
Por Carlos Roberto Francisquini
Há histórias que parecem nascer com o destino de atravessar o tempo — e a de Marcemina de Oliveira Paula, que completou cem anos em setembro de 2025, é uma delas. Nascida em 23 de setembro de 1925, na pequena Salto Grande (SP), Dona Marcemina é o tipo de personagem que carrega nas rugas e no olhar a força silenciosa de um século inteiro.
Aos cinco anos, ela cruzou a divisa do estado com a família e se estabeleceu em Cambará (PR) — cidade que se tornaria palco de sua vida, de suas perdas e de seus afetos mais profundos. Noventa e cinco anos depois, o endereço é o mesmo: a casa simples, o quintal com cheiro de café e a presença marcante de uma mulher que nunca precisou de diploma para ser uma verdadeira mestra.
Sem acesso à escola, Marcemina aprendeu com a vida o que muitos livros não ensinam. Aprendeu a ser forte quando a dureza do tempo exigia, a ter fé quando tudo parecia desabar e, acima de tudo, a amar — de forma inteira, quase sagrada.
Casou-se duas vezes e construiu uma dinastia que é, por si só, uma pequena nação: 7 filhos, 25 netos, 38 bisnetos, 14 trinetos e um tetraneto. Um número que não cabe facilmente numa árvore genealógica, mas que cabe no coração dela, sempre aberto e acolhedor.
No dia 20 de setembro de 2025, sua família quebrou a rotina para celebrar. O centenário de Dona Marcemina foi mais do que uma festa — foi um manifesto de gratidão, uma celebração da resistência feminina, da ancestralidade e da passagem do tempo. Gerações inteiras se reuniram em torno de sua história: filhos emocionados, netos orgulhosos, bisnetos curiosos, trinetos maravilhados. E, no centro de tudo, a matriarca — sorrindo, tranquila, quase em paz com o peso e a leveza de existir por um século inteiro.
“Ela é o nosso alicerce”, contou um dos netos durante a celebração. “Tudo o que a gente aprendeu sobre respeito, união e trabalho vem dela.”
Para nós da redação do Jornal Circulando, presente neste dia tão epecial para toda a família, talvez não tivessemoes imaginado que encontrariamos uma figura icônica e tão agradável, alguém que não subiu aos palcos, não gravou discos, não atraiu olhares curiosos ao longo da vida, mas viveu como se escrevesse, dia após dia, uma canção sobre resistência e amor.
Porque Dona Marcemina é, em essência, uma guerreira de outro tempo: desafiante das adversidades, fiel às suas raízes e dona de uma autenticidade que o tempo não apaga.
Cem anos depois de nascer, ela segue firme, uma lenda viva, testemunha de um século de transformações, guardiã da memória de um Brasil rural, simples e humano.
Em tempos de pressa e superficialidade, Marcemina de Oliveira Paula é o lembrete de que a verdadeira grandeza mora nas pequenas coisas — e que viver cem anos é mais do que sobreviver: é deixar um legado que ecoa, geração após geração, como uma boa música que nunca sai de moda.
Rádio CirculandoFM