
Por Carlos Roberto Francisquini I Com informações do TSE
O resultado das eleições de 2026 em Cambará colocou uma questão no centro da política local: qual é, hoje, o peso do apoio do prefeito Walcir Joaquim (PSD) diante do eleitorado?
Os números obtidos por candidatos que tiveram o respaldo do prefeito não permitem medir, por si só, a aprovação de sua administração. Servem, porém, como um indicador de outra natureza: o prestígio político de Walcir e sua capacidade de influenciar escolhas eleitorais.
Nesse aspecto, o resultado acende um sinal de alerta para o grupo governista.
Luiza Canziani, candidata à Câmara dos Deputados apoiada por Walcir, recebeu 282 votos em Cambará. Concorrendo pela Federação PP/União, ela não conquistou mandato e ficou na suplência da chapa. O desempenho local chama atenção porque seu nome esteve diretamente associado ao apoio do prefeito durante a campanha.
Para a Assembleia Legislativa, Cobra Repórter, também apoiado por Walcir, somou 169 votos no município. Embora tenha assegurado novo mandato de deputado estadual, sua votação em Cambará foi reduzida diante do peso político que normalmente se atribui ao apoio de um prefeito.
Na disputa pelo governo do Paraná, Sandro Alex, candidato defendido por Walcir, obteve 1.994 votos em Cambará.
O ponto central, portanto, não está simplesmente em saber se os candidatos do prefeito ganharam ou perderam. Está em medir quanto valeu eleitoralmente o apoio de Walcir.
Prefeitos ocupam posição privilegiada nas articulações eleitorais municipais. Administram a máquina pública, mantêm contato permanente com lideranças comunitárias, vereadores e diferentes setores da sociedade e, por isso, costumam ser procurados por candidatos estaduais e federais interessados em construir bases nos municípios.
Esse apoio, no entanto, só adquire valor político efetivo quando demonstra capacidade de mobilização.
É nesse terreno que o resultado de 2026 produz uma leitura incômoda para Walcir.
Os 282 votos de Luiza Canziani e os 169 de Cobra Repórter indicam que a declaração de apoio do prefeito teve alcance limitado junto ao eleitorado cambaraense. Não significa necessariamente rejeição à administração, mas mostra que a influência do chefe do Executivo encontrou dificuldades quando submetida ao teste das urnas.
A diferença é importante.
Popularidade administrativa e prestígio eleitoral não são a mesma coisa. Um prefeito pode ser bem avaliado por parte da população e, ainda assim, ter pouca capacidade de orientar o voto para deputado ou governador. Da mesma maneira, uma administração desgastada pode conservar uma estrutura política suficientemente organizada para entregar votos aos seus aliados.
O que as urnas permitem avaliar, neste momento, é justamente essa segunda dimensão.
O teste eleitoral ocorre depois de um período conturbado para a administração.
Desde o início do mandato, Walcir enfrentou questionamentos relacionados a nomeações para cargos de confiança, discussões nas redes sociais e um pedido de cassação baseado em suspeitas de irregularidades administrativas.
A denúncia acabou arquivada pela Câmara Municipal por 9 votos a 0, afastando a possibilidade de cassação naquele processo. Politicamente, porém, o episódio passou a integrar o ambiente de confronto que marcou os primeiros meses da administração.
As eleições chegaram, portanto, em um momento no qual o prefeito já havia sido submetido a uma sequência de embates políticos.
Por essa razão, o desempenho de seus candidatos ganha significado maior do que uma simples contagem de votos.
O entorno do prefeito também foi testado
A dificuldade não ficou restrita às escolhas pessoais de Walcir.
Do Carmo, candidato apoiado pelo vereador Walmir Joaquim (PSD), irmão do prefeito, recebeu 200 votos em Cambará. O desempenho também merece atenção por se tratar do candidato defendido por um vereador que exerce o segundo mandato e integra um núcleo político próximo ao governo municipal.
Beto Preto apresenta outro dado relevante.
Ex-secretário de Estado da Saúde e quinto mais votado no Paraná, ele recebeu apenas 175 votos em Cambará. Nesse caso, o resultado alcança uma base política mais ampla, formada por setores que participaram da composição responsável pela eleição do atual prefeito.
A comparação é particularmente significativa porque Beto Preto demonstrou força eleitoral no Estado, mas encontrou pouca correspondência dessa votação em Cambará.
Quanto vale o apoio do prefeito?
Essa passa a ser uma das perguntas políticas deixadas pelas eleições de 2026.
O prefeito não era candidato e, portanto, seria incorreto transformar automaticamente os votos recebidos por seus aliados em índices de aprovação ou rejeição à administração municipal. Há diferenças partidárias, preferências pessoais e fatores estaduais e nacionais que interferem na escolha do eleitor.
Mas também seria insuficiente desconsiderar completamente o significado político desses números.
Ao declarar apoio a determinados candidatos, uma liderança coloca parte de seu próprio prestígio em jogo. Quanto maior sua influência, maior tende a ser sua capacidade de convencer eleitores, organizar apoiadores e produzir votos.
Em Cambará, essa capacidade mostrou limites.
Luiza Canziani recebeu 282 votos. Do Carmo, 200. Beto Preto, 175. Cobra Repórter, 169. Na eleição para governador, Sandro Alex chegou a 1.994 votos.
Os números não constituem uma pesquisa de avaliação da Prefeitura. Tampouco autorizam concluir que cada eleitor que rejeitou esses candidatos tenha rejeitado Walcir Joaquim.
Eles permitem, entretanto, uma conclusão política mais específica: o apoio do prefeito não se mostrou, nesta eleição, um ativo capaz de produzir votação expressiva para os nomes que estiveram associados ao seu grupo.
Esse é o ponto que pode ter consequências para os próximos movimentos da política local.
O prestígio de uma liderança municipal não se mede apenas pela eleição que ela própria venceu. Mede-se também por sua capacidade de permanecer influente depois de chegar ao poder, formar alianças, mobilizar sua base e participar das disputas seguintes com poder de convencimento.
Sob esse critério, as eleições de 2026 deixaram uma interrogação sobre a força de Walcir Joaquim em Cambará.
Não se trata ainda de antecipar o resultado de uma futura eleição municipal. Trata-se de constatar que, no primeiro grande teste das urnas depois de assumir a Prefeitura, o prestígio eleitoral do prefeito não se traduziu, na mesma proporção, em votos para seus aliados.