

Em uma reportagem publicada no último dia 22 de abril no jornal portenho Clarín a jornalista Nora Sánchez relatou o que disse um taxista carioca a seus passageiros argentinos durante uma viagem entre Copacabana e o Museu de Bellas Artes do Rio de Janeiro:
“Como não conhecem o zoológico de Luján? É maravilhoso! Buenos Aires também é maravilhosa! Eu estive lá há dois meses com minha esposa e um casal de amigos, porque é um destino muito popular entre o povo do Rio. Ficamos quatro dias. Comemos muito bem, conhecemos muitos lugares, mas não fizemos compras. Não era nada barato. Trouxemos apenas alfajores, que aqui não têm, e carteiras de couro, que estavam com ótimo preço”.
Na mesma reportagem do Clarín, um lojista da Calle Florida, famoso centro comercial de Buenos Aires, diz que a frase que mais se escuta ali é “Muito caro”, e um integrante da associação comercial da Florida decreta: “A Argentina não é mais um destino para fazer compras”.
Sim, Buenos Aires caminha a passos largos para deixar de ser um eldorado da gastança brazuca localizado logo ali, ao sul do Rio da Prata. É o reflexo no turismo de compras da inflação argentina, que foi 53,6% no período de 2006 a 2011, segundo os pouquíssimos confiáveis dados oficiais.
Ora, os brasileiros!
O boom de turistas estrangeiros que visitam Buenos Aires vem desacelerando drasticamente desde junho de 2011. Entre 2009 e 2010 o fluxo de viajantes de outros países para a cidade aumentou 29%. Entre 2010 e 2011, entretanto, o crescimento despencou para míseros 2%.
Segundo dados oficiais da autoridade portenha para o turismo, o número de visitantes provenientes dos EUA e do Canadá caiu 5,6% em 2011 em relação a 2010. O número daqueles que chegam da Europa foi 6,7% menor no mesmo período. Quem, então, vem mantendo a taxa de crescimento do turismo internacional em Buenos Aires com sinal positivo?
Ora, os brasileiros! No ano passado chegaram à capital argentina 3,6% a mais de nós em relação a 2010, e nos dois primeiros meses de 2012 foram 155.055 turistas provenientes do Brasil desembarcando no aeroporto de Ezeiza e no aeroparque Jorge Newbery, 6% a mais do que no mesmo período de 2011.
Alfajores e bijuterias
Mas o perfil do turista brasileiro em Buenos Aires mudou. O blog La Verdad de la Milanesa, do portal Terra, publicou recentemente o depoimento de uma turista brasileira que visitou a cidade pela primeira vez neste ano, acompanhada do namorado:
“Não comprei praticamente nada! Antes de ir, muitas pessoas me falaram que as roupas, as botas, os artigos de couro eram muito baratos e valiam a pena, mas não achei. Os preços estavam iguais aos do Brasil, algumas vezes mais caros. Só trouxe para o Brasil alfajores e algumas bijuterias”.
Além da inflação, as barreiras a importações impostas recentemente pelo governo de Cristina Kirchner também se transformaram em um duro golpe no turismo de compras em Buenos Aires.
Na famosa Avenida Alvear, no bairro portenho da Recoleta (Se Buenos Aires é a “Paris das Américas”, a Alvear seria, digamos, a “Champs-Élysées dos trópicos”), que concentra lojas de famosas grifes internacionais e já foi considerada um dos cinco melhores destinos do mundo para compras, as vitrines estão vazias, e algumas marcas de luxo já começam a fechar as portas. Mesmo produtos de marcas como Nike, Adidas, Lacoste, Zara e Levi’s — marcas populares entre quem viaja para renovar o guarda-roupas — já estão em entrando em escassez.
Mas talvez o ocaso do turismo de compras na capital argentina seja uma boa notícia. Talvez os brasileiros possam aproveitar esta conjuntura para olhar menos para as vitrines e mais para a cidade em si, tão rica em sua cultura, história e gastronomia, por exemplo. Afinal, Buenos Aires não é Ciudad del Este.