
Cambará
Marco Martins e Luiz Guilherme Bannwart/da redação Tribuna do Vale e www.tanosite.com
“Eu imagino a dor que o meu filho passou longe de mim. E eu não pude fazer nada. Eu me sinto um lixo. Eu não me sinto uma cidadã. Eu não sinto proteção. Eu não sei para quem pedir proteção. Eu não sei em quem confiar.” O desabafo emocionado e da doméstica Vilma Aparecida Gomes, 41, que acusa homens da Polícia Militar de terem humilhado e agredido covardemente seu filho de 17 sem nenhum motivo em Cambará.
Apesar de se sentir desprotegida e fragilizada, a mãe disse que vai fazer o possível para que os policiais que ela acusa de terem torturado o seu filho sejam identificados e punidos para que situações como essa parem de acontecer dentro da sociedade. “Só que se precisar ir ao fim do mundo, dar a minha cara a tapa para defender o meu filho, assim eu vou fazer, porque eu sei o que tenho dentro de casa”, garante.
O sofrimento de dona Vilma começou no dia 20 de março quando o seu filho – acompanhado de um amigo também adolescente – foi abordado por uma viatura da Rondas Ostensivas Tático Móvel (Rotam), força da Polícia Militar preparada para agir em ocorrências de risco. Obrigado a entregar a blusa que vestia a um dos policiais, o menino percebeu que quando a peça foi devolvida estava tomada de fezes. “O policial mandou meu filho vestir a blusa cheia de fezes, mas o menino se negava a vestir a peça porque já tinha percebido o cheiro. Foi aí que começou a sessão de tortura. Foram tapas na cabeça e no rosto. Para acabar com a tortura física meu filho concordou em vestir a blusa completamente cheia de fezes, inclusive na toca. O policial chegou a esfregar a toca cheia de fezes na cabeça do menino. Os outros policiais riam enquanto o outro esfregava as fezes em sua cabeça”, revela.
Após a abordagem, o filho de dona Vilma e seu amigo foram liberados, porém continuaram a ser hostilizados pelos policiais, com piadas e xingamentos.
A doméstica disse que não acreditou quando viu o filho chegando a casa com a blusa em uma das mãos e as fezes escorrendo pelo seu corpo. “Eu fiquei muito revoltada. Não me senti cidadã. Quem é que está aqui para me proteger? Nessas horas você acha que bandido lhe protege melhor do que a própria polícia. Em me senti lesada. Com 41 anos eu nunca vi na imprensa história de policiais que tivessem passado fezes em uma pessoa”, revela. “Poxa vida, para quê eu levanto às 5h30? Para quê meu marido trabalha a noite inteira? É justamente para a gente poder manter meus filhos, justamente para jamais ter que reconhecer que um filho é bandido. A gente dá o que é possível para não ver um filho em uma situação dessas”, desabafa.
Revoltada, dona Vilma juntou a peça de roupa e se dirigiu até a delegacia para denunciar as agressões. No entanto, no caminho, a mãe encontrou uma viatura da PM e relatou o que tinha acontecido na esperança de que sua revolta encontrasse apoio. Ledo engano. A doméstica conta que além tentar persuadi-la a não registrar a ocorrência, os policiais militares a intimidaram.
No dia seguinte dona Vilma foi até a Delegacia de Policial Civil e registrou a ocorrência. A mãe ainda tomou o cuidado de apresentar a peça ainda suja com as fezes e testemunhas para reforçar a denúncia. A doméstica também procurou o Ministério Público e a corregedoria da Polícia Militar em Curitiba para denunciar o caso.
Mais tortura, mais ameaças
Porém o histórico de agressões da PM contra o filho de dona Vilma não cessaram. Na noite de terça-feira, dia 1º, ela foi surpreendida com a informação de que o seu filho de 17 anos fora detido pela mesma equipe da Rotam junto com a irmã de 18 anos. “Eles pegaram o meu filho só para bater. Eles (os policiais) queriam se vingar. Um policial chegou perto dele e disse ‘você é quem gosta de denunciar policial, não é? ’. Porque eles não vieram falar comigo? Fui eu quem denunciou. Eu sou responsável pelo meu filho”, conta.
Apavorada, a mãe se dirigiu ao Destacamento da Polícia Militar em Cambará, mas a cena que ela viu a deixou desesperada. A mãe conta que ao entrar no local enxergou seu filho nu, jogado no chão de uma pequena cela, em uma situação humilhante depois de ser mais uma vez torturado. “Eu vi meu filho jogado no chão (...) ele tinha apanhado bastante. Eu imaginei a dor que ele passou longe de mim e eu não pude fazer nada”, detalha mais uma vez emocionada.
Dona Vilma diz que quando chegou ao destacamento todas as portas do local estavam fechadas. A mãe questionou porque o filho teria sido novamente detido e a resposta dada por um policial foi que com o garoto fora encontrado um cigarro de maconha. A irmã do adolescente tentou assumir a posse da droga, mas mesmo assim os dois foram levados para o destacamento.
Outro policial, conta a doméstica, chegou a intimidá-la novamente dentro do destacamento. “Ele me disse: então é a senhora quem está com ideia furada de denunciar polícia, não é? E foi mais longe: então vai com essa idéia, que a senhora ainda vai trabalhar para pagar indenização para nós”, teria dito o policial. Pior, segundo dona Vilma, o mesmo policial teria lhe dito que toda vez que o seu filho fosse encontrado na rua “seria assim”, ou seja: humilhado e torturado.
“Quero perguntar se eles têm filho”
Dona Vilma Gomes diz que mesmo denunciando as agressões e humilhações que seu filho sofreu ela ainda teme por sua segurança e da sua família. A doméstica diz que encontra dificuldades para viver tranquila porque não sabe em quem confiar. “Eu não sei em quem confiar. Porque qualquer policial que eu encontrar vai saber que um dia eu denunciei um colega de farda. Tenho medo do meu filho e dos outros saírem na rua. Nós não temos proteção. Não temos a quem recorrer”, desabafa.
Mesmo com medo, ela diz que gostaria de encontrar com os policiais que agrediram o seu filho. “Espero um dia pode encontrar com esses policiais e perguntar: vocês têm filhos? Porque se você não tem um dia você vai ter. E se a Justiça daqui falhar, a do céu vem. Pode demorar, mas vem. Aí eu quero ver”.
Comando já identificou os policiais
O comando do 2º Batalhão de Polícia Militar, com sede em Jacarezinho, informou ontem, 4, que os policiais da Rondas Ostensivas Tático Móvel (Rotam), que supostamente teriam agredido e humilhado o adolescente de 17 anos, filho de dona Vilma Gomes, já foram identificados.
O capitão Robson Falk, a pedido do comandante do BPM, tenente-coronel Antônio Carlos de Moraes, disse ontem, 4, que o comando aguarda que o adolescente ou a mãe do garoto compareça à sede do batalhão para formalizar a denúncia. Mesmo assim, o caso já está sendo investigado. O capitão explicou que os policiais foram identificados através da escala de trabalho da corporação.
Falk também confirmou que o prefeito de Cambará, João Mattar Olivatto (PSB) entrou em contato com o BPM e pediu que o caso fosse apurado. Vilma Gomes procurou o prefeito da cidade e pediu a sua ajuda para que a Justiça seja feita.
Olivatto também disse ontem que, se confirmadas as denúncias, os policiais devem ser exemplarmente punidos. Para ele, é um absurdo que nos dias atuais, policiais treinados sejam capazes de tamanha truculência e violência. O prefeito disse que tomou conhecimento do que tinha acontecido pela própria Dona Vilma Gomes. “Fiquei chocado com o que eu ouvi. Mas confio no trabalho do comando da PM em Jacarezinho e sei que a investigação será isenta”, resumiu.