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MISSA DE DOMINGO DE RAMOS É CELEBRADA COM IGREJA VAZIA EM CAMBARÁ

Cena é a mais impactante da história da paróquia quase centenária. Fiéis acompanharam a celebração pelo Facebook

07/04/2020 15h33 Atualizada há 1 ano
Por: Carlos Roberto Francisquini Fonte: C.Roberto Francisquini
Pe.Silvio Pawak e Monsenhor José Maria Nogueira celebram, pela primeira vez, uma Missa de Ramos apenas pela internet - Foto: C. Roberto Francisquini
Pe.Silvio Pawak e Monsenhor José Maria Nogueira celebram, pela primeira vez, uma Missa de Ramos apenas pela internet - Foto: C. Roberto Francisquini

Cambará, 05 de abril de 2020. Domingo de Ramos. O relógio marca 9 horas e 30 minutos. Aguardo o soar dos sinos da matriz para dar início ao meu compromisso do dia que era cobrir a missa de Domingo de Ramos como faço há mais de 20 anos de profissão.

Pela primeira vez não ouvi os sinos da Paroquia Nossa Senhora das Graças tocar para anunciar aos fiéis o início da Missa das 10. É estranho este silêncio. Não combina com Cambará. Acho que não combina em lugar nenhum.

Neste ano, enquanto caminhava até a praça da matriz, eu e minha Nikon, já tínhamos uma ideia do que iriamos registrar. Padre Silvio havia me orientado que minha permanência dentro do Templo deveria ser breve.

Praça da Matriz esteve completamente vazia neste domingo de Ramos - Foto: C. Roberto Francisquini

 

No meu trajeto de pouco mais de uma quadra, percorrido a pé, com as ruas vazias, praticamente sem movimento, percebi a grandeza desta tragédia que parou o mundo.

Enquanto caminhava, refleti sobre tudo que vivera até aqui. Este vai ser o primeiro domingo de Ramos em toda a minha existência que não haverá o reencontro de famílias na Praça da Matriz.

É uma festa cristã, acima de tudo e, em Cambará, minha cidade natal, sempre foi um dia muito especial. Para nossa família, tradicionalmente católica, a data faz com que recordemos, com doses elevadas de saudosismo, da nossa família completa. A casa de Dona Marciana Martins Francisquini e Sr. Antônio Francisquini repleta de gente que sempre gostou de falar alto, como bons italianos, a comida farta à mesa e muitas histórias contadas completam o cenário.  

Por razões óbvias, para quem foi criança um dia, a data só não era melhor que o domingo de Páscoa. Mas o domingo de Ramos era uma espécie de prévia para o que ainda de bom estava por vir. Neste dia, havia sempre a expectativa de rever os primos e primas, tios e tias, amigos e seus familiares. O encontro acontecia no pátio da igreja, que naquela época ainda se podia estacionar os carros. Haviam bancos para se sentar e as pessoas se aglomeravam embaixo das grandes árvores que existiam no lugar. 

Era uma das poucas datas do ano que exala cheiro de pipoca fresca no ar e o aroma adocicado de família unida. Era uma festa.

Cena inédita da igreja Matriz de Cambará durante a celebração da Missa de Ramos - Foto: C. Roberto Francisquini

Mas o que significa mesmo o Domingo de Ramos? Enquanto caminhava isto me fez lembrar da Ir. Celestina e de suas aulas de catequese ministradas no Colégio Nossa Senhora das Graças. Parece que vi ela em minha frente explicando a mim e aos meus colegas de turma, que o Domingo de Ramos é uma festa cristã celebrada em todo o mundo no domingo anterior à Páscoa e comemora a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Foi um evento da vida de Cristo mencionado nos quatro evangelhos canônicos. Ela dizia que Jesus entrou pela porta dourada de Jerusalém montado em um jumento e o povo, festivo, lançou seus mantos à sua frente, assim como pequenos ramos de árvores. Daí a referência ao Domingo de Ramos. Ir. Celestina dizia que a multidão acompanhou Jesus Cristo cantando salmos em com voz firme.

Cena inédita da igreja Matriz de Cambará durante a celebração da Missa de Ramos - Foto: C. Roberto Francisquini

Me lembro que um amigo de turma questionou a religiosa o porquê Jesus não escolheu estar montado em um Cavalo para aquela ocasião. Com sua paciência e habilidade com os assuntos sacros, Ir. Celestina nos disse – “Jesus Cristo era o príncipe da paz”. Com sabedoria, a religiosa nos ensinou outra grande lição. “Um rei quando queria a guerra chegava montado em um cavalo e quando estava em missão de paz surgia montado num jumento. Portanto, a entrada de Jesus em Jerusalém, simbolizaria a entrada de um príncipe da paz", disse ela ao grupo. Nunca me esqueci desta lição. Nunca me esqueci da Ir. Celestina.

Ao avistar a Praça da Matriz vazia, custei a acreditar que era aquele um Domingo de Ramos. O silêncio só foi interrompido pelo clique da câmera fotográfica e por alguns pássaros que habitam o local. De certo modo aquele silêncio provocou-me um incômodo e assustou, mas nada como presenciar a cena do Padre Silvio Pawak e do Monsenhor José Maria Nogueira celebrando no altar uma missa com o Templo completamente vazio.

Foi sem dúvidas uma das cenas mais impactantes da minha história como jornalista.

O vírus havia conseguido a proeza de quebrar uma tradição. Mudou para sempre a nossa maneira de ver e viver a vida. Não sei traduzir em palavras os meus sentimentos sobre a cena que vivenciei e registrei com minha Nikon neste domingo. Apenas penso que nunca será como antes. Percebi que aqueles anos dourados foram importantes para minha história e de muita gente. Foram anos realmente incríveis.

 

Fieis Católicos acompanharam a celebração da Missa de Ramos através do Facebook - Foto: C. Roberto Francisquini

Neste domingo, 05 de abril de 2020, eu e minha família assistimos pela primeira vez a missa de Ramos na cozinha de minha casa, através de uma live no facebook.

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