivo e alegre do mineiro de Brazópolis cativava os jornalistas. E, sempre buscando ser simpático com os correspondentes estrangeiros que buscavam notícias dos presidentes brasileiros, ele se arriscava a falar inglês. “No Comitê, sempre vinha muito jornalista americano, italiano, gente de tudo quanto é lugar. E eu sempre gostei de servir, oferecia cafezinho, um ‘coffee’, e acabava aprendendo alguma coisa: ‘How are you? Fine, thank you’,”, explica Nazareth. Assim, acabou virando o Very Well (“muito bem”, em inglês).

Jango, o favorito

De todos os presidentes que viu passar pelo Planalto, Very teve mais contato com João Goulart, pois trabalhou como contínuo de seu gabinete. Jango também foi seu presidente “favorito”. “Ele era demais”, diz o servidor, elogiando a simpatia de Jango. Segundo Very, Jango era generoso. “Pediam muito apartamento para ele [era o atrativo do governo para trazer servidores para a nova capital]. Ele não negava. Quando tinha, dava.”

Very estava trabalhando no dia do golpe militar que derrubou Jango. E, apesar da simpatia que nutre pelo presidente derrubado, ele evita falar sobre a ditadura. “Converso sobre os militares outro dia “, diz. Ainda assim, contou um “causo” que revela um lado menos duro daqueles anos de chumbo. Já no governo do sisudo marechal Castelo Branco, Very trabalhava na secretaria particular do Gabinete Civil quando foi surpreendido durante um cochilo na hora do almoço pelo próprio presidente. “Quando vi o presidente ali, levei um susto. Ia sair correndo, mas ele não brigou. Disse ‘Calma, rapaz’, e me deu um tapinha nas costas.”

Lula, o mais aberto

Dos 12 presidentes que passaram pelo Planalto no período da carreira de Very Well, apenas um o recebeu para uma conversa mais longa: Luiz Inácio Lula da Silva, que reservou 30 minutos na agenda para receber o servidor. Segundo Very, os presidentes, em geral, sempre “se fecham” e não dão muito papo para os funcionários subalternos. Lula, diz ele, era o mais aberto e o que mais recebia servidores.

 

Na garagem

Servidor realiza sonho de apertar a mão de todos os 12 presidentes

Very Well andava frustrado nos seus últimos dias de trabalho. Dos 12 presidentes que haviam ocupado o Palácio do Planalto durante a sua carreira de servidor, apenas um não tinha apertado sua mão. Ou melhor, uma: justamente a presidente Dilma Rousseff. Mas Dilma ficou sabendo do lamento do funcionário. E, no último dia 30, se encontrou com Very Well, na garagem da Presidência, para apertar a mão dele. Além do funcionário, participaram do encontro com a presidente a mulher de Very Well, sua filha mais velha e dois netos.

“Eu pensei: será que vou embora e não vou falar com a dona Dilma? Foi uma surpresa”, disse Very Well depois do encontro. Além do aperto de mão, ganhou seis fotos dele com a família e a presidente. Aproveitou para entregar presentes para Dilma – três anjos e um relicário. Ouviu da presidente um agradecimento em nome do povo brasileiro pelos serviços prestados. Apesar de o encontro ter sido rápido (5 minutos), a família toda se emocionou e Very Well não conteve as lágrimas, segundo relato da filha mais velha, Ludmila Nazareth.

Nem Very Well nem a família se importaram com o fato de não terem sido recebidos no gabinete. “O importante é que ele se aposenta tendo apertado a mão da única presidente que faltava”, disse a mulher do funcionário, Miriam.

Salário

Very Well havia se aposentado formalmente na década de 1990, mas continuou trabalhando no Planalto com um cargo comissionado que lhe garantia uma remuneração de R$ 2,7 mil mensais.


 

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