Sábado, 25 de Setembro de 2021 00:59
43 9 9937 4574
BELLA GENTE Especial

Das cinzas da geada negra às sementes da educação

A história de Cambará passa pela generosidade do empresário Dr. Alceu Vezozzo

05/07/2019 08h47 Atualizada há 2 anos
Por: Carlos Roberto Francisquini
Das cinzas da geada negra às sementes da educação

 

 

 

Por Giovana Chiquim

 


 

 

O bom filho à casa torna”. O ditado popular reflete bem a história do empresário Alceu Vezozzo, fundador da Rede Bourbon Hotéis & Resorts. Nascido em Cambará, no norte pioneiro do Paraná, o empreendedor é o idealizador de uma série de projetos sociais na sua cidade natal, com a intenção de levar o progresso para o município e novos horizontes para os cambaraenses.


                A cidade, criada às margens do rio Alambari, atraiu, no século passado, um fluxo intenso de imigrantes, principalmente japoneses, em busca das oportunidades que a terra roxa oferecia, nos tempos áureos da cultura do café. Conhecido como “ouro verde”, o grão trouxe muitas riquezas para a região norte do Paraná, mas a geada negra, em 1975, ceifou os pés de cafés e os sonhos de todos os agricultores que investiram suas economias no solo fértil, localizado naquele pedaço de “terra prometida”.


                A geada daquele 18 de julho foi uma catástrofe. O manto verde formado pelos cafezais transformou-se num cenário polar, congelando a seiva das plantas robustas e viçosas. Na alvorada do dia seguinte, a tonalidade das lavouras em todo o Paraná, de ponta a ponta, escureceu. As folhas dos cafezais ficaram pretas, queimadas pelo frio. Daí o nome de geada negra. O ouro verde virou cinzas e chegou ao fim um ciclo de riquezas. A geada negra castigou os lavradores do norte pioneiro do Paraná, levando-os à falência, quebrando o comércio local. A economia daqueles municípios, cada a um à sua maneira, foi obrigada a se reinventar.


                Alceu Vezozzo não assistiu de perto a derrocada do norte pioneiro. Filho de pais visionários, o empresário se formou em Engenharia Civil na Mackenzie, em São Paulo, e partiu para os Estados Unidos para cursar uma especialização profissional. “Meu pai me estimulou a estudar fora, a fazer uma espécie de pós-graduação prática, criada pelo governo americano”, relata Vezozzo.


No retorno do Estados Unidos, em 1956, voltou para Cambará e ingressou na carreira política. “Para minha sorte, perdi a eleição para prefeito por 14 votos e minha mãe me aconselhou a morar em um lugar que tivesse mais oportunidades”, conta o empresário.


                Após sair de Cambará, mudou-se para Londrina, onde ingressou no mercado da construção civil e, mais tarde, inaugurou a primeira unidade da Rede Bourbon Hotéis & Resorts. De lá, partiu para Curitiba e depois para São Paulo, mas nunca abandonou suas raízes ou deixou de visitar a cidade Natal.


                Na década de 1990, teve contato com o então prefeito de Cambará, um árabe chamado Mohamad Ali Hamzé, popularmente conhecido por Mamede, que, na opinião de Vezozzo, era um cidadão e político diferenciado. “Era um trabalhador simples, de poucas letras, mas de grande visão. Após a trágica geada negra, o município se tornou muito pobre e carente, com horizontes acanhados. O prefeito era a exceção”, afirma.


                Foi esse diálogo com o prefeito, que despertou no empresário o interesse de ajudar, de alguma maneira, a cidade onde nasceu e formou sua família. Alceu Vezozzo era rotariano e amigo de um presidente do Rotary Internacional, que tinha um projeto para construir moradias bem simples. “Era uma espécie de cobertura, para proteger das intempéries. Era uma residência bem precária, mas já era melhor do que viver debaixo da ponte”, revela Vezozzo.


                Foi assim que ele pediu ajuda para o Rotary, que doava U$ 2 mil para a construção de cada casa, se comprovassem a necessidade efetiva. E, com a ajuda do prefeito, conseguiu reunir as informações para comprovar a situação de miséria dos moradores de Cambará e aprovar a construção de 60 casas, inicialmente, de 43 metros quadrados. Com o apoio do Rotary arrecadaram U$ 120 mil. Mas Alceu Vezozzo achou pouco e resolveu expandir o projeto e construir 80 moradias. O restante da verba foi concedido pela Bourbon Hotéis & Resorts. A prefeitura cedeu o terreno e a infraestrutura necessária para abrigar a vila, como as galerias pluviais. As casas foram doadas para as famílias mais carentes dos municípios. “Privilegiamos os pobres entre os mais pobres”, destaca Alceu.

                 As residênciasdo Conjunto Habitacional Rotary, como a vila foi chamada, foram entregues em 2002.

 

Transformação por meio da educação



 

Dr. Alceu Antimo Vezozzo e Laila Zacarias Vezozzo, em registro fotográfico na solenidade de inauguração da unidade do Hotel Bourbon em Cambará

 

Oferecer moradia para erradicar a pobreza em Cambará não seria o suficiente para mudar a realidade daquele município, na visão de Alceu Vezozzo. Nesse contexto, a educação poderia ser um instrumento para diminuir as assimetrias sociais, garantir a formação dos jovens e crianças e conferir a eles um direito fundamental. Além disso, toda a vila que se preze, precisa de uma escola. “Achei que as casas eram pouco, que não resolveria quase nada”, comenta o empresário.


E foi com esse pensamento que ele inaugurou uma escola que se enquadrava na antiga classificação de 1º Grau, com quatro salas de aula, batizada com o nome de seu pai, Caetano Vezozzo. O projeto prosperou e, com apoio do governo estadual, a escola se transformou num colégio e os estudantes teriam a oportunidade de concluir ali o ensino médio.


                E a obra foi mais uma vez ampliada. Em homenagem à mãe, o empresário inaugurou dentro do estabelecimento de ensino um auditório, com capacidade para 100 pessoas, que recebeu o nome de Angelina Ricci Vezozzo. O colégio ganhou ainda uma biblioteca. O espaço com computadores foi chamado de “Google” e a sala onde ficavam os livros recebeu a alcunha de “Gutemberg”.


                A primeira turma da escola Caetano Vezozzo formou 32 estudantes e 16 deles foram aprovados no vestibular em universidades e faculdades localizadas na região. E eles seguiram a caminhada rumo ao diploma de curso superior, agora com a contribuição do Instituto Bourbon, criado em 2013 pela Rede Bourbon, para a realização de trabalhos de responsabilidade social,em benefício de comunidades carentes próximas a empreendimentos que a empresa administra. “O Instituto forneceu combustível para as vans levarem os universitários para os municípios vizinhos”, acrescenta Alceu Vezozzo.


A cidade de Cambará foi privilegiada pelo Instituto Bourbon em razão da ligação do empresário com o município. “Vi nesses anos que sucederam à geada negra, as oportunidades de emprego e a educação local diminuírem muito naquela cidade. Neste cenário muitas crianças não estavam estudando como deveriam, e seus pais sofriam com a preocupação da moradia. Percebi que ajudar essas pessoas a conquistarem suas casas, e ter uma escola para seus filhos era uma excelente saída para ajudar a região. Recebi muito apoio de empresas e da prefeitura. Com isso, conquistamos essas casas e a escola”, conta Alceu.

 

Ensinar a pescar

 

               

Mas o ímpeto de promover melhorias e oferecer mais qualidade de vida para a população de Cambará não parou no binômio casa + educação básica. Em junho de 2017, o Instituto Bourbon inaugurou a Escola de Ensino Profissionalizante Milton de Faria Ribeiro, no conjunto habitacional Rotary. O empreendimento é uma iniciativa da entidade, com o apoio do Governo do Paraná, prefeitura de Cambará, Fundação Rotária do Rotary Internacional, Rotary Club de Cambará e o Sistema S voltado para o treinamento profissional (Senai, Sesc, Sesi, Senac, Senar, Sescoop e Sest). O espaço iniciou as atividades no mês de julho e o nome é uma homenagem a um professor pioneiro na cidade, que tem hoje 97 anos.


                A escola ocupa um espaço de 1600 metros quadrados e tem caráter profissionalizante, ou seja, encaminhar os estudantes matriculados para o mercado de trabalho. Em julho, 155 estudantes passaram pela escola e, em outubro, o espaço deve receber 300 alunos.


Além de corroborar com a demanda das indústrias em Cambará e região do norte pioneiro, a escola vai preparar mão-de-obra especializada para prestar serviços na nova unidade da Bourbon de Hotéis & Resorts, inaugurada em abril de 2018. “A princípio, o empreendimento terá 40 apartamentos, até chegarmos a 80 apartamentos em operação. Será um hotel com todo o conforto e a qualidade que a Rede Bourbon oferece, com elevadores, geradores e espaço para eventos. O hotel será uma forma de apoiar a escola profissionalizante, gerar empregos e negócios para a cidade”, enfatiza Alceu Vezozzo.


             

   O empresário parece inspirar-se na essência do provérbio chinês: “Dê a um homem faminto um peixe e você o alimentará por um dia. Ensine-o a pescar e ele se alimentará pelo resto da vida”.


                O projeto idealizado por Alceu Vezozzo é muito mais ambicioso do que aparentava em seu início e não se restringe à iniciativa de prover “aos pobres, entre os mais pobres”, direitos básicos, como moradia e alimentação – o que já seria um feito. Os planos do empreendedor vão muito além e tem a intenção de movimentar a economia de Cambará e devolver à cidade o adjetivo de “pujante”, como outrora já mereceu nos tempos áureos da cultura cafeeira.


                E se engana quem pensa que Alceu Vezozzo já está satisfeito. O empreendedor está na casa dos 80 anos e ainda não parou de sonhar: a próxima aspiração é criar uma faculdade em Cambará.


* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
Ele1 - Criar site de notícias