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SAÍDA DO REINO UNIDO DA UNIÃO EUROPEIA ABRE CAMINHO PARA O PARANÁ

País pode representar um novo mercado e oportunidades de negócios para a agropecuária nacional e estadual

Por: Fonte: FAEP
03/11/2020 às 14h23 Atualizada em 04/11/2020 às 14h42
SAÍDA DO REINO UNIDO DA UNIÃO EUROPEIA ABRE CAMINHO PARA O PARANÁ
“Eles sabem que o produto brasileiro é de alta confiabilidade, que a entrega é feita quando precisa e conforme acordado, e tem um ótimo preço. Para os grandes atacadistas, isso ainda é definidor”, salienta Carolina.

 

No dia 31 de dezembro de 2020, o Reino Unido deixa oficialmente a União Europeia. O processo de separação, conhecido como Brexit, foi oficializado em janeiro deste ano, e levanta expectativas sobre possíveis impactos nos negócios com o restante do mundo. O futuro das relações comerciais com os britânicos ainda é indefinido, pois muito depende de como será concluído o acordo com a União Europeia neste período de transição pós-Brexit. No entanto, já é possível sondar perspectivas, que, no caso do Brasil, espera encontrar oportunidades para abertura de novos mercados. 

O agronegócio tem interesse em estabelecer relações comerciais com um Reino Unido independente. Se hoje a parcela de exportações brasileiras para o país é relativamente pequena – em 2019, a participação foi de 1,31%, segundo dados de comércio exterior do Ministério da Economia –, com a saída da União Europeia, abrem-se espaços que podem ser ocupados. 

A possibilidade de melhoria das condições de competitividade dos produtos brasileiros levanta expectativas positivas. Por outro lado, há receio sobre um possível aumento de custos logísticos e alfandegários e outros entraves relacionados às exportações via Europa. Esses e outros pontos foram levantados por meio do projeto de monitoramento comercial denominado “Brazil Brexit Watch” (em português, Observatório Brasileiro do Brexit), ação coordenada da Embaixada do Brasil em Londres e da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil). 

Em um primeiro momento, o Brasil não é uma prioridade para os britânicos. Depois da União Europeia, cujas negociações ainda acontecem, o interesse é pelo mercado dos Estados Unidos, Nova Zelândia, Austrália e Japão. 

Apesar disso, para o adido agrícola brasileiro no Reino Unido, Augusto Billi, o cenário para os brasileiros se mantém positivo.

“O Brasil não está, de início, como prioridade, mas a economia brasileira se torna relevante para o Reino Unido. É um grande mercado que eles não devem negligenciar, em termos políticos, inclusive. Eu sou otimista, chegará a hora que vamos fechar acordos e temos que lutar por isso. Nós estamos avançando em conversas na área agrícola, nessa intenção de pavimentar a estrada para uma aproximação mais profunda”, afirma Billi. 

Na opinião da chefe do Departamento de Agricultura na Embaixada do Brasil no Reino Unido, Carolina Von Der Weid, o estabelecimento de um acordo entre os dois países depende, em grande parte, do posicionamento e mobilização do setor privado brasileiro.

“No momento em que a decisão no Brasil for tomada para abrir essa negociação ou, pelo menos, para dar um pontapé concreto, ou seja, um diálogo de algo exploratório, que é a primeira fase da negociação, é muito improvável que os britânicos neguem”, aponta. 

Oportunidades para o Paraná 

O Reino Unido é um grande importador de alimentos – cerca de 50% do que é consumido no país –, o que desperta os olhares do agronegócio paranaense. No setor de frutas, 83% são importados e, destes, 60% vêm da União Europeia. Segundo o adido, caso o acordo entre Reino Unido e União Europeia resulte em uma redução dos fluxos de comércio ou em um acesso mais favorável ao mercado britânico, as frutas brasileiras se tornam mais competitivas, principalmente cítricos. Atualmente, a pauta de exportações do Paraná para o Reino Unido é centrada no complexo carnes, com 58%, seguido por produtos florestais, com 25%, e café, com 7%. 

De acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria Estadual de Agricultura e Abastecimento (Seab), a produção de laranja do Paraná é uma das mais competitivas do país, ocupando a terceira posição no ranking nacional. Do total produzido, 95% vão para a exportação. Além da laranja, o limão e a tangerina também se destacam na produção estadual, fazendo com que a citricultura represente mais de 60% da colheita de frutas no Estado. 

Um dos destaques entre os consumidores britânicos é o interesse por produtos sustentáveis, orgânicos e com maior valor agregado. Segundo Billi, o apelo sustentável tem entrada garantida tanto na Europa como no Reino Unido e é uma oportunidade para o desenvolvimento de novas estratégias de exportação. Produtos regionais, como nozes e o famoso pinhão, também chamam a atenção dos britânicos, que gostam de “pagar pela experiência”. 

Ainda, o mercado de produtos vegetarianos e veganos vêm ganhando enorme espaço no Reino Unido, com crescimento exponencial do número de britânicos adeptos a essas formas de consumo. Na mesma linha, estão os produtos cruelty free (em português, livre de crueldade), que se refere à produção que não envolve testes em animais. 

De acordo com o adido, há movimentação para abertura de mercado para carne suína, pescados, ovos e lácteos – este último atualmente fechado para a União Europeia. As negociações são voltadas para a efetivação de um prelisting para as exportações, ou seja, um sistema de listas pré-autorizadas de estabelecimentos exportadores. 

Com relação ao protecionismo agrícola de ordem sanitária, Carolina aponta a tendência de um alinhamento com o que já é praticado na União Europeia.

“Os britânicos serão bastante rigorosos, mas, também, são muito pragmáticos com o que interessa. Eu acredito que vai ser uma conversa boa, mas não necessariamente fácil”, adianta. 

Sobre o complexo carnes, de um modo geral, o acesso ao mercado britânico é dificultado pela forte concorrência com a Irlanda, principal fornecedor de carne in natura. O futuro reconhecimento internacional do Paraná como área livre de febre aftosa sem vacinação, pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em 2021, pode ser um facilitador nesse sentido. No caso da carne suína, a aprovação de sistemas separados de criação pelo uso da ractopamina é o principal entrave. 

Apesar dos obstáculos em relação à competitividade e questões sanitárias, para os britânicos, a principal variável de compra ainda é o preço, principalmente em relação às carnes.

“Eles sabem que o produto brasileiro é de alta confiabilidade, que a entrega é feita quando precisa e conforme acordado, e tem um ótimo preço. Para os grandes atacadistas, isso ainda é definidor”, salienta Carolina. 

Termos e tarifas 

Durante o período de transição do Brexit, permanecem vigentes no Reino Unido as tarifas aplicadas a União Europeia. A partir de 1º de janeiro de 2021, as alterações acontecem com base na nova política tarifária britânica, denominada “UK Global Tariff”. 

A média de tarifas para produtos agropecuários foi reduzida de 15,9% para 10,6%.  Algumas linhas no setor de frutas tiveram redução de quase um ponto percentual da alíquota de importação. Outras reduções de interesse para o produtor brasileiro são a eliminação de tarifas para produtos como milho, gelatina, óleos essenciais, sucos e extratos vegetais, leveduras, tecidos de algodão e couro.

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