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AGRORURAL SAFRA!

CHUVA EM JANEIRO COLOCA EM RISCO DESEMPENHO DA SAFRA DE VERÃO

Desenvolvimento das lavouras de soja, atraso na colheita, quebra de safra e plantio do milho safrinha preocupam produtores

12/02/2021 15h39 Atualizada há 1 semana
Por: Nathália Bonhole Fonte: FAEP
Segundo informações da Somar Meteorologia, essas duas regiões tiveram registros de até 650 milímetros (mm) em algumas cidades, como Foz do Iguaçu, no acumulado de janeiro (a média histórica é de 150 mm)
Segundo informações da Somar Meteorologia, essas duas regiões tiveram registros de até 650 milímetros (mm) em algumas cidades, como Foz do Iguaçu, no acumulado de janeiro (a média histórica é de 150 mm)

 

Após um início de plantio com atrasos devido à estiagem em diversas regiões do Paraná, a safra de soja 2020/21 enfrenta novas adversidades em relação ao clima. O problema agora é o excesso de chuvas. Produtores, principalmente do Oeste e Sudoeste, regiões em que a água chegou em maior volume, relatam dificuldades em prosseguir com a colheita do grão. 

Segundo informações da Somar Meteorologia, essas duas regiões tiveram registros de até 650 milímetros (mm) em algumas cidades, como Foz do Iguaçu, no acumulado de janeiro (a média histórica é de 150 mm). Em Cascavel, o registro foi de 450 mm (contra média de 180 mm). Em Francisco Beltrão, a chuva acumulada atingiu 430 mm. 

De acordo com o meteorologista Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, ainda que seja um ano com influência do fenômeno La Niña, em alguns momentos, podem existir outras interferências que mudam o cenário a curto prazo, como aconteceu em janeiro.

“Houve um bloqueio atmosférico, em que as frentes frias que deveriam passar pela região Sul e provocar pouca chuva, para depois avançar na direção do Sudeste e do Nordeste do Brasil, estacionaram. Isso trouxe chuva mais persistente ao Paraná”, afirma. 

O meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) Heráclio Alves também aponta que há influência das águas mais quentes no Oceano Atlântico, o que favoreceu as chuvas no Sul do país.

“As águas do Atlântico Sul estão mais aquecidas e avançaram para a Argentina e o Paraguai. Isso intensificou esse canal de umidade que vem do Norte do país, que se manteve sobre a região Sul”, analisa. 

A última previsão divulgada pelo Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria de Agricultura e Abastecimento (Seab), no fim de janeiro, aponta para 20,4 milhões de toneladas. Mas, essa produção pode reduzir. 

“A chuva afeta, na maioria das vezes, mais a qualidade do que a produtividade. Porém, a chuva foi tão intensa em algumas regiões que podemos ter queda de produtividade, já que foram registrados muito problemas de abortamento. Esse clima nublado e chuvoso causou um alongamento no ciclo da soja e isso pode se reverter em queda de produção”, avalia o economista do Deral, Marcelo Garrido. 

No momento, as expectativas para a safra paranaense de soja continuam favoráveis. Segundo Garrido, ainda não é possível afirmar se os números realmente sofrerão alterações devido às mudanças climáticas. Uma nova avaliação será realizada assim que as chuvas amenizarem e os técnicos conseguirem ir à campo. 

Clima de preocupação 

As chuvas quase diárias de janeiro ofereceram maior risco à qualidade do grão, que fica mais suscetível a pragas e doenças. A falta de incidência solar também causou alongamento no ciclo vegetativo do cultivo. 

Em Mangueirinha, no Sudoeste, cidade do produtor Laércio Dalla Vechia, choveu 16 dias consecutivos em janeiro, sem oportunidade de entrar na lavoura para a colheita ou aplicação de defensivos. Segundo ele, há muitos casos de raízes e grãos apodrecidos, brotação de grãos verdes, abortamento e abertura de vagens e grãos “ardidos”. 

“Do que eu colhi até agora, tenho de 20% a 30% de grãos bons, o resto está bem complicado. Acredito que a lavoura plantada mais cedo vai dar quase perda total. As lavouras mais atrasadas também estão em uma situação preocupante, com muitos grãos apodrecendo, principalmente na parte debaixo, e brotando verde”, conta. 

Dalla Vechia aponta que o estresse hídrico no início do plantio também foi um fator prejudicial para o desenvolvimento da lavoura, causando a antecipação do ciclo da soja.

“Como faltou água, a planta começou a emitir muito precocemente as primeiras vagens, e bem menores. Quando começou a chover, lá por novembro e dezembro, a planta conseguiu fazer os grãos maiores, mas a vagem era muito pequena, então rachou. Isso possibilitou a entrada de umidade e fungos”, explica. 

Em função do plantio escalonado, o impacto nas lavouras é diferente de acordo com a época de semeadura. As áreas plantadas ainda em setembro estão sofrendo bastante neste momento. Muitas já estavam dessecadas, mas os trabalhos não podem avançar devido à impossibilidade de o maquinário entrar. Já a soja semeada em outubro, a preocupação é a alta suscetibilidade a doenças, devido ao tempo chuvoso e à falta de luz solar. 

Segundo o presidente do Sindicato Rural de Pato Branco, Oradi Caldato, apenas uma pequena porcentagem da soja colhida até o momento na região está em boas condições – 300 sacas em peso bruto, após uma secagem com dificuldades, rendem cerca de 180 sacas. O milho verão está danificado devido ao encharcamento na espiga e contaminação pela cigarrinha de milho, inseto que transmite doenças por meio de bactérias. 

“Em algumas áreas, os produtores não estão realizando a colheita, porque sem qualidade é muito mais caro. Ainda, o maquinário pesado pode atolar, já que a água brota do solo. A soja que foi colhida, quando coloca na secadora, fica igual um chiclete”, afirma Caldato. “Ainda não podemos calcular o prejuízo, mas existe e é grande”, acrescenta.

Segundo o dirigente, 90% das lavouras da região Sudoeste devem finalizar a colheita até o fim de fevereiro, se a chuva der a trégua esperada. 

No Oeste, a maioria dos sojicultores não realizou a semeadura em setembro, devido à falta de chuvas na região. No entanto, a situação não está muito melhor, devido ao alongamento do ciclo das lavouras plantadas. Segundo o presidente da Comissão Técnica de Cereais, Fibras e Oleaginosas da FAEP e do Sindicato Rural de Toledo, Nelson Paludo, as lavouras estão no limite e não aguentam mais tanta chuva.

“Tem relatos que está caindo muita vagem da soja, então acredito que a produção já esteja afetada e vai ter prejuízo”, afirma. “As lavouras estão com grãos muito pequenos, estão bastante atrasadas. Acredito que vamos colher lá por março”, complementa. 

Atraso no milho safrinha 

Com tantos problemas na colheita da soja, outro fator que preocupa os produtores é o atraso no plantio do milho safrinha, geralmente realizado em fevereiro e março. A expectativa inicial, segundo o Deral, é de uma área plantada de 2,4 milhões de hectares e produção em torno de 13,5 milhões de toneladas. 

Segundo Caldato, o plantio de milho safrinha já pode se considerar atrasado no Sudoeste, visto que a melhor época para semeadura terminou no dia 10 de fevereiro. No Oeste, o atraso também é dado como certo por Paludo. O prazo de plantio se encerra no dia 10 de março. 

“Mesmo com atraso, o produtor vai plantar igual. O problema é que a produção menor vai encarecer os produtos no mercado depois e a demanda por grãos está muito alta”, aponta Paludo. “Pode faltar alimentação para frango, suínos, gado leiteiro, o que vai prejudicar toda a cadeia. É preciso uma medida emergencial”, alerta Caldato. 

Previsão do tempo para fevereiro e março 

A previsão para fevereiro tende a ser menos chuvosa no Paraná. Na análise de Celso Oliveira, da Somar Meteorologia, não há ausência completa de chuva, mas precipitações espaçadas e irregulares, o que dá melhores condições para a finalização da colheita da soja e plantio do milho safrinha. 

A próxima chuva mais intensa deve ocorrer entre 20 e 25 de fevereiro, atingindo entre 70 mm e 100 mm. O volume previsto até o final do mês de fevereiro, principalmente na região Oeste, deve se aproximar de 200 mm. 

Segundo o meteorologista do Inmet Heráclio Alves, em março, as chuvas devem reduzir, ficando ainda mais irregulares. O tempo será mais seco em todo Paraná, principalmente na região Oeste e com exceção na faixa litorânea e em pequenas áreas ao Norte.

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