
EmPAUTA
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A grama é mais verde no pasto do vizinho
Dr. Leandro Filtre Bonacin
O ditado é velho, mas é válido, culturalmente estamos acostumados acreditar, ou ter no nosso subconsciente, que de antemão, tudo o que não é nosso é melhor do que aquilo que nos pertence. Talvez porque estamos vendo apenas a parte apresentável do objeto ou serviço e nunca a parte problemática que fica restrita ao proprietário ou administrador. Aqui caberia outro ditado também antigo; “só vemos as pingas que bebem, e nunca os tombos que levam”.
Incluindo o meu Brasil na contabilidade, já aterrei em 18 países, e não obstante a maioria dessas viagens fossem a turismo, sempre que pude procurei descobrir algumas diferenças em produtos e serviços, principalmente os que envolvem a área de saúde a qual é meu “ganha pão”. Posso afirmar então, com toda certeza, que a saúde no Brasil, principalmente a pública proporcionada pelo SUS, está longe de ser uma das piores do mundo, e quiçá não está entre as melhores. Alguns exemplos: Nos EUA, NINGUÉM, tem direito a saúde pública e gratuita. Ou você contribui com um seguro de saúde (muitas vezes descontado no seu próprio holerite), ou fatalmente terá que pagar judicialmente por todos os procedimentos realizados, através da penhora de bens, serviços ou salários. Toda essa discussão a respeito do tão falado “OBAMACARE” visa tão somente a obrigatoriedade ou não desse seguro, não havendo em nenhum caso assistência gratuita.
Em países Europeus é constante e culturalmente aceito que na falta de vagas, seja privilegiado o paciente que reúna melhores condições de vida, optando por se salvar uma vida a perder duas, condição essa que pelos princípios da UNIVERSALIDADE E EQUIDADE, tornam-se, em nosso país, simplesmente inconstitucionais.
Se algum brasileiro necessitar de algum transplante, fatalmente o fará pelo SUS e com todos os recursos possíveis e imagináveis.
Então, qual seria o motivo de tanta reclamação? Primeiramente remeto ao ditado supracitado, depois posso citar duas situações que realmente atrapalham o serviço idealizado que, pelo menos no papel, é excelente: A primeira é o número de pessoas que recorrem às unidades de Pronto Socorro sem estar realmente em uma situação de urgência ou emergência, e não aceitam obedecer a protocolos de prioridades como o “Protocolo de Manchester”, no qual após uma imediata primeira avaliação, o paciente é classificado por cores de acordo com o grau de urgência a ser dispendido para a situação. Culturalmente o Brasileiro quer ser atendido no momento que chega, sem pagar nada, (nem pela medicação) e, muitas vezes, sai do pronto socorro desobedecendo completamente às recomendações médicas, talvez por duvidar da capacidade de um profissional habilitado para tal.
O outro aspecto, muito mais delicado, é e interferência externa de pessoas alheias ao sistema, que sob a falsa intenção de se prestar auxilio, atrapalha todo o funcionamento de um sistema composto por regras e leis elaboradas, estudadas e aprovadas. Refiro-me aqui, sobretudo a cidades do interior, onde muitos políticos tem suas bases eleitorais não pautadas aos poderes a que foram eleitos (executivo, legislativo etc....) e sim no assistencialismo puro e nato, uma forma espúria de se autopromover.
Vamos refletir caros leitores, toda vez que “alguém” “ARRUMA” uma vaga (evidentemente porque está extremamente preocupado com a saúde de seu eleitor), necessariamente está abstendo outra pessoa de ocupá-la, pois certamente essa vaga não estaria ociosa; e como saber se a outra pessoa candidata a essa vaga não estaria em pior situação, ou ainda, teria mais chances de sobreviver que o afortunado eleitor do político certo.
Criou-se no Brasil um Sistema de Saúde único, público e escalonado, que seria autossuficiente com os devidos aportes públicos previstos em lei. E mais uma vez, criou-se paralelamente a tudo isso um sistema de corrupção! Não apenas a corrupção financeira, mas um tipo muito pior que é a CORRUPÇÃO MORAL. Isso me lembra, já que os ditados aqui citados são todos antigos, uma música da minha adolescência (nem tão antiga assim) onde Roger Moreira, vocalista do Ultraje a Rigor entre um solo de guitarra e outro proclamava: “A TERRA É UMA BELEZA... O QUE ESTRAGA É ESSA GENTE!” seguido de um popular palavrão que confesso fiquei com muita vontade de falar agora!
Dr. Leandro Filtre Bonacin
é cirurgião dentista em Cambará e colunista do Circulandoaqui
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