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| Ben-Hur de Paiva Pinheiro e sua esposa Luisa em foto registrada durante evento social em Cambará em setembro de 2009. |
Foi sepultado no cemitério municipal de Cambará, na manhã desta quarta-feira, 30, o corpo de Ben-Hur de Paiva Pinheiro, 81. Centenas de pessoas participaram do velório, cortejo e sepultamento.
Sr. Bem-hur morreu de infarto na madrugada do dia 29 em Caldas Novas – Goiás onde estava em viagem de passeio com esposa e familiares.
Ben-Hur deixa 5 filhos e 14 netos e muitos amigos e admiradores.
Ben-Hur edificou sua vida com base na honestidade e princípios Cristãos. Pessoa das mais respeitadas e queridas, Sr. Ben-Hur pontuou sua atividade profissional com muita obstinação e cultivou ao longo da vida amizades sinceras que certamente estão em luto neste momento.
Um dos fatos marcantes de sua existência, a implantação da torre de transmissão de Televisão foi sem exagero seu ato mais teimoso. Em uma entrevista para a coluna Personalidade de março de 2009 ele contou esta história. Acompanhe a íntegra da entrevista.
Nossos sentimentos a família.
Entrevista cedida em 06-03-2009
Mundo em ebulição
Final da década de 50 e começo dos anos 60. Uma reviravolta, o derrubar de conceitos, uma estrutura secular desfazendo-se como um castelo de cartas... Na música, com o rock e seus ícones, Elvis Presley e The Beatles, a mini-saia derrubando moralidades antigas, o embate perigoso das duas superpotências, EUA x URSS, levava à guerra fria, colocando em suspense todo o orbe.
O Soviético Yuri Gagarin conquista o espaço, dando inicio a uma nova oportunidade tecnológica para a humanidade: a exploração de outros mundos.
A Igreja modernizava-se, dando início à missa em vernáculo e questionando conceitos seculares. Homens de dispares idéias marcavam época: Fidel de Castro em Cuba, Mao na China, De Gaulle na França. Um líder, especialmente, chamava a atenção mundial por ser o defensor da liberdade, tão ameaçada pelo comunismo soviético. Era o Presidente John Kennedy. As esperanças da democracia espelhavam-se na América.
No Brasil, era o progresso de “50 em 5 anos”, e a inauguração da nova capital, Brasília, trazia novos ares de entusiasmo. Em 58, conquistamos o primeiro caneco e em 62, o bi. Era uma festa só, tudo levava a crer, que o Brasil teria um futuro luminoso.
No entanto, na política nacional, ventos fortes de conspiração sopravam contra a democracia e trouxeram as nuvens negras da instabilidade institucional que culminaram com a ditadura militar em 64.
Nessa mesma época, houve o fim da era Kubitschek, e com isso, o começo dos governos Jânio Quadros e João Goulart.
Che Guevara passou por aqui e foi condecorado com a Ordem do Cruzeiro do Sul, a mais importante comenda brasileira.
Enquanto isso, em Cambará, a Terra da Promissão, conhecida pelos seus férteis campos de café, que se estendiam a perder de vista, respiravam-se ares patriarcais, com poucas ruas calçadas com paralelepípedos, o que lhe dava um charme todo particular.
Nesta época, as informações chegavam pelas ondas do rádio e nos poucos jornais que circulavam no município. A efervescência global da época, e seus acontecimentos importantes, mal eram sentidos e os principais fatos e notícias corriam a pacata cidade na velocidade da informação boca a boca, muitas vezes, destorcida.
O assassinato do Presidente John Kennedy, em 22 de novembro de 1963, é considerado pelos historiadores políticos, como sendo um dos fatos mais marcantes da segunda metade do século XX. As imagens, transmitidas pela televisão mundial, mostravam a coragem e o heroísmo de Jacqueline Kennedy, a mais badalada Primeira Dama Norte Americana, recolhendo a massa encefálica do marido, comoveram o mundo.
Coincidências à parte, estas foram as primeiras imagens exibidas por um aparelho de televisão em Cambará.
Quem conta essa história, é Ben-Hur de Paiva Pinheiro, 78, responsável por testar a viabilidade de implantar em Cambará uma torre de transmissão do sinal da extinta TV Tupi, hoje TV RECORD.
Circulando: “Seo” Ben-Hur, como começou o movimento que idealizou a implantação de uma torre que retransmitisse o sinal de uma TV aberta para Cambará?
Ben-Hur de Paiva Pinheiro: Bom, sempre gostei de telecomunicação e participei de diversos grupos de rádio – difusores, os rádios PX. Minha profissão não tem nada a ver com isso. Sempre fui eletro-técnico e me orgulho muito disso. Enrolar motor é minha especialização. No entanto, um dia chega até minha oficina o senhor José Teixeira, o Teixeirinha que atuou na Yoki, que era irmão de Teixeira Filho, escritor de novela da TV Tupi, dizendo que tinha um projeto para implantar uma torre de retransmissão das imagens da TV Tupi, em Cambará. Àquela altura, era uma novidade enorme, haja vista que muito se falava de televisão, porém, poucos sabiam o que era. Hoje, é difícil imaginar uma cidade sem os aparelhos de TV. Decidi tomar partido no projeto e começamos a realizar os testes. Chamei o Mário Zimolo, Alcides Francisco, Benedito Castanho, Valdomiro Augustinho e o Aparecido dos Santos e começamos a realizar os testes.
Circulando: O senhor tinha alguma idéia da importância de sua investida?
Ben-Hur: É evidente que não. Nem sabíamos se iria dar certo. Não tínhamos nem a certeza se o sinal de São Paulo estava chegando até aqui.
Circulando: Onde foram os primeiros testes?
Ben-hur: Os primeiros testes foram realizados no morro do Cristo. Fizermos diversos experimentos lá. Para nos localizarmos, utilizamos uma bússola que nos deu a direção correta da capital paulista. A energia elétrica, buscamos na Santa Casa e utilizamos, como postes provisórios, quatro eucaliptos de 15 metros de altura.
Circulando: Havia muitos curiosos por perto?
Ben-Hur: Nos primeiros dias de testes não havia ninguém, só depois que correu a notícia de que havíamos conseguido captar as primeiras imagens, houve uma movimentação.
Circulando: O senhor se lembra da primeira imagem que apareceu na tela?
Ben-hur: Sim, como poderia esquecer!... Foi muito marcante para todo o grupo e, em especial, para mim. A primeira imagem que apareceu foram as cenas que envolveram o assassinato do presidente americano John Kennedy. Não acreditava no que via. Parecia irreal. A Jacqueline (Kennedy) em cima do carro, recolhendo parte da massa encefálica do Presidente, foi um momento muito forte.
Circulando: Fale mais sobre a reação de seus parceiros ao verem as cenas na TV.
Ben-Hur: Primeiramente, começamos a ouvir o som, mas não nos demos conta do que realmente se passava. As primeiras imagens, ainda não muito nítidas, começaram a mostrar o que estava acontecendo, só depois de alguns minutos nos convencemos da gravidade do fato.
Circulando: Naturalmente, a notícia da morte do Presidente correu a cidade. Como as pessoas reagiram à notícia?
Ben-hur: Sim, as emissoras de rádio já estavam dando a informação e não se falava em outra coisa na cidade. A reação era a mesma, de incredulidade. Aí, dissemos que vimos as imagens, que a primeira cena que apareceu nos teste que havíamos feito foi o sofrimento da Jacqueline ao lado do marido, aí foi uma loucura. Muita gente queria saber como era essa tal televisão, foi aí que começou a ir mais gente a acompanhar os testes.
Circulando: Como foram os testes seguintes?
Ben-hur: Testamos no alto do morro do Laurindo Francisco, mas não deu prova. Depois fomos até à fazenda Santana onde obtivemos os melhores resultados, e implantamos a torre em definitivo. O sinal captado aqui era retransmitido para as cidades vizinhas. A essa altura, o movimento de escolha do lugar para colocar a torre de transmissão estava bem afamado, e, em todas as experiências que fazíamos, juntava um grande número de pessoas. Era incrível, ia gente de carro, bicicleta e a pé, tinha até pipoqueiro (risos).
Circulando: Na época, o Senhor tinha noção da gravidade do acontecido com o presidente americano e o que aquele fato representaria para o futuro?
Ben-Hur: Sim, e como! Sabia que estávamos no meio da guerra fria. Havia o medo de um novo conflito armado ou até o risco de uma guerra nuclear.
Circulando: Este acontecimento foi de relevância mundial e por coincidência também marcou a história da cidade. Como o senhor se sente, ao ser uma testemunha dessa história?
Ben-Hur: É evidente que se tivesse a oportunidade de voltar no tempo e fazer tudo de novo, eu faria. E se pudesse ter evitado o que aconteceu com o Presidente Kennedy, também o faria. No entanto, faz parte da história da humanidade que, por coincidência ou não, faz parte da história de Cambará e especialmente da minha história.
Sinto-me um privilegiado por fazer parte desses acontecimentos. Depois daqueles episódios e com a escolha do lugar ideal para a implantação da torre de transmissão do sinal da TV para Cambará, a história ganhou outros rumos. Não ganhei nada com isso, no entanto, ninguém pode negar que eu entrei para história, isso é a minha história e também a dos meus amigos que acreditaram que era possível trazer para Cambará a tecnologia que, naquela época, era a mais alta ao alcance de muitos.
Circulando: O senhor foi entrevistado pela Graça Maria num programa de televisão que tínhamos na cidade. Como foi se ver do outro lado da tela?
Bem-Hur: Ah! Foi fantástico. Veja que, depois de tantos anos, eu iria ser chamado para contar minha história para um programa de televisão. A mesma “televisão” que eu ajudei a trazer. Tenho o programa gravado e volta e meia assisto para refletir tudo que me aconteceu nesta vida. Passei meus dias enrolando motor e fazendo consertos nas redes elétricas diversas, no entanto, um ato meu, ainda hoje, desperta interesse ao ponto de ser entrevistado para essa importante coluna do nosso jornal.
Nota Redação: As pessoas, quer queiram ou não, são protagonistas da sua época. Involuntária ou conscientemente, os fatos que permeiam histórias de vida permanecem indeléveis no íntimo de cada um. Este é um capitulo da história de Ben-Hur, um privilegiado observador do último qüinqüênio do século XX.