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A história de uma torcida que tem estádio, mas não tem time

Torcida organizada do Matsubara, de Cambará, se uniu para construir estádio para um time que trocou de cidade e deixou de existir

Por:
08/10/2013 às 15h15 Atualizada em 09/10/2013 às 11h59
A história de uma torcida que tem estádio, mas não tem time

Gabriel Hakimoto

Do GloboEsporte


 

Três dos 10 remanescentes da torcida organizada TOM (esq. para direita): Ovanir dos Anjos, Moacyr Tavares Duarte e Waldir Camargo. Missão deles é manter o estádio para que não se deteriore


Na pequena Cambará, no norte do Paraná, um grupo de torcedores encarna uma peculiaridade: eles são os proprietários do estádio da cidade, com capacidade para 20 mil pessoas, mas já não contam com um time para torcer. O esforço de anos para construir um campo que abrigasse o Matsubara, equipe que já foi uma das forças do interior do estado, resultou em uma desilusão para os apoiadores, que ficaram órfãos quando o clube abandonou a cidade - um dos últimos passos antes de deixar de existir.


Criado em 1974 por Sueo Matsubara, um empresário do ramo agrícola, o clube encerrou suas atividades em 2009 na terceira divisão do campeonato Paranaense. O time foi celeiro de atletas de expressão, entre eles o atacante Nilmar (ex-Inter e seleção brasileira), contou com o jogador Neto (ex-Corinthians) e teve o ator Nuno Leal Maia como técnico. Porém, apesar da tradição que criou no interior paranaense, acabou trocando de cidade.


Foi uma frustração especialmente para a Torcida Organizada do Matsubara, a TOM, criadora do movimento de construção do estádio. Apesar do desgosto, o grupo tenta permanecer unido, marcado pela herança dos tempos em que a cidade se mobilizou para dar de presente ao Matsubara um local para mandar seus jogos no Campeonato Paranaense. A história começou nos anos 80, quando os torcedores organizaram rifas, arrecadaram dinheiro e fizeram um mutirão com trabalhadores voluntários para colocar em pé o Estádio Regional, que se transformou na casa do time.


Foram mais de dez anos jogando ali sem problemas, até o início da década de 90, quando o time se destacou no quadrangular final do Campeonato Paranaense de 1993. O que parecia motivo de comemoração teve um gosto amargo, pois o regulamento previa que apenas locais com capacidade mínima de 20 mil pessoas poderiam receber jogos. O Matsubara teve que mandar suas partidas em Maringá, no estádio Willie Davids.

Apaixonados pelo time, os torcedores voltaram a mobilizar toda a cidade para reunir mais recursos e dar ao Matsubara um estádio ampliado, que pudesse receber até mesmo a final do Paranaense, como sempre sonharam. Foram dois anos de muito esforço até o dia da entrega do estádio, agora maior.


Pouco antes do início dos preparativos para o Campeonato Paranaense de 1995 e com a conclusão das obras, a torcida do Matsubara foi surpreendida pela notícia de que o time estava sendo transferido para Londrina. Atrás de mais recursos, os dirigentes do clube decidiram trocar sua casa, seu estádio e deixar para trás toda a TOM.


- Assim que fomos entregar as chaves do estádio, com uma lotação boa, que poderia render muito ao Matsubara, o presidente comunicou que estava deixando Cambará para conseguir mais público e renda em Londrina. Justamente no dia em que o povo tinha se sacrificado e terminado as obras - lembra Ovanir dos Anjos, atual vice-presidente do TOM.


A aventura em Londrina, os craques e a volta melancólica

Em Londrina, a primeira temporada do Matsubara empolgou o clube. A diretoria investiu alto contratando o jogador Neto (ídolo do Corinthians e campeão Brasileiro em 1990), além de uma equipe forte que ficou na terceira colocação (o Paraná foi o campeão, e o Coritiba, o vice), que lhe rendeu o título de campeão do interior.

Tempos áureos: estádio do Matsubara lotado

 


Em 1996, já sem Neto, a nova tentativa de atrair a atenção foi a contratação do ator Nuno Leal Maia como técnico, mas o time naufragou na 15ª posição. O ano seguinte foi o último da aventura do Matsubara em Londrina. O clube não conseguiu atrair torcedores, os investimentos cessaram e a equipe voltou para sua antiga casa. Em Cambará, porém, o Matsubara encontrou os torcedores ainda irritados com o abandono.


- Quando ele (Sueo Matsubara) voltou, a cidade estava revoltada. Ele sempre reclamou que aqui não dava mais renda, mas ele queria o quê? Nos abandonou e achou que todos estariam de braços abertos? Ele acabou com a história do clube. Hoje em dia, os meninos de 18 anos nem sabem mais o que é o Matsubara - desabafou Ovanir dos Anjos.


Sem apoio em Cambará, o clube foi definhando e caindo até jogar em 2009 a terceira divisão do Paranaense mandando seus jogos na cidade de Santo Antônio da Platina. O clube encerrou suas atividades no mesmo ano, depois de não conseguir voltar para a segunda divisão.


Torcedores mantêm o estádio e a memória

Atualmente, o estádio construído com a força da cidade de Cambará está sem uso, mas continua administrado e cuidado pela TOM. O último grande evento ocorrido foi um jogo envolvendo o time master do Corinthians, que vistou a cidade para uma partida beneficente e levou mais de 5 mil pessoas. De resto, o Regional é usado para eventos esportivos e escolares do município.

Torcedores do TOM que organizaram a construção

 

Os dez integrantes que restaram da TOM lutam para manter a história do grupo intacta. Entre as atividades, existem encontros no estádio e reuniões para saber o futuro do grupo. A luta atual é para trocar o nome do estádio para Regional Vicente de Camargo - organizador da arrecadação e das obras da construção na década de 80.

 

Apesar de não ser utilizado há mais de um ano, Dos Anjos rebateu a ideia de que o estádio esteja abandonado. Sua preocupação atual é preservar o trabalho árduo dos moradores de Cambará na década de 80. Ele relembra o sacrifício que foi erguer um estádio do nada.

 

- O Vicente criou uma comissão de construção. Compramos o terreno, um lugar que não tinha nada, era só mato. Começamos do zero e em seis meses entregamos o estádio para o Matsubara jogar - disse.

Estádio em Cambará está sem receber jogos





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