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Gramados do Norte Pioneiro viram terra estéril para o futebol

No auge, fartura financiada pelos barões da agricultura. Hoje, penúria no campo e na lavoura. A bola sempre rolou na região conforme o ritmo da economia

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21/01/2013 às 16h15 Atualizada em 22/01/2013 às 10h01
Gramados do Norte Pioneiro viram terra estéril para o futebol

 

 

Gazeta do Povo


“O futebol daqui está morto.” As duras palavras saem com naturalidade da boca que mais deu ordens nos gramados da região. Serafim Meneghel comandou o União Bandeirante por quatro décadas. Hoje, é testemunha de um futebol que não existe mais. Casa de equipes que, por meio século, desafiaram os grandes do estado, o Norte Pioneiro tornou-se um cemitério de clubes. Uma a uma, as forças da região foram fechando as portas. Algumas tentaram voltar em versões genéricas, enfraquecidas e de curta duração.

 

A última incursão no profissionalismo resume bem a situação. Com um histórico rico no amador, o União Nova Fátima, instigado por empresários paulistas, inscreveu-se na Terceirona do ano passado. Sem estádio e sem dinheiro, desistiu no meio da competição. Fora da elite desde 2007, o Norte Pioneiro não deve ter representante também nas duas divisões de acesso do estado este ano. Ausência registrada anteriormente apenas em 1955, 1957 e 2007.

Penúria no futebol que reflete a pobreza dos municípios. Entre as dez mesor­­regiões do Paraná, o Norte Pio­­neiro é a terceira mais pobre, segundo dados do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econô­­mico e Social (Ipardes), com base no Censo de 2010. Responsável por 3% do PIB pa­­ranaense, vive na contra­­mão do estado: é mais agrícola (22% do PIB) e menos industrializada (18%) que a média geral, de 7% e 28%, respectivamente.

Espelho da economia na pobreza e na riqueza. Os períodos de prosperidade, quase sempre puxados pelo café, enchiam de dinheiro o bolso dos fazendeiros e os estádios de torcedores e bons times. O primeiro clube a se aventurar no profissionalismo foi a Esportiva de Jacarezinho, em 1950. Na época, a cidade era o centro da produção cafeeira da região, sede de grandes fazendas com populosas vilas de colonos, ainda guardando resquícios da escravidão.

“O período entre o fim da Segunda Guerra e meados dos anos 60 é o auge do café na região. Os fazendeiros investiam na montagem de times como lazer. Contratavam, pagavam salário, davam bicho em mantimentos e pequenos objetos de luxo. Foi a lógica do futebol em todo o Norte até os anos 70”, conta o professor de História da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Rogério Ivano.

As duas décadas áureas do café são também o período mais glorioso do futebol do Norte Pioneiro. O ápice é em 1962, ano em que 12 equipes da região se inscrevem no Campeonato Paranaense. Duas – Comercial, de Cor­­nélio Procópio, e Esportiva – chegam ao triangular final, contra o Operário. O Comercial leva pela primeira e única vez o título para esta parte do estadol.

 

 

Além da prosperidade eco­­nô­­mica, o formato do Es­­­­­tadual estimulava a parti­­ci­­pação de equipes. O torneio era dividido em regiões. Havia um grupo só do Norte Pioneiro. Com acesso difícil a Curitiba – apenas parte da estrada era asfaltada –, os times recorriam a São Paulo e Minas Gerais para buscar jogadores. “Eu rodava o interior de São Paulo atrás de jogador e todos eles já tinham ouvido falar da Esportiva”, orgulha-se Pedro Chueire, 87 anos, diretor de futebol durante toda a existência do time de Jacarezinho. Potências nacionais como Palmeiras, São Paulo, Santos, Corinthians e Flamengo rodavam os mu­­nicípios em concorridos amistosos.

O declínio começou na segunda metade dos anos 60. A unificação do Estadual encareceu o futebol e a queda do café tornou o dinheiro mais escasso. A geada de 1975 foi o golpe final. “O excesso de produção tornava o plantio menos vantajoso, havia muita concentração de terra e os cafezais já estavam velhos. A grande geada foi o cataclisma, jogou a pá de cal no café”, explica Ivano.

Sobreviveram apenas dois times de dono: o União Ban­­­­­­deirante, da família Meneghel, dona de usina e fazendas de cana de açúcar, e o Matsubara, dos Matsubara, barões do algodão. O clássico do Algodão Doce mantém o futebol vivo e forte no Norte Pioneiro entre os anos 70 e 90, um duopólio quebrado apenas pela Platinense, entre 1985 e 89.

A exemplo do que aconteceu com o café, o cultivo de algodão minguou no estado. A família Matsubara perdeu dinheiro e poder de investimento no time. A usina Meneghel retirou o apoio ao União em 2004. Em um futebol mais caro, dominado por empresários, os clubes resistiram pouco pelas próprias pernas.

“As mudanças na economia e no futebol prejudicaram a região. Hoje o futebol vive de marketing, e quem vai investir em uma região onde não se tem retorno de mídia nem massa crítica?”, constata Norio Matsubara, filho de Sueo e herdeiro do clube de Cambará. Herdeiro de um futebol que não existe mais.

 

 

 

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