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No Set e no Palco: Bene Moreira entre Câmeras e Guitarras

Aos 30 anos de carreira, Bene Moreira revela como a arte de contar histórias com imagens se entrelaça com a música e a formação de novos talentos

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini Fonte: Da redação
01/11/2025 às 17h11 Atualizada em 03/11/2025 às 19h17
No Set e no Palco: Bene Moreira entre Câmeras e Guitarras
Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

Por Carlos Roberto Francisquini

 

Em um set de filmagem, há uma coreografia invisível que move o cinema. Cada foco, cada luz e cada silêncio têm o comando preciso de quem entende o que é contar histórias com imagens.

Nesse universo, o cambaraense Benedito Moreira Neto — ou simplesmente Bene — é um dos nomes que dispensam apresentação entre quem vive o audiovisual paranaense. Diretor de cena, fotografia, editor, produtor e músico, Bene soma mais de 30 anos de estrada, atravessando a história do cinema e da publicidade brasileira com a serenidade de quem aprendeu a ver o mundo pela lente.

Hoje à frente da Monstro Produtora de Audiovisuais, e com uma bagagem que inclui colaborações com a Rede Globo, a RPC Paraná e longas premiados internacionalmente, Bene conversa com o Jornal Circulando sobre trajetória, técnica, arte e a missão de formar novas gerações com o curso de Assistência de Câmera.

A entrevista foi realizada via aplicativo de mensagens. 

Confira abaixo. 

 

Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

 

INSIDE: - Bene, são mais de três décadas respirando audiovisual. Quando foi que você percebeu que sua vida seria guiada por imagens?

Bene Moreira: Robertinho, antes de tudo, obrigado por me dar essa oportunidade. O Circulando cumpre um papel importante na nossa cidade e em toda a região!
Mas vamos lá, às vezes eu mesmo me olho e me pergunto como cheguei até aqui. Sei que, de certa forma, a escolha pela faculdade de Administração de Empresas, que, pra ser sincero, nunca foi uma paixão, teve um papel determinante quando chegaram as matérias de Marketing, Planejamento e Organização em Métodos.

Foi ali que começamos a fazer projetos e peças de comunicação, e eu percebi que era aquilo que realmente me despertava interesse, algo em que eu tinha certa facilidade e prazer em realizar. Aos poucos, comecei a me envolver com projetos culturais, filmes independentes, e com pessoas que já vinham de uma escola muito mais técnica e direcionada do que a minha. A musica e eu estar envolvido com ela desde sempre me ajudaram também nesse processo.

Isso tudo foi me mostrando o quanto essa área me dava prazer em participar dos processos criativos. Eu reconhecia que era uma oportunidade de trabalho em que não me sentia fadigado com o termo “ter que trabalhar”, e sim motivado com o “vamos lá, vamos criar algo bacana!” e tem sido assim nessas últimas décadas.

Mas é importante dizer: não são só flores. Há muitos espinhos, muitas pedras pelo caminho. É preciso persistência, resiliência e, muitas vezes, recorrer a recursos e soluções que não fazem parte da nossa tradição e é exatamente isso que torna essa trajetória tão rica e desafiadora.

 

Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

INSIDE: Você passou por praticamente todas as funções dentro do set. O que te fez se aprofundar tanto na assistência de câmera?

Bene: Sabe que é algo quase natural, mas vou tentar explicar de um jeito que faça sentido pra todos inclusive pra quem não conhece bem a profissão.
Meu primeiro contato com a assistência de câmera foi durante um projeto da Globo RPC, trabalhando ao lado de um renomado Diretor de Fotografia. Foi ali que percebi o quanto era importante ser profissional, íntegro e comprometido dentro dessa função.

Mas o que realmente consolidou minha percepção sobre o papel do assistente de câmera foram meus trabalhos como Diretor de Cena. Nessa posição, temos contato direto com o Diretor de Fotografia e toda a equipe de câmera, especialmente o time de assistência, e é aí que entendemos o valor técnico e humano dessa função no set de filmagem.

Um exemplo que pode ajuda a dar um panorama dessa trajetória: no ano passado, realizei duas campanhas políticas, no primeiro e segundo turno, para prefeitos em cidades diferentes. No fechamento da primeira campanha, o Diretor de Comunicação pediu que todos da equipe listassem suas experiências anteriores, suas campanhas passadas, para comprovar a bagagem profissional de cada um antes de fechar o contrato. E, quando fiz essa lista, me deparei com um número impressionante.

Se considerarmos que, em uma campanha, um diretor chega a realizar cerca de 200 materiais, entre apresentações, programas, comerciais de TV e peças de proposta, e que hoje, com a internet como principal mídia, esse número pode facilmente chegar a 300 ou 450 materiais, percebi que meu portfólio político já soma milhares de peças audiovisuais.

Tudo isso, sempre em contato direto com diversas equipes de assistência de câmera. Essa convivência constante me aproximou naturalmente da função, aumentando minha compreensão e meu respeito por ela. E hoje, ter uma locadora dentro da produtora reforça ainda mais essa conexão, já que me permite conhecer e trabalhar com inúmeros assistentes de câmera, cada um com sua bagagem e forma de ver o set.

INSIDE: Essa vivência técnica se transformou agora em formação. Como nasceu a ideia do seu curso de Assistência de Câmera?

Bene: Então, você sabe que as oportunidades nem sempre são produzidas diretamente por nós, certo? Acredito que a postura ética, o compromisso e a capacidade profissional acabam sendo determinantes para que elas apareçam. Mas a ideia inicial do curso, na verdade, nasceu de uma profissional que trabalhou comigo em campanhas e outras produções. Ela estava junto com uma assistente de câmera, muito capaz e que também trabalhou comigo, e que acabou precisando desistir do projeto por questões de saúde. As duas, então, tiveram a ideia de me convidar e eu fiquei totalmente honrado com o convite.

Confesso que precisei pensar bastante antes de aceitar o desafio, porque não se tratava apenas de ministrar um curso. Havia um compromisso técnico muito grande envolvido, desde o desenvolvimento de um material didático consistente até o aprofundamento na arte de ensinar, que passa por várias camadas.

No fim, acabei desenvolvendo todo o conteúdo: uma apostila com 94 páginas, cinco videoaulas somando 3 horas e 45 minutos, divididas em 23 blocos, quatro podcasts com profissionais da área, entre outros materiais, totalizando quase 60 horas de conteúdo. Além disso, foram dois meses de viagens pelo Paraná, conhecendo pessoas de diferentes perfis, idades e formações.

No projeto, além de ministrante e criador do conteúdo, também atuei como produtor executivo. O curso contou com patrocínio do Governo Federal e do Governo Estadual, o que foi muito importante.

Espero poder repeti-lo no ano que vem e quem sabe não passamos por Cambará? Seria um momento especial na minha trajetória, e eu me sentiria realmente honrado com isso.

 

Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

INSIDE: O nome da sua produtora — Monstro — já diz muito sobre sua postura criativa. De onde vem essa força?

Bene: Acho que tudo vem da minha formação, Robertinho, vem de onde eu vim. Com todos os percalços da vida, cresci em uma família que sempre me deu e proporcionou muita liberdade criativa. E isso é também um pouco de sorte, porque a gente não escolhe onde vai nascer.

Minha família, de Ourinhos, tem muitos artistas primos, tias, minha avó, minha mãe… essa liberdade sempre esteve muito presente na estrutura familiar, e acredito que isso me moldou profundamente. Mas, além disso, o ambiente familiar que construí, hoje também é essencial para que essa “força” que você menciona, continue crescendo, criando musculatura e se desenvolvendo.

Acho que tudo depende de como a gente se relaciona com o mundo. Aqui em casa, o caminho é livre para criar e ser.

Mas, já que citei minha família materna, não posso deixar de mencionar o outro lado, o do meu pai e da família dele. Sinto que muita força vem dali também. Acredito que meu maior patrimônio é o que penso, e o fato de poder materializar o que crio, de fazer funcionar, mesmo que não seja para mim. E, por mais curioso que pareça, isso é o que mais me dá prazer: ver minhas ideias ganhando forma e servindo para beneficiar outras pessoas.

É algo extremamente gratificante, e o curso acabou comprovando aquilo que eu já sentia, ainda que em menor escala. Acho que essa força vem desse conjunto todo, sabe?

 

INSIDE: Você tem uma carreira marcada por diversidade: publicidade, longas, documentários música… Existe um trabalho que define quem é o Bene hoje?

Bene: Acho que não. Não consigo realmente me definir dentro de uma nomenclatura ou área específica e talvez esse seja um dos meus pontos mais frágeis. É algo com que ainda aprendo a lidar. Eu sei que existe essa falha, essa dificuldade de me enquadrar, e às vezes isso me deixa vulnerável diante dos outros e até de mim mesmo.

No caso da música, por exemplo: toco bateria, guitarra, canto, tenho uma banda, componho, produzo materiais com trilhas e letras, mas ainda assim não me vejo como “músico”, “compositor” ou “artista”. No audiovisual acontece o mesmo, sou diretor de cena, mas também edito, produzo e outros. Durante a pandemia, editei um longa-metragem, mas raramente me apresento como editor. A maioria dos trabalhos que recebo vem de pessoas que já conhecem meu processo, minha forma de criar.

Essa falta de definição é um gargalo na minha vida. Vou para muitos lugares ao mesmo tempo e ainda tem o lado esportivo, o Downhill e o Enduro de bike, que pratico de três a quatro vezes por semana e que também fazem parte de quem eu sou. É difícil abrir mão de qualquer um desses caminhos, porque todos eles estão ligados a algo muito emocional em mim.

Costumo dizer aos meus alunos no curso que “quando estou dirigindo, estou diretor de cena; quando termina, sou o Bene; quando estou dando aula, estou professor”. Acho que isso resume bem meu jeito de existir e de trabalhar.

Bene Moreira - Foto: Crédito pra Mariana Cury/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

INSIDE: Você vem de uma família de artistas. Conte-nos sobre as influencias na sua vida profissional?

Bene: Influências são importantes, né? E elas vêm de muitos lugares. As profissionais, claro, existem, admiro profundamente vários colegas e mestres com quem trabalhei, e acredito que parte do nosso crescimento vem justamente de permitir que essas influências nos moldem.
Mas, se eu for buscar a origem mesmo, tudo começou em casa. Minhas maiores influências sempre foram minha mãe e minha avó. Elas me mostraram o caminho, não só pelo incentivo, mas pelo exemplo. Acho que influência também é isso: os exemplos que escolhemos seguir e até aqueles que decidimos não repetir.
No campo profissional, tive muita sorte. Durante anos, contei com a parceria e o olhar generoso do Evandro Barreto um carioca brilhante que veio morar em Curitiba e acabou se tornando meu padrinho de trabalho. Ele foi quem reconheceu meu valor profissional, me indicou e me levou para projetos grandes, abrindo portas que mudaram meu percurso. O Evandro é um gigante da publicidade nacional, com um currículo imenso. Com ele aprendi uma das lições mais valiosas: que nós escolhemos quais influências permitimos entrar na nossa vida. Desde então, presto muita atenção em tudo o que me cerca gostando ou não, concordando ou não. Acho que as verdadeiras influências vêm da nossa capacidade de absorver as experiências que nos atravessam. E eu tenho tentado fazer isso todos os dias.

 

Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

INSIDE: Além do cinema, você também lidera uma banda, certo?

Bene: Sim, tenho uma banda que já está junta há mais de 20 anos o Barra Pesada. É um power trio onde eu canto e toco guitarra, junto com meu irmão Leandro, que você conhece, e o Fernando Leite, que era meu roadie na época em que eu tocava bateria.

Além da banda, tenho alguns projetos paralelos que acabam se conectando com o próprio Barra. Antes do final do ano devo lançar um single, uma versão de uma música dos Mutantes (já falei disso pra você e... rssss), algo que idealizei ainda na pandemia. Está sendo um processo intenso, quase um parto emocional e temporal na minha vida. Pretendo lançá-la com um videoclipe autoral, totalmente desenvolvido em inteligência artificial e editado pelo Ricardo Jug, que, na minha opinião, é um dos melhores editores de cinema do Paraná.

Nesse projeto eu toco todos os instrumentos e canto, mas, claro, não fiz nada sozinho. Tive ajuda de grandes amigos e parceiros: a bateria foi gravada no Milo Estúdio e mixada antes das demais gravações pelo meu sobrinho curitibano, Luciano Castro. As guitarras, cordas e vocais foram gravados no Estúdio Tenda, com o amigo Mário, que também toca bateria em várias bandas históricas daqui. A masterização final foi feita em Portugal, pelo guitarrista Edson Borg, amigo meu e dos meus irmãos.

É aquela máxima: “gravei tudo, mas não fiz nada sozinho”. Essa música também vai entrar no repertório do Barra, não faço muita separação entre o que é meu e o que é da banda — tudo acaba se misturando naturalmente.
Inclusive, agora no dia 31, sexta-feira, o Barra toca no Punktober Fest, em Curitiba — um festival com 25 anos de história. O Barra segue firme, sem pretensão de sucesso, mas com a missão de continuar fazendo parte da história do underground curitibano e paranaense.

 

 INSIDE: O que você diria para quem quer começar no audiovisual hoje?

Bene: Sonho, atitude e qualificação precisam caminhar juntas. Acredito que qualquer pessoa pode começar no audiovisual, existem muitas portas de entrada, desde um pequeno negócio para registrar eventos em uma cidade do interior até quem deseja seguir como assistente de câmera, de direção, editor, diretor... o importante é estar disposto, de forma inteligente, a fazer parte da sua comunidade e do lugar onde você vive.

Não é preciso começar grande. Se quer começar, comece. Conte uma história por ano, produza um curta, crie seu conteúdo, apresente propostas, se qualifique. Você mesmo produz conteúdos interessantes através do seu Podcast, certo? Quando você passa a contribuir com a história do seu entorno, já começa a ser reconhecido pelos seus feitos.

Não adianta se autossabotar pensando que não é bom o suficiente, que não tem equipamento, que ainda não ganha dinheiro com isso. O audiovisual é uma construção e, com o tempo, o valor vem pelo caminho que você trilhou e pelas soluções que ofereceu à sociedade em que vive.

Se for olhar apenas pelo retorno financeiro imediato, talvez o audiovisual não pareça tão atraente quanto outros mercados. Mas quando você entra de verdade nesse universo, com propósito e atitude, o retorno vem de forma consistente e verdadeira. Não é uma regra, mas funcionou pra mim.

Bene Moreira - Foto: Arquivo Pessoal/Especial para a Coluna Inside/Jornal Circulando

 

INSIDE: Pra fechar, o que ainda move o Bene Moreira depois de tanto tempo de estrada?

Bene: Sabe, Robertinho… o que ainda me move é a vontade de viver, do vento no rosto, das tardes na avenida nos domingos (rssssssss), e de continuar existindo através do que eu faço e acredito. O que me impulsiona é entender que o verdadeiro legado que deixamos é o exemplo que passamos adiante, principalmente para os nossos. Isso não significa que eu não tenha errado; pelo contrário, sei que estive longe de ser o “certo” muitas vezes.

Mas aprendi que o importante é reconhecer que dá pra evoluir, dá pra ser melhor e o único que você pode tocar e mudar, é você mesmo. O que realmente importa é ter a integridade de olhar pra dentro e entender o que é justo, o que é verdadeiro pra si mesmo. Eu tento praticar isso todos os dias, acordar com a disposição de corrigir o erro de ontem e fazer um pouco melhor hoje.

Talvez seja isso que me move: essa busca constante por evolução. Mesmo com todas as limitações e são muitas, muitas mesmo, eu sigo tentando dar o meu melhor. Isso me traz uma sensação de paz, de movimento. Não sei se cheguei longe, mas sei que continuo andando. E, pra mim, isso é o que faz tudo valer a pena.

 

Rádio CirculandoFM 

 

 

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