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CULTURA 9 DE JULHO!

A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 EM CAMBARÁ

Memória, bibliografia e jornais no texto de um estudante de história da UENP

09/07/2020 16h43 Atualizada há 4 semanas
Por: Carlos Roberto Francisquini Fonte: Mateus Torelli Fidelis
A REVOLUÇÃO CONSTITUCIONALISTA DE 1932 EM CAMBARÁ

 

No dia de hoje comemora-se 88 anos da Revolução Constitucionalista, atualmente feriado no Estado de São Paulo. Muito se sabe sobre a Revolução de 1932 e ainda, muito se tenta a descobrir novas perspectivas sobre memória, cultura e questões sócio-políticas que implicam grande relevância para os dias de hoje e principalmente na vida dos cientistas, ou seja, dos pesquisadores. A Revolução Constitucionalista de 1932 ou a ‘’revolução’’ como sugere o historiador Edgar De Decca (1981), teve iniciação em 9 de julho de 1932 com o Estado de São Paulo opondo-se ao Governo Getulista. O enquadramento fora demasiadamente grande em parte cultural e principalmente em disputas pelas memórias – classes sociais. Classes sociais como a burguesia, instituições como igreja e etc... fizeram parte deste movimento. Grande influência teve a Igreja como arrecadador de dinheiro como a campanha ‘’ouro para o bem de São Paulo’’, onde pessoas doavam alianças e ademais ornamentos de grande valor para compra de capacetes, armas e mantimentos militares.

            Uma sigla muito importante na revolução é o famoso M.M.D.C., sigla originada da inicial do nome de quatro pessoas que foram mortas em um conflito antecessor ao inicio da revolução e que está totalmente interligada a ela. Os nomes são: Martins, Miraguaia, Dráusio e, por fim, Camargo. Tamanha fora a comoção por parte dos paulistas em questão das mortes e tamanha, também, fora a ira gerada por parte da população.

            Com o passar do tempo e a iniciação da revolta, muito acontecera nas regiões de fronteira com o Estado de São Paulo, inclusive no Paraná, na região Nordeste, mais conhecida como Norte Pioneiro. Cambará, Jacarezinho e outras regiões, chegaram a ser ocupadas por tropas paulistas. Fortes evidências do acontecido podemos encontrar em livros como da Érica Machado de Almeida - Esparta Paulista: A Revolução de 1932 em Ourinhos e Norte do Paraná –, no livro de memórias escrito pela Alice do Amaral Faria – Alma da Terra Cambará – e nos jornais da década de 30 encontrados na hemeroteca digital da biblioteca nacional.

            Segundo ALMEIDA, em Cambará e Jacarezinho teve muitos voluntários para defender São Paulo. Nos registros de Constantino Molina, no primeiro mês da revolução em Ourinhos, afirmava com entusiasmo e empolgação sobre os voluntários. Todavia o conflito entre paulistas e gaúchos era exorbitante, como podemos ver os avanços dos gaúchos:

Cartaz de campanha publicitária da época

 

‘’Outros combates ocorreram ainda entre os dias 22 de setembro e 03 de outubro, como o da Fazenda Laranjal e Porto Maria Ferreira (hoje sob as águas represadas do Rio Itararé que formaram o lago da Hidroelétrica de Chavantes). As tropas federais, gaúchos em sua maioria, transpuseram Cambará, ultrapassaram o Rio Paranapanema chegando a Salto Grande onde bloquearam a ferrovia, situação esta que impediria a fuga do Estado Maior e lideranças constitucionalistas para o Mato Grosso e países vizinhos, gerando isso um ataque mal sucedido de um dos trens blindados paulistas.’’ (ALMEIDA, 2014, pág.80)

 

            Nos registros de FARIA, é evidente a simpatia que os cambaraenses transpuseram aos paulistas e também, é evidente a parcialidade da autora quando descreve elementos culturais, como os paulistas – que tiveram forte influência na colonização e formação do ‘’Norte Pioneiro’’ – e os gaúchos – onde pouco se sabia sobre sua cultura devido às fontes de informações e suas tecnologias da época. Vale ressaltar, que, Cambará naquele período, historicamente falando, era uma cidade recém-nascida pois não fazia muitos anos desde 1925 e Cambará estava na transição do seu segundo prefeito para o terceiro. Pouco se sabe também, sobre a vida desses prefeitos, mas há alguns indícios de que o prefeito fora favorável aos constitucionalistas como mostra o Jornal O Dia PR em sua matéria sobre o magistrado Altino de Abreu.

            Na questão de tomar partido, partindo de uma pesquisa minuciosa na biblioteca nacional, encontramos a história de um juiz – citado anteriormente – em Cambará que recebera severas punições por apoiar e participar do movimento, inclusive fora afastado de seu cargo.

 

‘’Recorrendo ao sr interventor federal para o effeito de serem reintegrados em suas funcções, os drs. Altino de Abreu e Hernando Brasil tiveram seus requerimentos indeferidos pelo delegado do governo provisório, que assim oferece uma prova robusta de parcialidade contra dois paranaenses que no exercício do alto sacerdócio que lhes fôra confiado no organismo judiciário.’’ (CORREIO DO PARANÁ, 1932)

 

            No Jornal O Dia PR de 1932, também é noticiado as acusações contra Altino de Abreu de uma maneira clara: por abandono ao cargo e ato solidário conjuntamente com o prefeito, entregando os documentos públicos aos constitucionalistas.

            O ocorrido em Cambará, é de extrema importância para formação de tal comunidade, desde que há conflitos culturais e hegemônicos. O acontecido, em hipótese alguma, não deixa de ser um fato histórico, por ter gerado consequências contribuintes ao trabalho do historiador e apesar de tudo não deixa de ter gerado uma forte contribuição identitária para a história da cidade de São Paulo e de seu Estado, e do Estado do Paraná e o ‘’Norte Pioneiro’’

 

Mateus Torelli Fidelis - Graduando do curso de História da Universidade Estadual do Norte do Paraná - UENP

 

REFERÊNCIA

 ALMEIDA, Erica Machado. Esparta Paulista: a Revolução de 1932 em Ourinhos e no Norte do Paraná. São Paulo: Clube dos Autores, 2014.

AZEVEDO, Fábio Palácio de. O Conceito de Cultura em Raymond Williams. Revista Interdisciplinar em Cultura e Sociedade (RICS). São Luís – Vol.3 – Número Especial Jul/Dez. 2017.

Correio do Paraná. Ed. 00417, 1933.

DEDECCA, Edgard S. 1930: O Silêncio dos Vencidos. São Paulo: Brasiliense, 1981.

FARIA, Alice do Amaral. Alma da Terra Cambará: Portal de Ouro do Norte Pioneiro. Curitiba: Opta Gráfica e Editora, 2001.

LIMA, Luiz Octavio de. 1932: São Paulo em Chamas. São Paulo: Planeta do Brasil, 2018.

O dia PR. Ed. 02748 1, 1932.

 

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