
Por Carlos Roberto Francisquini
Nascido e criado em Ribeirão Claro, no interior do Paraná, José Dias Neto, 21 anos, descobriu cedo que a arte seria mais que uma vocação, seria linguagem, abrigo e espelho. Licenciado em Artes Visuais, o jovem artista e professor transforma emoções em imagens com a naturalidade de quem respira tinta e observa o mundo com olhos que não se contentam com a superfície. Seus murais e telas já ocupam espaços públicos e afetivos, e sua obra dialoga com o real, o simbólico e o sensível. Nesta conversa exclusiva ao Circulando, Neto revela como sua cidade natal moldou sua poética, compartilha reflexões sobre o fazer artístico em tempos acelerados e defende uma arte viva, acessível e profundamente humana.
O papo rolou durante a realização da FESCAFÉ - Festa do Café em Ribeirão Claro, palco onde o artista também expressou sua arte.
Carlos Roberto Francisquini: Quando e como você descobriu sua vocação para a arte?
José Dias Neto: Descobri minha vocação ainda criança, quando comecei a observar o mundo com olhos mais atentos. Meu primeiro impulso artístico veio do desejo de entender as emoções humanas e de transformar silêncio em imagem.
CRF: Você se lembra da sua primeira obra? O que ela representava para você?
JDN: Minha primeira obra foi um desenho simples feito com lápis escolar, representando minha família. Representava minha tentativa de eternizar um momento que eu considerava perfeito. Desde então, entendi que a arte seria meu abrigo e minha linguagem mais honesta.
CRF: Como sua cidade natal, Ribeirão Claro, influenciou sua formação artística?
JDN: Ribeirão Claro me ofereceu um cenário silencioso, cheio de memórias e paisagens. As pessoas, a calmaria e o contato direto com o cotidiano interiorano me fizeram valorizar o detalhe, a textura e a emoção nas pequenas coisas.
CRF: Sua arte é muito marcada pela autenticidade. Como nasce uma ideia que depois vira obra?
JDN: Tudo começa com uma sensação. Pode ser algo que vi, ouvi ou senti. Às vezes, nasce do silêncio ou de um conflito interno. A partir disso, a imagem se forma, e a ideia toma corpo na tela.
CRF: Você diz que transita entre realismo, surrealismo e perfeccionismo. Como decide qual caminho seguir em cada trabalho?
JDN: Depende da mensagem que quero transmitir. O realismo me aproxima da essência visível, o surrealismo do inconsciente, e o perfeccionismo organiza tudo com equilíbrio e intenção. Não forço, deixo que a obra escolha seu caminho.
CRF: Como é sua rotina de criação? Existe um ritual ou você cria quando sente necessidade?
JDN: Costumo seguir meu próprio ritmo. Às vezes, acordo com uma imagem nítida e preciso colocá-la no papel ou na tela. Em outras, passo dias só observando e refletindo. Minha rotina é viva como minha arte.
CRF: A tinta a óleo parece ser um dos seus materiais favoritos. O que esse material te permite expressar que outros não permitem?
JDN: A tinta a óleo me oferece tempo. Ela me permite construir e desconstruir a imagem com calma, trabalhar em camadas, dar profundidade às emoções. É como se cada pincelada tivesse espaço para respirar.
CRF: Como foi o processo de desenvolvimento técnico ao longo dos anos? Você se considera autodidata ou teve mentores?
JDN: Sou majoritariamente autodidata, mas observo tudo. Aprendi muito com erros e acertos, com artistas locais e com a própria prática diária. Cada mural, cada tela, cada traço foi meu professor.
CRF: Seu estilo tem uma assinatura própria. Você se preocupa em ser reconhecido visualmente ou isso acontece naturalmente?
JDN: Acontece naturalmente. Eu apenas crio do meu jeito, com verdade. Acho que quando há autenticidade, a identidade visual nasce como consequência.
CRF: Você diz que “viver é expressar arte”. Como essa filosofia guia suas decisões diárias, dentro e fora do ateliê?
JDN: Tudo o que faço carrega intenção artística — desde um bom dia até um mural. Viver é se colocar no mundo, e eu escolhi fazer isso por meio da arte.
CRF: Como você vê a arte em momentos difíceis da vida, ela é cura, protesto, refúgio?
JDN: Ela é tudo isso e mais. A arte é uma ponte entre o que sentimos e o que não conseguimos dizer com palavras. É onde encontro respostas, abrigo e força.
CRF: Em um mundo tão acelerado e tecnológico, qual é o papel da arte hoje?
JDN: A arte desacelera, questiona, aproxima e humaniza. Ela nos lembra de sentir, refletir e imaginar — três coisas que o mundo digital muitas vezes tenta atropelar.
CRF: Recentemente você realizou murais em uma casa de acolhimento para pessoas com autismo. Como foi essa experiência para você?
JDN: Foi uma das experiências mais tocantes da minha vida. A sensibilidade daquele espaço me ensinou que a arte pode ser ponte, carinho, afeto e presença.
CRF: Como você enxerga a sua cidade?
JDN: Ribeirão Claro é pequena em tamanho, mas imensa em potencial humano e artístico. Enxergo uma cidade que pulsa memória e poesia em suas ruas e pessoas.
CRF: Qual é a sua visão sobre a arte em espaços públicos? Ela deve ser acessível a todos?
JDN: Com certeza. A arte precisa estar nas ruas, nos muros, nos olhares das pessoas. A beleza e a reflexão devem ser coletivas, não exclusivas.
CRF: Como o público geralmente reage ao se deparar com suas obras em espaços coletivos?
JDN: Vejo curiosidade, encanto e diálogo. As pessoas se aproximam, tiram fotos, fazem perguntas. A obra deixa de ser minha e passa a ser delas também.
CRF: Como lida com críticas ou interpretações diferentes do que você quis transmitir?
JDN: A arte é aberta. Cada pessoa vê o que carrega dentro de si. Às vezes me surpreendo com leituras que nunca imaginei, mas aprendo com todas elas.
CRF: Existe alguma obra que marcou profundamente sua vida? Por quê?
JDN: Sim, um mural que fiz durante um período pessoal difícil. Foi como deixar a dor na parede, transformar sofrimento em beleza. Aquela obra me curou.
CRF: Quem é o Neto fora das telas e pincéis?
JDN: Sou introspectivo, observador, sensível. Gosto do silêncio, da natureza, de pessoas verdadeiras. Vivo com intensidade, mas com calma.
CRF: Que projetos você sonha em realizar nos próximos anos?
JDN: Quero levar murais para mais cidades, criar exposições imersivas e ensinar arte para crianças e jovens. Compartilhar é o próximo passo.
CRF: Qual legado você gostaria de deixar como artista e como cidadão?
JDN: Quero deixar a ideia de que viver com arte é possível e necessário. Que cada um pode transformar o mundo à sua volta com aquilo que ama fazer.
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