
Por Carlos Roberto Francisquini
No último sábado, 9 de agosto, Cambará gritou alto. Tão alto que quem ainda duvidava do potencial da cidade no mapa do rock independente nacional provavelmente teve sua dúvida esmagada por riffs pesados, vozes rasgadas e uma comoção coletiva movida a distorção, suor e emoção. A 8ª edição do Rock in Norte não foi só um festival — foi um manifesto.
Com uma estrutura que mistura cuidado artesanal com a potência de um evento grande, o Rock in Norte provou que a paixão pelo rock, quando bem canalizada, não precisa de CEP famoso pra explodir. Ela só precisa de alma — e isso Cambará tem de sobra.
A noite teve três atos e nenhum deles foi morno.
A Live By Night abriu o palco com a segurança de quem já conhece o terreno e sabe onde cutucar o público. Mandaram um setlist coeso, energético, sem freio.
A Nociva veio logo depois, deixando qualquer dúvida no asfalto quente da praça: eles estão em plena forma. Técnica afiada, peso na medida certa e um carisma de palco que não se aprende em ensaio.
Mas a grande surpresa da noite foi a Disruptores, que tocou na abertura do festival. Recém-chegada na cena, a banda formada por músicos locais subiu como quem quer mostrar serviço — e mostrou. Punk na atitude, stoner na pegada, e um vocal que parecia uma lâmina. Se o nome da banda é “Disruptores”, missão dada, missão cumprida. Eles romperam a calmaria e deixaram um recado claro: Cambará está gerando música nova. E ela não pede licença.
IZABEL PUCCI E A FORÇA DA MEMÓRIA
Entre um acorde e outro, veio o silêncio carregado de significado. Izabel Pucci, com presença de palco digna das grandes divas do rock, emocionou com uma versão crua e honesta de “The Best”, de Tina Turner. Sem efeitos, sem firula. Só voz, presença e verdade.
Antes de cantar, Izabel abriu o coração. Contou que o evento foi pensado como homenagem ao Dia dos Pais e dedicou sua performance ao pai, Helinho, figura lendária da cidade. “Ele foi minha maior inspiração. Estar aqui hoje é continuar um legado. Esse evento é por ele. E por todos os pais que, de alguma forma, ensinaram a gente a amar música”, disse ela, com a garganta trêmula e os olhos marejados.
Foi o tipo de momento que rasga a narrativa fria de um line-up e dá ao festival o que ele realmente precisa: humanidade.
O festival não viveu só no palco. A área kids estava bombando — literalmente. Crianças correndo, brincando, gritando, num retrato perfeito da nova geração que cresce ouvindo guitarra no lugar de TikTok. Um lembrete de que o rock, ao contrário do que dizem por aí, não morreu. Ele só mudou de endereço — e agora mora em Cambará.
O Rock in Norte, ao chegar à sua 8ª edição, não é mais promessa. É realidade. E mais que isso: é resistência. Num mundo cada vez mais plastificado, pasteurizado e raso, ver uma cidade inteira se mobilizar por música verdadeira é quase um ato revolucionário.
O rock vive. Cambará pulsa. E se continuar nesse ritmo, o Rock in Norte vai deixar de ser apenas um evento local pra se tornar parada obrigatória no circuito nacional.
Anota aí. E aumenta o volume.