
Por Carlos Roberto Francisquini
Na manhã desta terça-feira, 29 de julho, um episódio que poderia ser apenas mais um caso de saúde pública, transformou-se em um espetáculo caótico de desespero, inércia burocrática e tensão social. Uma criança de 12 anos, vítima de picada de escorpião, foi levada às pressas ao Pronto-Socorro de Cambará. O que se seguiu, no entanto, foi um teatro de absurdos digno de figurar entre os relatos mais alarmantes sobre a fragilidade do atendimento emergencial nos rincões do Brasil.
Os familiares da vítima, movidos por um desespero compreensível, viram-se imersos em um impasse onde o protocolo de saúde pública, inamovível e indiferente, se sobrepôs à urgência do socorro. A tensão escalou rapidamente. Discussões inflamadas entre parentes, nervos em frangalhos e a sensação de impotência deflagraram um confronto verbal que precisou ser contido com intervenção da Guarda Municipal e da Polícia Militar. A utilização de spray de pimenta foi a grotesca metáfora de um sistema que prefere sufocar as reações ao invés de enfrentar as causas.
O episódio culminou com um Boletim de Ocorrência, como se os documentos pudessem pacificar a indignação popular.
Em nota oficial, o Secretário de Saúde, Ronaldo Guardiano, tentou equilibrar-se sobre o fio tênue entre a obediência ao protocolo e a sensibilidade social. Reconheceu o pânico da família e lamentou o episódio, mas não escondeu a contradição.
“Seguimos o procedimento, nada foi realizado fora do protocolo, mas eu entendo que a família entre em desespero, muito por conta do ocorrido na semana passada com a morte do menino Bernardo”, declarou ao vivo no programa matutino da Rádio CirculandoFM.
O protocolo em questão, uma imposição do Ministério da Saúde que centraliza o atendimento a vítimas de animais peçonhentos na 19ª Regional de Saúde, é uma ode à burocracia e à desconexão entre Brasília e as urgências dos municípios. A criança, mesmo em risco, não poderia receber a dose do soro antiescorpiônico no próprio pronto-socorro local. Tal regra, que ignora a geografia e o bom senso, parece escrita em mármore, imune ao clamor das comunidades afetadas.
Indignado, o vereador Paulo Nunes Bacana mobilizou os nove vereadores e o prefeito de Cambará para pressionar o Governo Estadual por uma revisão urgente do protocolo.
“Precisamos que a vítima receba a primeira dose do antídoto aqui no pronto-socorro. Isso dá mais tranquilidade para os familiares em caso de acidente”, argumentou Bacana, traduzindo em palavras a exigência que ecoa nas ruas.
Enquanto as autoridades trocam ofícios e a burocracia cava trincheiras, Cambará vive o drama cotidiano de uma infestação de escorpiões que não distingue classe social ou zona urbana. O tema vem incendiando debates nas redes sociais, onde o tom é de revolta e exigência de medidas concretas. A população, farta de discursos formais, clama por ações que transcendam a mera “gestão de crises”.
O episódio desta terça-feira não é um caso isolado, mas um sintoma de um sistema que só reage após o colapso. Cambará tornou-se o retrato de um Brasil profundo, onde o veneno dos escorpiões compete com o veneno mais corrosivo - o da inércia do Estado.