
Por Prof. Cesar Mota
Na Sexta-feira Santa, a humanidade não é convidada a celebrar, mas a lembrar e lembrar, no sentido mais profundo, é sofrer junto, é permitir que a dor do outro atravesse a própria consciência.
Mas o homem moderno, hábil em domesticar o sagrado, transformou a memória em hábito e o hábito em conforto. Preserva o gesto, mas abandona o espírito. Mantém o rito, mas esvazia o sentido.
Enquanto a mesa se enche, a cruz se torna leve demais para quem já não deseja carregá-la. Porque naquele dia não houve símbolo houve carne rasgada, sangue derramado, abandono real. Houve um homem caminhando para a morte sob o peso de uma cruz que feria não apenas os ombros, mas tudo o que nele ainda respirava.
A flagelação romana não era castigo era destruição. O açoite abria a pele, expunha músculos, dilacerava lentamente o corpo. Cada golpe era um anúncio de morte antes da morte. O sangue não escorria com suavidade; ele marcava o chão, como se a dor precisasse deixar registro.
A coroa de espinhos não adornava, feria. Cravada na cabeça, fazia o sangue descer pelo rosto, misturando-se ao suor, à poeira e ao desprezo. Não havia dignidade preservada, apenas um homem sendo reduzido diante de todos.
E então, a caminhada. Não uma caminhada qualquer, mas um arrastar-se entre quedas. Um corpo exausto, em choque, forçado a carregar o instrumento da própria execução. Cada passo era um esforço contra o colapso. Cada queda, um lembrete de que o fim já havia começado antes mesmo de chegar.
E enquanto Ele caminhava o tempo seguiu.
Séculos depois, o homem se senta à mesa. O garfo se ergue, cheio, generoso, cuidadosamente preparado. Há escolha, há sabor, há abundância. Substitui-se a carne, mas preserva-se o prazer. Evita-se o rigor, mas mantém-se o conforto. Cumpre-se a tradição, mas sem que ela toque o interior.
E então a contradição se impõe, silenciosa e incômoda. Porque não há jejum onde há excesso. Não há penitência onde há escolha refinada.
Não há memória verdadeira onde não há disposição de sentir.
O sofrimento não foi simbólico, foi absoluto. E reduzi-lo a um gesto externo é, de certo modo, suavizar aquilo que deveria inquietar. A fé, quando não atravessa o homem, torna-se apenas encenação. Um movimento repetido, vazio de transformação. Um rito que se cumpre, mas não se vive.
E talvez seja exatamente isso que falta: sentir o peso. Não da tradição, mas daquilo que ela tenta, há séculos, lembrar. Porque naquele dia não houve alívio. Não houve escolha. Não houve conforto. Houve entrega.
E a pergunta, inevitável, não apenas paira ela pesa, acusa, atravessa: enquanto Cristo era dilacerado pela dor, nós saciamos o corpo e permanecemos com a alma vazia.
Rádio CirculandoFM