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Paraná tem um plano B para o trigo

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12/05/2012 às 12h20
Paraná tem um plano B para o trigo

 

 

 

 

 

 

Uma movimentação industrial protagonizada por cooperativas pode ajudar a reverter o que ameaça ser uma tendência no Paraná: a redução na produção de trigo. Enfrentando problemas de comercialização e liquidez, o número de produtores que apostam na cultura cai 10% por safra na região. Com o anúncio de dois novos moinhos, um em Cascavel, da Coopavel, e outro em Ponta Grossa, resultado de uma parceria entre as cooperativas Batavo, Castrolanda e Capal, seus líderes pretendem, senão frear, amenizar essa debandada. “Resolver o problema da comercialização nós não vamos, mas, com novas indústrias, teremos um argumento para convencer o produtor a ficar na atividade”, diz Dilvo Grolli, presidente da Coopavel. “O objetivo é auxiliar no escoamento da produção e reduzir a dependência dos leilões do governo”, afirma. 

"O país produz 5 milhões de toneladas de trigo e a demanda interna é de 10 milhões de toneladas"diz Dilvo Grolli, presidente da Coopavel



As duas indústrias elevarão para 231 o número de moinhos no país. A Coopavel investiu R$ 43 milhões, e as cooperativas dos Campos Gerais R$ 30 milhões. Juntas, demandarão 240.000 toneladas de trigo (ambas iniciam atividades processando 120.000 toneladas), quase 10% da produção paranaense e 4% da safra nacional, de 5 milhões de toneladas.

Grolli diz que, na região de atuação da Coopavel, onde o cultivo do grão encolheu de 60.000 hectares para 37.000 hectares nas últimas quatro safras, o empreendimento devolverá ânimo ao campo. “A indústria demandará 20% da produção do oeste paranaense, que foi de 600.000 toneladas em 2011. Nosso objetivo é facilitar o escoamento e ter uma opção de cultura de inverno para evitarmos a monocultura do milho. O produtor sabe que isso é fundamental, e com o moinho ele não ficará com o estoque parado.”

Nos Campos Gerais, o moinho vai absorver quase toda a produção local, de 130.000 toneladas. Antonio Carlos Campos, gerente-geral da Batavo, também crê que a indústria poderá segurar o triticultor na atividade e estimulará o plantio, mas não enxerga um horizonte positivo em relação aos preços em curto prazo. “Vamos comprar a produção, mas não podemos garantir preços melhores que os praticados no mercado enquanto não houver mudanças no setor”, afirma. 

Algum lucro, por mínimo que seja, é o que os produtores querem. “Só se acontecer um milagre”, diz Emerson Penachiotti, agricultor da Região Centro-Oeste. Após três anos de prejuízo, ele decidiu abandonar o trigo. “Na safra passada, eu já tinha dúvidas, mas insisti e de novo me dei mal. Plantar trigo não dá mais para mim”, desabafa.

O agricultor plantou 60 hectares de trigo em abril de 2011, perdeu 30% da produção devido às adversidades climáticas, recorreu ao Proagro (Programa de Garantia da Atividade Agropecuária) e tudo o que colheu em agosto ficou estocado até fevereiro deste ano, quando vendeu nos leilões do governo. “Mesmo liquidando tudo, vou ter prejuízo. Vender por R$ 23 é uma afronta ao produtor”, diz o agricultor, se referindo ao preço mínimo pago nos leilões atualmente, uma das poucas alternativas de venda do grão no país. 

O entrave do trigo vem de longa data e esbarra em equívocos que envolvem diferenciação de preços, qualidade de grãos, formas de comercialização nos leilões do governo e problemas agronômicos. O país produz 5 milhões de toneladas de trigo e a demanda interna é de 10 milhões de toneladas. Metade dessa necessidade é de trigo para panificação (com força de glúten), o trigo-pão. “Aí está o primeiro problema: produzimos trigo-biscoito, sem força de glúten. Nesse segmento, atendemos com folga à demanda interna e exportamos, mas não temos trigo-pão, o que obriga as indústrias a importar de países vizinhos que são fortes produtores”, explica o consultor técnico da Associação Brasileira das Indústrias de Trigo (Abitrigo), Reino Pécala Rae. “O Brasil tem de elevar a produção de trigo com força de glúten para que o setor agrícola tenha poder de barganha.” 

Segundo Rae, os produtores gaúchos já começaram a se movimentar nesse sentido. “Eles estão investindo em lavouras de trigo-pão e em variedades melhoradoras e o cenário está mudando. Também é possível plantar essas variedades no Cerrado com sucesso. No Paraná, é mais complicado, devido aos tipos de solo da região. Não é impossível, mas terá de haver um intenso trabalho agronômico.” 

Os triticultores apostaram em trigo-biscoito por conta da política de compra do governo, por meio de preços mínimos. “Em 1994, o governo passou a comprar trigo por quantidade, e não por qualidade. Não havia classificação nem diferenciação de preços. As lavouras de trigo-biscoito são mais produtivas e têm menor custo que as de trigo-pão, então, o produtor se preocupou em cultivar o que lhe renderia mais”, diz Rae. “Isso é uma coisa que só acontece no Brasil.” Hoje, os leilões levam em conta a classificação de tipo e peso, mas mudanças podem surgir em julho. Uma instrução normativa do Ministério da Agricultura passará a classificar o trigo de acordo com a força de glúten. Com isso, o valor mínimo de força do trigo-pão passará de 180W para 220W.

 


 

 

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