

Via Central Press
A crise hídrica brasileira não é atual. Ela vem de longa data e não se resume a secas, mas também a extremos hidrológicos. A afirmação é de José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Internacional de Ecologia e membro da Academia Brasileira de Ciências. Considerado o maior especialista em recursos hídricos do Brasil, Tundisi afirma que o país terá que lidar com o desequilíbrio hidrológico, que mostra situações de extrema seca em algumas regiões e excesso de chuva em outras.
Segundo Tundisi, a cultura da abundância está incorporada à bandeira do Brasil. Como o país possui 12% das reservas de água do planeta, a população brasileira gasta muito. "Porém, com a real queda na quantidade de chuvas, é necessário reformular o pensamento - passar da cultura da abundância para a cultura da escassez", alerta. Para ele, é preciso diminuir muito a demanda, melhorar a governança, investir em programas de saneamento e de reuso, um dos grandes problemas do Brasil.
Há quase dois anos, com outros 14 cientistas, Tundisi lançou uma carta aberta ao governo com sugestões de medidas emergenciais para contornar a crise hídrica no Brasil. Entre as propostas, a carta chamou atenção para a necessidade de uma postura preditiva no gerenciamento de recursos hídricos, evitando "surpresas". O que se presenciou no início do ano, no sistema Cantareira, por exemplo, já havia sido previsto pelo especialista, que alertou o governador de São Paulo e o secretário de Recursos Hídricos do Estado.
Tundisi fez um estudo para entender a real dimensão da crise hídrica brasileira e compara a situação com a crise de Barcelona de 2007-2008, a maior seca do século na Espanha, que atingiu todos os setores da economia, resultando em um prejuízo de um bilhão de euros.
A Espanha foi um dos mais de 40 países que já contaram com a ajuda de Tundisi para gerenciar seus recursos. O especialista ajudou o país europeu a atravessar a estiagem sem grandes traumas, com medidas como a redução do volume de água a 100 litros diários por família, aplicação de multas aos que extrapolavam o limite, importação de água da França e montagem de uma planta de dessalinização para a utilização da água do mar para abastecer Barcelona.