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PMs são acusados de ter torturado e ameaçado estudante do Colégio Agrícola de Cambará

Caso repercute em todo Estado. Jornal diz ter acesso ao áudio das gravações que não deixam dúvidas que estudantes foram torturados por cerca de 10 minutos

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini
16/04/2014 às 19h57 Atualizada em 16/04/2014 às 20h23
PMs são acusados de ter torturado e ameaçado estudante do Colégio Agrícola de Cambará

 

 

 

Cambará

Marco Martins e Luiz Guilherme/da redação Tribuna do Vale e portal tanosite.com


 


A apresentação da gravação com o áudio da sessão de tortura dentro do Colégio Agrícola Mohamed Ali Hanzé em Cambará, indicam que os dois policiais militares, que atenderam o chamado de uma monitora do estabelecimento, agrediram verbalmente e ameaçaram, inclusive de morte, os 12 adolescentes que acusam a PM. O áudio também indica as agressões físicas, pois é possível ouvir os gritos de dor e os pedidos dos estudantes para que as agressões cessassem, e perceber que os lamentos são seguidos de tapas, socos, pontapés e mais ameaças. As agressões foram registradas no dia 13 de fevereiro. 

O áudio adquirido pela reportagem é a mesma gravação que está anexada ao inquérito criminal aberto pela Polícia Civil, assim como a sindicância militar instaurada pelo comando do 2º Batalhão de Polícia Militar, com sede em Jacarezinho. As provas podem ser determinantes para responsabilizar os dois policiais, que ainda não tiveram seus nomes divulgados, acusados pelas agressões. 

Na segunda-feira, 15, pelo menos duas das 12 vítimas confirmaram a sessão de tortura. Os adolescentes deram detalhes da ação truculenta dos policiais que durou cerca de 10 minutos. “Eles disseram que se voltassem aqui (no colégio) iam nos matar”, diz uma das vítimas. “A gente fez bagunça sim, naquele dia, mas não justifica chamar a polícia para agredir a gente”, desabafa o mesmo adolescente. 
Uma outra vítima, que não chegou a ser agredida fisicamente, contou que viu os policiais agredindo os outros estudantes com tapas na nuca, socos nas costas e pontapés. “Só não fui agredido porque fiquei o tempo todo de cabeça baixa com medo de apanhar. Mesmo assim recebi ameaças”, revela. “Teve muito excesso, não precisava bater na gente. Não tinha porquê”, completou. 
Em um dos trechos do áudio ficam claras as ameaças dos policiais. “Se tiver que voltar aqui o bicho vai pegar”. Já em outro momento um dos PMs reafirma a ameaça. “Você quer ‘loprar’ o quê? Você quer ‘loprar’? Eu mato você aqui”. 
A chefe do Núcleo Regional de Educação em Jacarezinho, Silvia Regina de Souza continua cobrando agilidade e isenção na investigação. Para a professora existem evidências suficientes que comprovam o excesso dos policiais dentro do Colégio Agrícola de Cambará. “O áudio é claro e facilita a identificação da voz dos policiais durante a abordagem aos adolescentes”, garante Silvia de Souza. 

O diretor do colégio, Eleandro de Oliveira Silva (foto), que está a frente da direção do colégio há oito anos e é professor há 20, diz que nunca acompanhou uma situação tão grave e desproporcional como a feita pelos dois policiais. 
Segundo ele, quando há algum tipo de tumulto ou algazarra dos alunos, o procedimento correto é chamar a Patrulha Escolar, unidade da Polícia Militar especializada em atender ocorrência no ambiente estudantil. O diretor informou que quer saber porque a monitora chamou os policiais da rádio patrulha e não a Patrulha Escolar. 
A monitora, que também não teve o nome divulgado, pode ser responsabilizada criminalmente. A profissional, que mantinha vínculo contratual com a Secretaria Estadual de Educação (SEED), coincidentemente teve o contrato de trabalho finalizado logo após as denúncias de agressões, e o vínculo não foi renovado. 

“PMs agiram com pulso firme e diálogo” 

O conselheiro tutelar Márcio Henrique Carulla da Silva, 28, que acompanhou a ação dos policiais militares na ocorrência dentro do Colégio Agrícola de Cambará negou ontem, 15, que a polícia tenha agredido e muito menos torturado os 12 adolescentes. Ele defende os policiais. 
Conforme as declarações de Silva, a ação dos dois PMs foi feita dentro da lei e sem excesso. “Eles agiram com pulso firme e com diálogo, mas em nenhum momento houve agressão”, garantiu. 
Segundo o conselheiro, a versão apresentada pelos adolescentes e confirmada pela chefe do Núcleo de Educação, Silvia Regina de Souza, e pelo diretor do colégio, professor Eleandro de Oliveira Silva está distorcida. “Não existe trote solidário. Essa garotada (os estudantes) é barra pesada, desrespeitosa e não teve educação dos pais”, acusa. 
Silva disse que já apresentou sua versão à Polícia Civil e também à Polícia Militar e que está à disposição para qualquer esclarecimento. 

Áudio indica pessoas se agredindo, diz comandante da Polícia Militar 

Para o comandante do 2º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Antônio Carlos de Morais o áudio que comprova as agressões dos policiais militares aos adolescentes do Colégio Estadual Mohamed Ali Hamzé em Cambará não é conclusivo. Para o oficial, que reconhece não ter ouvido o áudio, mas sim lido a sua transcrição, a prova apresentada pelas vítimas não é conclusivo e assim como não comprova que tenha havido pelo menos excesso dos policiais. “Existem sim pessoas gritando. Mas isso faz parte de um contexto que foi apresentado. Realmente indicam pessoas agredindo outras (sic). Existe um áudio, apresentado pelos adolescentes, onde denota-se que existem pessoas umas agredindo as outras e falando palavras como “eu vou te bater”. Alguma coisa nesse sentido”, garante o comandante. 
Em entrevista ao repórter Wilson Kirshe, da RPC TV, afiliada da Rede Globo no Paraná, na segunda-feira, 14, o oficial evitou reconhecer que a gravação comprova as agressões dos seus subordinados. “Seria muito precoce da minha parte antecipar isso, visto que o encarregado (um oficial) está caminhando para essas apurações. Ele tem mais 10 dias úteis para a conclusão (da investigação)...aí sim vai chegar às minhas mãos. A partir daí eu vou analisar todo esse caderno e a gente opina pelo encaminhamento para se chegar até onde se aplica a punição, havendo a comprovação do excesso”, disse o tenente-coronel. 
O tenente-coronel também não quis admitir que os policiais acusados retiraram as suas identificações da farda antes de começar as agressões. Segundo o oficial, não é possível garantir que esse fato está comprovado na investigação. “Cidade pequena todos os policiais são conhecidos. Quem chamou os policiais os conhecem. Se eles quisessem omitir as suas identificações não seria possível porque são policiais conhecidos. Sem falar que eles já foram identificados desde o começo. Então não há como dizer que eles impediram a identificação. Se é que eles fizeram isso”, defende. “Assim como há adolescentes que dizem que foram agredidos, também há aqueles que dizem que não foram agredidos. E tudo isso ficará provado e comprovado em cima de tudo que foi dito”, completa. 
Conforme Antônio Carlos de Morais, os policiais envolvidos na ocorrência não foram afastados das suas funções e permanecem atuando nas ruas. “Eles permanecem em atividade até o final da sindicância. Havendo a conclusão da investigação, as providências serão tomadas”. 

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