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Derrota na Câmara e racha no Senado reforçam fragilidade política de Dilma

Resultado das disputas para o comando do Congresso promete dar dor de cabeça ao governo, que teme uma “pauta-bomba” no Legislativo

Por:
02/02/2015 às 09h50
Derrota na Câmara e racha no Senado reforçam fragilidade política de Dilma

Curitiba

André Gonçalves, Correspondente Gazeta do Povo


 

As eleições para o comando do Congresso Nacional mandaram um recado para a presidente Dilma Rousseff (PT): o governo não terá vida fácil no Poder Legislativo. Na Câmara dos Deputados, o desafeto do Palácio do Planalto Eduardo Cunha (PMDB-RJ) confirmou o favoritismo e foi eleito presidente no primeiro turno, com quase o dobro dos votos de Arlindo Chinaglia (PT-SP). Renan Calheiros (PMDB-AL) foi reeleito para o quarto mandato na presidência do Senado, mas a vantagem para o adversário da oposição caiu de 38 para 18 votos em relação à disputa de 2013.

 

Cunha recebeu 267 votos, contra 136 de Chinaglia, 100 de Júlio Delgado (PSB-MG) e 8 de Chico Alencar (PSol-RJ) – houve mais dois em branco. Em discurso depois da votação, Cunha reforçou a proposta de uma gestão independente em relação ao Executivo. “O parlamento, pela sua independência, sabe reagir. E reagiu no voto”, afirmou. Desde o ano passado, o peemedebista tem liderado uma série de rebeliões contra o governo, dentro da própria base aliada.

 

Nos bastidores, o principal temor de Dilma em relação a Cunha é a aprovação de uma “pauta-bomba”, que aumente gastos ou retire recursos já contabilizados pelo governo. Uma das promessas dele seria a redução do porcentual da Desvinculação das Receitas da União (DRU), mecanismo que permite que o governo utilize livremente 20% de suas receitas. A prorrogação da DRU precisa ser votada ainda neste ano.

 

Outro temor é quanto à possibilidade de abertura de processo de impeachment contra Dilma, por suposto envolvimento com desvios na Petrobras. Cabe ao presidente da Câmara receber denúncia de crime de responsabilidade, o que abre o processo. O próprio Cunha, no entanto, é citado nas investigações da Lava Jato como beneficiário do esquema, assim como Calheiros. Eles negam.

 

Senado

 

Calheiros venceu o colega de partido Luiz Henrique da Silveira (SC) por 49 votos a 31 – houve ainda um voto nulo. Os 49 votos são o mínimo necessário, por exemplo, para aprovar reformas constitucionais.

 

Silveira contou com o apoio de pelo menos três peemedebistas e mais sete partidos (PP, PDT, PSDB, DEM, PSB, PPS e PSol). Os dois primeiros são da base de Dilma, mas não aceitaram apoiar a reeleição do alagoano, que contou com o aval petista.

 

É a quarta vez que o peemedebista assume o cargo. A vitória marca uma das maiores reviravoltas políticas da última década no país – em 2007, ele renunciou para evitar a cassação e permaneceu seis anos na “geladeira”.

 

Após o resultado de ontem, Calheiros acenou que pretende exercer um mandato “independente” em relação ao Executivo. “ Desejo renovar meu firme compromisso pela autonomia e independência do Senado Federal. As deliberações serão tomadas de forma coletiva, nunca serão monocráticas ou arbitrárias”, disse. O alagoano também prometeu “empenho pessoal” para a aprovação da reforma política.

 

Para a oposição, no entanto, a base governista pagou caro pela vitória. “O resultado pode até ter alegrado alguns, como a maioria do Senado, mas entristeceu enormemente a maioria da população brasileira”, afirmou o senador Ronaldo Caiado (DEM-GO).

 

“Kamikaze”, PT fica fora da direção da Câmara Federal

 

Em dificuldades para conseguir apoios partidários à candidatura de Arlindo Chinaglia (PT-SP), os petistas adotaram uma estratégia “kamikaze”: abriram mão dos demais cargos na Mesa Diretora.

 

Com a derrota ainda no primeiro turno, o partido ficou de fora de todas as decisões de cúpula da Casa pelos próximos dois anos. No Senado, o partido deve indicar o primeiro vice-presidente, em eleição marcada para amanhã.

 

A última vez em que o PT ficou sem representação na Mesa da Câmara foi entre 2005 e 2007, durante a gestão de Aldo Rebelo (PCdoB-SP), mas ele era aliado dos petistas.

“Hoje a gente tem que reconhecer que a nova maioria teve seus acertos. Cabe a nós acatar e esperar que a base do governo se recomponha”, disse o líder do partido na Câmara, Vicentinho (PT-SP).

 

Sobre a gestão do PMDB, o petista disse que a tendência é de independência, mas não de oposição. “Espero que eles tenham juízo”, declarou.

 

Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que conquistou ontem a presidência da Casa,conseguiu reunir em torno de si um bloco com 14 partidos, totalizando 218 deputados, enquanto o PT só reuniu cinco legendas e cerca de 180 parlamentares.

 

O PDT, que pretendia fazer parte do bloco petista, chegou três minutos atrasado no prazo para a formalização do grupo e deixou de reforçar a chapa de Arlindo Chinaglia.

 

Derrota

 

O governo trabalhou com um cenário de derrota. Antes mesmo de saber o resultado da eleição, o Palácio do Planalto mandou a Cunha recados segundos os quais pretende iniciar um diálogo com o peemedebista a partir de hoje.

 

Vários ministros do governo Dilma Rousseff – entre eles Aloizio Mercadante (Casa Civil), Pepe Vargas (Relações Institucionais) e Jaques Wagner (Defesa) – foram escalados para conversar com os coordenadores da campanha de Cunha.

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