Por Carlos Roberto Francisquini
No CMEI Mundo Feliz, em uma cidade que poderia ser qualquer uma, dessas com céu aberto, cheiro de terra molhada e crianças correndo de um lado pro outro, uma pequena revolução começou com algo simples: a dificuldade de um menino autista de três anos em se alimentar. Mas o que poderia ser só um obstáculo virou semente. E dessa semente nasceu o projeto “Plantando Saberes e Colhendo Inclusão”, um dos destaques do Agrinho 2025, programa que vem valorizando práticas educativas que cruzam o chão da escola com os grandes temas da vida.
A grande sacada? Uma robô. Isso mesmo, uma robô. Chamada Julieta, com nome de personagem de conto e voz doce programada em Arduino, Julieta virou estrela da sala. Criada em parceria com o Instituto Federal do Paraná, ela manda frases educativas como “O chocolate é gostoso, mas tem muito açúcar”, conquistando os pequenos não pelo medo ou disciplina, mas pela curiosidade, aquele fogo que só acende mesmo na infância.
Mas vamos voltar ao começo.
O estalo veio do cotidiano: como ajudar uma criança com transtorno do espectro autista a ampliar sua alimentação? A equipe pedagógica do CMEI decidiu olhar de perto, sem fórmulas prontas. Foi assim que as professoras Elza Aparecida Alves Malandrim, Tiely Araújo e Angélica Romano deram vida à ideia que logo se tornaria o “Plantando Saberes e Colhendo Inclusão”.
Durante entrevista à rádio CirculandoFM, na manhã desta quinta-feira, 31 de julho, as três educadoras revelaram detalhes sensíveis e potentes do projeto, que brotou da escuta, da empatia e da vontade real de transformar o cotidiano de uma criança em algo mais leve, possível e nutritivo.
A proposta começou com uma investigação junto às famílias, mergulhando nos hábitos alimentares dos pequenos. A escuta virou ação. Convidaram uma nutricionista, dialogaram com pais, pensaram em trocas possíveis, sabores acessíveis, acolhimento.
Em sala, os alimentos viraram brincadeira, e também estatística. Gráficos simples mostravam o que cada criança gostava ou não de comer. Ali, entre colunas coloridas e carinhas desenhadas, conceitos como “quantidade” e “preferência” ganharam corpo, literalmente.
Foi aí que Julieta entrou em cena.
Julieta não só falava. Ela interagia. As crianças “alimentavam” a boca da robô com réplicas de alimentos enquanto ela respondia com frases educativas, tornando aquele momento um mix de ciência, imaginação e afeto. Nada imposto. Tudo convidativo.
E como numa boa jam session, (sessão de improviso) o projeto improvisou, mas com harmonia. Vieram os “dias de cozinhar”, uma imersão sensorial e coletiva, onde os pequenos se sujavam de farinha, cortavam frutas e transformavam receitas em aprendizado vivo.
A revolução ganhou espaço fora da sala. Com apoio das famílias, os alunos visitaram feiras livres e mercados, entrevistando feirantes e consumidores. Foi aí que o alimento ganhou rosto, história e contexto. Não era só uma cenoura, era a dona Ana que plantou, o seu João que vende, o bairro que consome.
A culminância foi a criação de uma horta orgânica no CMEI, após uma visita técnica a uma horta comunitária. Com o apoio da Sanepar, aprenderam sobre compostagem com um técnico que parecia saído de um documentário do Netflix: didático, apaixonado, com aquele brilho nos olhos de quem acredita que ensinar é também transformar o mundo.
Húmus com minhocas. Chorume com restos orgânicos. Uma versão compacta com garrafas PET. As crianças criaram, cuidaram, observaram. A terra devolveu em forma de hortaliças, colhidas com mãos pequenas e orgulho gigante. E, como quem fecha um ciclo, essas hortaliças foram vendidas numa feira escolar, tocada pelas próprias crianças um verdadeiro ato de protagonismo infantil.
O projeto virou um livro. Cheio de fotos em estilo cartoon, desenhos das crianças, frases soltas que dizem tudo. Uma narrativa sensível sobre cada etapa, contada por quem viveu. Porque mais do que atividades, “Plantando Saberes e Colhendo Inclusão” construiu vivências que reverberam.
Ali se plantou mais do que conhecimento: se cultivou empatia, ciência, sustentabilidade, convivência. O que começou com uma dificuldade alimentar virou ferramenta pedagógica, social e emocional. E Julieta, a robô, não foi só um recurso tecnológico, foi ponte, foi metáfora, foi companheira de uma jornada que mostrou que inclusão não é adaptar o aluno à escola, mas transformar a escola para que ela acolha todos os alunos.
Em tempos de superficialidades e soluções fáceis, projetos como esse lembram que educar é processo, é coragem, é poesia.
E que às vezes, o futuro começa com uma semente, e uma robô de voz mansa dizendo que “o chocolate é gostoso, mas tem muito açúcar”.