

A canção vem sofrendo ameaças duríssimas, mas não deixará de existir. A afirmação foi de ninguém menos que o cantor e compositor Gilberto Gil, durante uma palestra de seis horas na última quarta-feira, 6, no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro (MIS-RJ), onde acontece a série “Depoimentos para a Posteridade”. O artista baiano fez referência a uma declaração do cantor e compositor Chico Buarque, que, em 2004, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, considerou o rap um “fenômeno muito interessante”, mas também “o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou”. O autor de Aquele Abraço falou sobre lembranças de infância, as carreiras artística e política e novos projetos durante o evento, marcado por intervenções musicais feitas pelo próprio, no estilo “à capela”.
“Ao mesmo tempo em que Chico alertou para a real possibilidade que a canção desapareça, há infinitas variações. Em todo o sentido de desconstrução, também há novas construções musicais. As mães, pelo menos algumas delas, vão continuar cantando canções de ninar para os filhos, é instintivo”, afirmou Gil. “Tudo o que é da natureza humana vai permanecer. A canção está garantida. E a extensão da memória dos homens através das máquinas torna tudo possível”, disse o cantor, referindo-se à influência das inovações tecnológicas na cultura.
Gilberto Passos Gil Moreira – que completará 70 anos no próximo dia 26 – respondeu a perguntas de uma banca formada pelo cantor, compositor e escritor Jorge Mautner; pelo escritor Carlos Rennó; pelo antropólogo e pesquisador musical Hermano Vianna; e pelo produtor cultural Marcelo Fróes. A coordenação da mesa ficou a cargo da presidente do MIS-RJ, Maria Rosa Araújo. “Recordar é mais do que viver, é viver duas vezes”, afirmou o cantor, claramente satisfeito por participar da série de depoimentos no MIS.
A passagem por cargos políticos
Gilberto Gil se lembrou de sua carreira política e disse que valeu a pena ser um “ministro mais do verbo do que da verba”, referindo-se a problemas com o orçamento da pasta. Mas avaliou o período em que foi ministro da Cultura de forma positiva. Ele disse ainda que pensou muitas vezes antes de aceitar ficar à frente do Ministério no governo Lula e que chegou a conversar com amigos como Caetano Veloso, Chico Buarque e Jorge Mautner. Dentre os feitos, Gil citou na palestra a rearticulação temática do departamento, ativação de políticas públicas nas manifestações populares e novas relações. Ele afirmou que criou novas áreas e departamentos, junto à Unesco e à Organização das Nações Unidas (ONU), e que viajou bastante, a fim de investir na participação do Brasil no panorama mundial. Em suas viagens, Gil disse que a França talvez tenha sido o país mais receptivo para a música brasileira, lembrando a história entre as duas nações. Mas também citou outros lugares que aceitaram bem as canções do Brasil, como Itália, Portugal, Alemanha, China e Japão – onde João Gilberto, por exemplo, é aclamado pela população.
No entanto, ele citou alguns problemas que teve durante seu cargo como ministro da Cultura. “Foi um momento muito rico, vi muita coisa nova. Mas houve dificuldades para reciclar leis de incentivo, e também as dificuldades com orçamento.” O compositor deDomingo no Parquee Expresso 2222continuou com seu lado artístico durante seu trabalho como ministro. Disse que pediu a licença ao presidente Lula, e, em um primeiro momento, houve represálias por parte da comissão de ética.
O cantor disse que resolveu sair do cargo quando sentiu que as iniciativas já haviam sido dadas. “Presidente, a dimensão brasileira no cinema, na museologia estão aí, deixa eu ir.” Gil disse ser grato a Lula e ao Ministério. “A grande conquista ao sair do cargo foi dormir, pois eu vivi o Ministério durante 24 horas por dia. Eu levava o gabinete para a cama.” Antes de ser ministro, ele foi vereador em Salvador. Criou a Comissão de Meio Ambiente e o projeto Onda Azul. “Foi lastro político para o presidente Lula me chamar para ser ministro.”
Gil disse ainda que, nas eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro, o seu voto será do deputado estadual do PSol Marcelo Freixo, caso ele seja candidato. “Mas não vou participar da campanha. Já considero declarar voto uma forma de campanha.”
Jorge Mautner, nas intervenções feitas durante o depoimento de Gilberto Gil, exaltou a importância das canções e dos shows dos tropicalistas. “A presença de Gil e Caetano foi fundamental para a redemocratização do Brasil.” Mautner, que também teve importância política na época, foi além: “a melhora do Brasil no panorama internacional é 50% responsabilidade de Lula e 50% de Gil”.
Geleia geral
Gilberto Gil fez faculdade de Administração de Empresas na Universidade da Bahia. De acordo com Gil, nesse momento começa a fase de militância política. Os estudos sobre economia e o papel do Estado, o conhecimento de diretórios acadêmicos, a amizade com o cantor e compositor Caetano Veloso, as leituras de Karl Marx e Adam Smith configuraram o momento de responsabilidade social para Gilberto Gil, além do contato com músicas de protesto. “Li O Capital, de Marx, na alfândega, em 62, 63, de olho nos navios, quando trabalhei como agente fiscal do imposto aduaneiro.” No entanto, o cantor não se caracteriza com o mundo dos chamados “comunistas” da época.
“Em meu diálogo com essa turma em Salvador, eu aparecia sempre com um novo viés. Eu não tinha um alinhamento 100% com esse pessoal. Eles chamavam essas pessoas, como eu, de linha auxiliar”, assumiu Gil, que, no Centro Popular de Cultura (CPC), era incumbido da escola de samba Unidos do CPC. “Eu dizia, nas discussões, que não há perfeição. Um grau alto, completo e realizado da perfeição. Eu não acredito nessa utopia, nesse momento em que as coisas se aperfeiçoassem. Nunca acreditei nisso. Com o passar do tempo, menos ainda. Sou partidário do caminho do meio, que está na igual possibilidade dos extremos”, afirmou o compositor, que ainda se intitulou ‘pós-moderno’, pois na época ainda não existiam partidos como centro-direita ou centro-esquerda.
Gil foi preso pelo regime militar em fins de dezembro de 1968, junto com Caetano, taxados por ‘atividades subversivas’. Aparentemente sem rancor, o cantor disse que esperava, sim, a ação dos militares. “Havia novas restrições, replicações do golpe (de 1964). O resíduo da ação tropicalista era muito ácido, como lixo atômico. Muita coisa estava contaminada por aquele material radioativo”, assim o compositor de Geleia Geral citou a Tropicália. “Tínhamos muitos inimigos. Havia denúncias de que havíamos cometido atos inconvenientes ao regime. No próprio comando do Brasil, havia uma grande incompreensão com o que fazíamos. E a própria sociedade civil estava contra nós. Então os militares deitaram e rolaram, ainda que nada fosse concreto: ‘Esses são os rebeldes da vez, os meninos que estão criando insatisfação. Então vamos prendê-los.’”
| “Talvez a maior das minhas paixões seja a compaixão. Sempre tento incluir as escolhas dos outros em minhas escolhas.” |
Na prisão, Gil compôs canções com a permissão de usar o violão dado pelo sargento Juarez. “Eu tinha que naturalmente procurar uma forma de expansão daquele retângulo fechado em que eu estava.” O cantor caracterizou o momento na cadeia como “deprimente”, devido à “sensação natural de estar sendo impedido e acusado de algo”. Em 1969, os dois autores de Panis Et Circenses seguiram para o exílio na Inglaterra, realizaram temporada de shows pela Europa e retornaram ao Brasil apenas em 1972.
Gil afirmou que o Tropicalismo, movimento que marcou época no Brasil, nasceu também da necessidade de fazerem algo diferente diante da atmosfera dos Beatles pelo mundo afora. Gil disse, além disso, que passou pelo Nordeste e vivenciou um momento regional forte. Convocou Caetano, Tom Zé, Chico Buarque. “A Tropicália foi o último movimento modernista e o primeiro pós-modernista. A simultaneidade pós-moderna já estava impressa em Super bacana, por exemplo”, referindo-se a uma das famosas músicas de Caetano. Gil afirmou que Doces Bárbaros – o grupo de MPB dos anos 1970 formado por Gil, Caetano, Bethânia e Gal – simbolizava “o Tropicalismo renovando seus propósitos”.
“Uma vez perguntaram para o meu pai em uma entrevista: ‘O que o senhor acha do Tropicalismo, onde o seu filho se meteu?’ E ele respondeu: ‘Tropicalista mesmo sou eu!’ Ele era médico e tratava de doenças tropicais”, comentou Gil, rindo junto com a plateia.
A história do pequeno ‘Beto’ e as primeiras experiências musicais
Filho de um médico e de uma professora, o cantor disse que foi uma criança “comportada até demais”, afirmando que o ambiente familiar contribuiu para o perfil do pequeno Gil. Apesar de ter nascido em Tororó, bairro de Salvador, em 1942, o compositor e sua família seguiram para Ituaçu, um lugarejo no interior do estado. O artista afirmou que a mudança aconteceu devido a uma demanda “natural” das cidades interioranas por saúde, educação e assistência jurídica.
Gilberto Gil foi alfabetizado pela tia-avó Lígia e, durante o depoimento no MIS, ele afirmou que os pais imprimiram em sua educação, assim como na de sua irmã Gildina, o “selo da importância social”. O cantor e compositor disse que só ingressou na escola no ginásio, no Colégio Maristas, em Salvador. “Fiquei assustado com a movimentação de cerca de 500 alunos. Eu não estava acostumado. E também me lembro da postura autoritária dos professores e irmãos maristas.”
O carnaval do pequeno Gil acontecia na porta da casa de sua tia Dolores, em Salvador. Assim, o artista conheceu os blocos, os cordões e as batucadas e assistiu à passagem do primeiro trio elétrico, em 1950. “Ainda lembro de Filhos de Gandhi, em 1949, ainda está bem vivo em minha memória.”
O primeiro contato de Gil com a música aconteceu por meio do rádio. Diariamente, a família escutava a Rádio Nacional, a Tupi ou a Mayrink Veiga. “Era quase impossível sintonizar rádios da Bahia, elas não tinham potência para alcançar locais do interior”, afirmou Gil. Como os pais optaram por não terem vitrola, Gilberto Gil costumava ir às casas de comerciantes da cidade para ouvir canções de Luiz Gonzaga, irmãs Batista, Dalva de Oliveira, Jorge Goulart, entre outros artistas. Além disso, havia feiras aos sábados em Ituaçu, onde o cantor ouvia o som de violeiros e cantores que se juntavam a comerciantes de mandioca, aipim e farinhas diversas.
O primeiro instrumento de Gilberto Gil foi um acordeão de 80 baixos. “’Beto’ disse que queria ser ‘musgueiro’ pai de filho.” O artista afirmou que era dessa forma que sua mãe, Claudina – que fará 99 anos em 2012 -, se referia aos planos do filho em ser músico. Incentivada pelo entusiasmo de Gilberto por Luiz Gonzaga – considerado por ele a “primeira grande viagem musical” -, Dona Claudina colocou o jovem Gil em uma escola de acordeão, instrumento que estava na moda na época. Aos 14 anos, Gilberto Gil saiu formado da Academia de Acordeão Regina. O artista chegou ainda a comentar sobre a formação do grupo Os Desafinados, no Colégio Maristas.
A transição do acordeão para o violão – instrumento que marcou sua carreira artística – aconteceu por meio da irmã Gildina, que tocava piano, mas que acabou comprando o instrumento de cordas. A presença do novo equipamento em casa coincidiu com a chegada da bossa-nova. “Lembro que João Gilberto não tocava propriamente samba. Chega de saudade, por exemplo, era baião mais samba. Era uma sensação muito nítida, muito clara para mim”, afirmou Gil, dando uma “palhinha” de músicas de João Gilberto, um dos grandes nomes do estilo musical. “Até que percebi que queria me dedicar àquele instrumento.” O cantor comprou o equipamento na antiga Mesbla antes de entrar na universidade.
Gil apareceu no Show dos Novos, programa de Jorge Santos, na TV Itapoã. Segundo ele, Caetano Veloso, seu futuro parceiro em composições, gostava de assisti-lo. “Dona Canô, mãe de Caetano, dizia ao filho: ‘Caetano, venha ver aquele neguinho que você gosta’”, afirmou Gil, com sorriso no rosto.
Um futuro próximo
Durante a palestra, o compositor precisou segurar o choro quando recordou o nascimento de sua primeira filha, Nara, e também quando comentou sobre o show no plenário da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, em 2003.
O público poderá conferir no próximo ano um disco de samba de Gilberto Gil, segundo o cantor. Dentre os planos para um futuro próximo, está o investimento em ‘Fé na Festa’, um projeto de músicas nordestinas, tentando resgatar o forró antigo, com base em Luiz Gonzaga. “Quero levar o Fé na Festa para os Estados Unidos”, planeja o cantor.
Um homem indiscutivelmente com muita história para contar. Não é à toa que as seis horas de depoimento foram um recorde da série no Museu da Imagem e do Som. E a plateia, assim como os entrevistadores, ficaram com gosto de quero mais. Bem humorado e simples, Gil afirmou que ele “só se completa com o outro”. “Talvez a maior das minhas paixões seja a compaixão. Sempre tento incluir as escolhas dos outros em minhas escolhas.” “Sou parcialmente gente e parcialmente ente histórico”, concluiu Gilberto Gil ao fim do evento.