Por Carlos Roberto Francisquini
Durante um ano inteiro, Antônio Justo planejou cada detalhe de uma viagem que misturaria memória, afeto e liberdade. O roteiro era ambicioso: sair de Natal, no Rio Grande do Norte, e seguir até Cambará, no Norte Pioneiro do Paraná, a bordo de uma Kombi 2005, o último modelo produzido pela Volkswagen com motor refrigerado a ar. Mais do que uma travessia geográfica, o percurso simbolizou um reencontro com as próprias origens.
Morador de Fernando de Noronha, arquipélago pernambucano conhecido pela exuberância natural e pela vida em ritmo próprio, Antônio transformou o veículo em uma verdadeira kombihome, adaptada para longas distâncias e para o espírito de quem vê a estrada como extensão da casa. A bordo, além da bagagem essencial, seguiam os companheiros inseparáveis Meg e Chicó, cães de estimação que dividiram com o dono cada quilômetro percorrido.
A viagem, inicialmente pensada para ser feita ao lado da esposa Patrícia, precisou ser redesenhada. Questões pessoais alteraram os planos do casal, mas não diminuíram o significado da jornada, que seguiu como um projeto amadurecido no tempo e sustentado pela vontade de seguir adiante.
Nascido em 1957, na vizinha Barra do Jacaré, Antônio é filho de Rosa Orsini Justo e Zirbo Justo, ambos já falecidos. Foi em Cambará, no entanto, que construiu sua base afetiva e profissional. Estudou em diferentes instituições de ensino da cidade e passou por diversos empregos, entre eles a Funerária São Benedito, o Banco Mercantil e a empresa TransPAPI. Experiências distintas, que moldaram um perfil trabalhador e inquieto.
A grande virada veio com a profissão de motorista. Em uma de suas inúmeras viagens ao Nordeste brasileiro, Antônio conheceu Patrícia. O encontro mudou o rumo de sua vida. Do casamento nasceram Felipe e Alice, e, com a família formada, veio também a decisão de abandonar o volante profissional. Primeiro, a fixação de residência em Natal. Depois, a mudança para Fernando de Noronha, um salto definitivo em direção a um modo de vida mais simples e conectado à natureza.
Foi essa história que Antônio compartilhou em entrevista à Rádio Circulando FM, de Cambará, onde falou sobre a rotina na ilha e os contrastes com o continente. “É surpreendentemente majestosa”, resumiu, ao descrever a experiência de viver em um dos cenários mais preservados do país.
A paixão por carros antigos ajuda a explicar a escolha da Kombi como companheira de estrada.
“Eu tenho um Fusca Itamar, que levei daqui. Gosto de carros que contam histórias”, contou. Para ele, o veículo não é apenas meio de transporte, mas parte do enredo.
Em Cambará, Antônio foi recebido por Moisés Moura, o “Cachorrão”, presidente do Clube de Carros Antigos da cidade. Na sede da entidade, a Kombi chamou atenção e virou ponto de encontro para conversas sobre a viagem, os perrengues inevitáveis e o prazer quase terapêutico de viver sem pressa. Ali, entre amigos e motores antigos, Antônio resumiu o sentimento que o move: o gosto pela liberdade que só a estrada é capaz de oferecer.
Entre ilhas, cidades e quilômetros de asfalto, a trajetória de Antônio Justo mostra que algumas viagens não se medem em distância, mas em significado. E que, às vezes, o destino mais importante é voltar para casa, mesmo que seja preciso atravessar o Brasil para isso.
Para quem não conseguiu acompanhar ao vivo participação de Antônio na Rádio CirculandoFM, o episódio está disponível na integra no canal da emissora no YOUTUBE.