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Crônica

Sobre tempo, Einstein e a Bahia

Einstein já ensinou na Teoria da Relatividade que o tempo e espaço são relativos, dependendo do ponto de vista do observador

Gabriela Egreja Papa

Gabriela Egreja Papa Gabriela Papa é advogada e cronista nas horas vagas. Apesar de estar sempre conectada, não dispensa um bom livro. É fã declarada de Mario Prata e dos anos 90. Gosta de ler bulas de remédio e detesta beterraba e coentro. Comentários: [email protected]

16/03/2020 14h09Atualizado há 2 semanas
Por: Carlos Roberto Francisquini
Fonte: Gabriela Papa
Foto - reprodução de internet
Foto - reprodução de internet

Nessas férias resolvi viajar para a Bahia, mais especificamente Caraíva, um vilarejo onde não entra carro, não pega celular e só se chega de canoa. Você deve estar pensando que fui me esconder nesse lugar. É, foi quase isso. Na verdade, eu preciso confessar que estava fugindo de umas pessoas, mas isso é assunto para outra crônica. Risos...

Mas voltando ao que interessa mesmo, o que eu vim falar aqui hoje para vocês é sobre o tempo. Einstein já ensinou na Teoria da Relatividade que o tempo e espaço são relativos, dependendo do ponto de vista do observador. E não é que ele tinha razão?!

Caraíva é a prova disso! Ai se Einstein tivesse ido para a Bahia...

Lá nada se combina e tudo acontece. Na verdade, o que eu percebi é que só acontece mesmo o que não se combina. Quer ver?

Assim que você chega em Caraíva você precisa pegar uma charrete puxada por um jumento para se locomover dentro da Vila. Esse meio de transporte carinhosamente chamado de Juber (Jumento + Uber) já faz com que 5 minutos de trânsito “normal” virem longos 15 minutos de trancos e barrancos (que na verdade foram só 5 minutos mesmo!).

Quando cheguei, logo vi o boca a boca sobre uma grande festa na cidade. Informação essa que não existe no Google porque em Caraíva nada é programado.

Me interessei e pedi informações sobre o horário da festa e recebi a melhor resposta que já ouvi sobre planejamento na minha vida: “Ah, você sabe, a festa começa no horário de Caraíva”. 

E qual é o horário de Caraíva? Deixo essa pergunta no ar que até hoje me pego pensando...com certeza não é o mesmo que o meu e nem o seu, meu caro leitor.

Mas eu não desisti (afinal sou brasileira e estava na Bahia) e fui pra festa mesmo assim e quando estava lá, feliz que a banda já tinha começado a tocar e eu já estava embalando pegar o segundo copo de Netuno (uma bebida típica da Vila que seria uma espécie de cachaça com MUITO gengibre) o sambista anunciou: 

— Pessoal, acabamos de afinar os instrumentos. Vamos para casa tomar um banho, comer alguma coisa e já voltamos para começar a festa.

Agora eu te pergunto: quanto tempo isso levaria numa cidade como São Paulo? Se você ouvisse isso numa festa, você acharia normal e esperaria? Ou acharia uma grande piada?

Na minha cabeça eu já estava imaginando um alto e sonoro: “ahh vocês estão de sacanagem!!” e toda multidão deixando o local em grupo. Mas não, todo mundo achou normal, continuou rindo, bebendo seu Netuno e esperando e esperando calmamente mais de hora para a banda voltar a tocar. 

E eu te juro que passou rápido e a festa foi incrível!!

A minha teoria é que o que acontece num lugar onde não pega celular e não entra carro é que as pessoas estão de fato vivendo (a paisagem, o pôr do sol, a música, a comida, o riso) e verdadeiramente conectadas umas às outras e isso faz com que a percepção do tempo seja diferente! Olha a Teoria da Relatividade aí!

Eu não ouvi a palavra “compromisso” nenhuma vez nos 20 dias que estive na vila. Na verdade, eu vi - na prática - a teoria do “abrimos quando chegamos, fechamos quando partimos” (tem placas espalhadas nas ruas). Ninguém está preocupado em chegar e muito menos em partir, e tudo que tem que acontecer acontece - no tempo de Caraíva. 

Como diria Caetano: “tempo, tempo, tempo, tempo...” Ah sim, ele nasceu na Bahia!

 

 

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