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O Mestre Torneiro João Del Col

Símbolo de Cambará

Por:
16/10/2013 às 09h56 Atualizada em 17/10/2013 às 08h31
O Mestre Torneiro João Del Col

Roberto Francisquini


 

O município de Cambará completou, no dia 21 de setembro, 89 anos de emancipação político-administrativa. A cidade é tipicamente colonizada por paulistas e mineiros. Para contar um capitulo desta história, convidamos João Del Col, um italiano nascido em Ourinhos-SP, que, como muitos cambaraenses de paixão, deixaram sua terra natal para edificar suas vidas na Terra da Promissão.

Cambará tinha só cinco anos quando seu João nasceu. Porém, a simbiose que os tornou tão fãs um do outro só aconteceria 20 anos mais tarde. “Cheguei aqui num domingo, dia 28 de maio de 1949” conta seu João.

Especialista em tornearia, João Del Col foi atraído a Cambará, por conta da pujança destas terras. “Vim para Cambará por causa das horas extras. Eu trabalhava na estrada de ferro e fazia muitas horas extras, porque o salário era muito baixo, mas o governo cortou o beneficio porque não estava agüentando pagar e o salário foi lá em baixo. Não tive alternativa a não ser sair da cidade” explica de um jeito simples e franco.

Seu João explica que, naquela época, quem lhe ofereceu uma oportunidade foi Geraldo Michelato. “Muitos, aqui em Cambará ,já me conheciam, haviam feito convites para vir trabalhar aqui. Mas foi o Geraldo quem me fez uma boa proposta e não recusei. Cheguei no dia 28 (domingo) e no dia 29 já estava trabalhando” recorda.

Seu João não era casado na época, veio sozinho desbravar a terra da promissão.

Aqui, conheceu Eunice Mendonça, que mais tarde se tornaria sua esposa e, juntos, tiveram seis filhos; Cleri, Ítalo, João Luiz, Rose, Remir e Maria Eunice.

“Eu a vi na rua pela primeira vez, e só depois de um ano fui vê-la de novo. Ela trabalhava em dois empregos, já que na época a situação era muito difícil. Nos conhecemos e acabamos casando” resume. “Em fevereiro do ano que vem vamos completar 60 anos juntos” recorda. “Esse amor é um amor de verdade. A gente briga um pouquinho de vez em quando, mas isso é normal. Ela gosta muito de mim e eu gosto muito dela. Ela é uma excelente pessoa sem dúvida e mãe de seis filhos que a amam muito. Então, o amor é a base do nosso relacionamento” descreve.

Aos 84 anos, João Del Col não perde um dia de serviço. É um dos primeiros a chegar à fábrica que fundou e é invariavelmente um dos últimos a sair. “Vivo o melhor dia da minha vida, todos os dias” explica.

 

Acompanhe os principais trechos da entrevista.

 

 

Circulando: Quando o senhor se casou o senhor já era o João Torneiro?

João Del Col: Quando eu cheguei aqui ninguém sabia o meu sobrenome, todos me conheciam como João Torneiro.

Circulando: Alguma implicância com o apelido que virou sobrenome?

João Del Col: Ao longo da vida, trabalhando sem parar, eu aprendi a gostar (risos).

 

 Circulando: O senhor é um mestre da metalurgia. Que paixão é essa que o senhor tem pelo torno?

 João Del Col: Não sei se devo dizer que é uma paixão. Paixões acabam. Digo que é uma coisa que gosto de fazer, que me dá prazer. Aprendi desde cedo, que se for fazer algo que lhe vá acompanhar por toda sua vida, então faça algo que te faça feliz, assim você não deseja que isto acabe um dia.

 

Circulando: Com oitenta e quatro anos o senhor ainda está na ativa. Já pensou em parar?

 João Del Col: Não, eu prefiro a morte a parar de trabalhar. Já que vi que se eu parar, vou morrer muito rápido. O meu medo agora é do cérebro dar uma “pifada”. Eu me sinto bem se tiver aqui dentro da fábrica. Dentro de alguns dias, voltaremos a trabalhar aos sábados e agora eu estou contente. Ficar dois dias no fim de semana parado é muito triste para quem sempre foi acostumado a trabalhar na vida.

 

Circulando: O que o senhor faz para manter a saúde e essa disposição?

 João Del Col: De início eu fumava, mas consegui largar de fumar. Álcool não bebo porque tenho que tomar o remedinho que é imprescindível e também só como o necessário. Do resto é dar o máximo que se pode, a cada dia que se levanta da cama. Não tem segredos. Um dia, isto tudo irá acabar, mas só daqui a algum dia... Então, vivo o melhor dia da minha vida, todos os dias.

 

Circulando: O senhor fez alguma faculdade?

 João Del Col: Não, de um modo geral eu me considero até analfabeto já que não tive nem o primário. Cheguei a freqüentar uma escolinha no sítio, mas lá se aprendia muito pouco. Tudo o que aprendi foi na prática. O trabalho foi me ensinando.

 

Circulando: O senhor projetou a expansão de sua empresa ao patamar de hoje ou foi uma conseqüência?

 João Del Col: Foi feito sem grandes planos, ela veio crescendo e meus filhos sempre me acompanharam. O que eu aprendi, fui passando para eles e, hoje, perto deles, eu não sou praticamente nada.

 

Circulando: Como foi o início da carreira aqui em Cambará?

 João Del Col: Passei a ser patrão quando comprei a minha primeira máquina. E isto aconteceu em 1958. Antes, eu trabalhei para o Geraldo Michelato, depois cheguei a trabalhar com o avô do atual prefeito João Mattar, fui também para a Trautwein, e só depois é que eu fui comprar uma máquina.

 

Circulando: Por falar em João Mattar, atual prefeito de Cambará. O senhor já se envolveu em política alguma vez?

João Del Col: Já me chamaram, sim, para ser vereador, mas preferi deixar para lá. A política é algo muito complicado.

 

Circulando: Como assim?

João Del Col: É sempre a mesma. Troca de prefeito e continua a mesma coisa. Sempre se diz que vai fazer, faz até um limite, depois não se faz mais nada. Gosto mesmo é de ser prático.

 

Circulando: Com oitenta e quatro anos o que o senhor viu da vida?

João Del Col: Mesmo com essa idade faltou aprender bastante. Faltou a bendita escola e eu poderia estar bem lá na frente. Coragem para trabalhar não faltou, eu fazia aquilo que nunca tinha visto. Se não dava certo uma vez, tentava outra. A persistência era grande, mas, por outro lado, a pobreza também. Tudo foi feito na raça.

 

Circulando: Quais são seus sonhos?

João Del Col: Crescer bastante ainda, principalmente na área agrícola, onde a natureza da terra nos ajuda mais. Já estamos começando a investir nessa área, e sonhamos muito com isso.

 

Circulando: Um recado para os jovens:

João Del Col: Isso é triste. Os jovens de hoje em dia vão morrer muito cedo. O que eles estão fazendo nós também fazíamos. Só que fazer coisa errada tinha limite. Isso não pode continuar ou a juventude estará perdida. O grande problema na juventude está na mulher. Deveria ser proibido uma mãe trabalhar fora de casa, porque outra pessoa para criar o filho da gente não serve. A escola ensina, e até educa, mas até certo tempo. Sem a base familiar, dificilmente teremos uma juventude equilibrada.

 

Circulando: Uma curiosidade. O senhor é torcedor de algum time de futebol?

João Del Col: Eu sou contra o zero a zero (risos). Não importa o time que esteja jogando, o importante é ter gol. Quanto mais gols marcados melhor. Não deveria existir o zero a zero, isso não pode continuar, é chamar o povo de burro.


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