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Câncer: É possível vencer a doença?

Cleuza Serafim diz que sim. “Entre rir e chorar, a primeira opção salvou a minha vida”

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini
27/11/2014 às 15h48 Atualizada em 27/11/2014 às 16h21
Câncer: É possível vencer a doença?

 

 

 

Cambará

C.Roberto Francisquini


 

Cleuza Serafim Moreira da Silva (50) conta seu drama de conviver e vencer o Câncer. “A primeira reação, como para todo mundo que recebe essa notícia, foi um choque muito grande, no primeiro momento fiquei desesperada, fiquei muito triste, mas sou uma pessoa de muita fé, dobrei meu joelho no chão e pedi a Deus que me desse forças”, conta.

 

Cleuza é daquelas pessoas espirituosas, de voz forte, que encara a vida de frente. Difícil identificar quando está com algum problema pessoal. “Não há o que fazer, ou você encara tudo de frente ou encara tudo de frente. Não tem essa de meio termo. Entre rir e chorar, a primeira opção salvou a minha vida” explica.

 

Ela disse que sua vida virou de pernas ‘pro ar’ após sofrer um acidente de trabalho que lhe custou sua saúde. Ela conta que tudo começou há aproximadamente 27 anos quando sofreu uma lesão séria na coluna ao carregar um pacote demasiadamente pesado quando trabalhava numa empresa da cidade. Desde então sua vida mudou para sempre. De um dia para o outro, foi parar numa cadeira de rodas, foi submetida a dezenas de cirurgias, pegou infecção hospitalar, foi diagnosticada, erroneamente, com tuberculose óssea e posteriormente descobriu que estava com câncer. Foi submetida novamente ao tratamento de quimioterapia, viu novamente os cabelos escorrerem pelo ralo do banheiro e quase chorou por isso. Quase... Pois ela resolveu levantar, mais uma vez, a cabeça e decidiu encarar o problema de frente e rir na maioria das vezes de seu tempo.

 

Foi curada de novo. Desta vez resolveu se juntar a um grupo de mulheres de Cambará e integrar-se a uma ONG – Organização Não Governamental que trabalha exclusivamente com pessoas diagnosticadas e especialmente em campanhas de prevenção à doença. Cleuza dá palestras, fala com franqueza sobre a doença, os métodos de prevenção, sobretudo, os caminhos que podem levar à cura.

 

Foi numa destas palestras que ela decidiu falar com a reportagem do Circulandoaqui. Acompanhe os principais trechos da entrevista.

 

Circulandoaqui: Primeiramente gostaria que você falasse da ONG Ame-se, projeto recém-criado no município. O que se pode esperar deste projeto e como você se sente ao falar de um problema que te custou tanto?

Cleuza: A ONG é um sonho antigo de uma enfermeira de Cambará chamada Lúcia Vanzela. Ela tem acompanhando de perto muitas pacientes com câncer, sofrendo. Ela estava muito inquieta, sabia que tinha que fazer alguma coisa para amenizar o sofrimento das pessoas que atendia e especialmente espalhar informações sobre os métodos de prevenção.

A Lúcia é uma pessoa que é muito humana, que pensa muito nos outros, e, acredito que a ONG lhe fará muito bem como pessoa.  Ela e a Lúcia Marcidelli iniciaram um trabalho para atrair pessoas para que se juntassem ao projeto e posteriormente criar a ONG. A adesão foi ótima e não pensei duas vezes e me coloquei à disposição.

O projeto é maravilhoso, já está dando resultados e não tenho dúvida que será duradouro.

Embora ainda não tenhamos uma sede para ampliarmos o nosso trabalho, contamos com apoio de pessoas de alma boa, como é caso da família Nagassawa.  Eles nos cederam, em caráter provisório, uma sala ao lado do Supermercado Nagassawa. O Marcos foi muito generoso conosco, porém sabemos que ele tem outros planos para aquele imóvel. Gostaríamos que o nosso Prefeito João Mattar e o Luizinho da Certano, nosso vice, que se empenhem e nos dêm condições de trabalhar. Só o que precisamos é de um imóvel para atender de forma digna as pessoas que nos procuram. Gostaria também de fazer um apelo para os empresários de Cambará, para que nos ajudem com doações, somos uma organização não governamental e não temos verbas de lado nenhum, nós somos voluntárias e estamos precisando de voluntários também, nossa ONG vive de rifas, eventos, e de pessoas anônimas.

 

Circulando: Qual é o seu papel na ONG?

Cleuza: Quanto a mim, encaro como uma missão. Estou engajada no projeto, estou motivada e enquanto tiver forças estarei de pé passando para as pessoas as experiências que tive, e, fazendo isso, espero tentar ajudar de alguma maneira, especialmente aquelas pessoas que estão diagnosticadas com a doença e não sabem por onde começar o tratamento.

Circulando: Por onde se começa o tratamento?

Cleuza: Por dentro. O melhor remédio é o pensamento positivo. Não deixar se abalar. É difícil, mas é possível. O controle emocional e seguir as recomendações médicas fazem a diferença. Nas minhas palestras passo isto para as pessoas. E sempre ouço “ah, Cleuza, mas os meus cabelos irão cair” aí eu digo, “não esquente, nascem de novo” (risos).

 

Circulando: A perda dos cabelos mexe com o emocional das mulheres...

Cleuza: vixe... e, como!... Mas é superável.

 

Circulando: O que é mais difícil no tratamento? A dor que os medicamentos provocam ou a perda dos cabelos?

Cleuza: Humm. Nem um nem outro. O mais dolorido é o preconceito. É estar no mercado e ver alguém cochichando e olhando para você com ar de piedade. Nesta hora, o que mais queremos é ser tratadas de igual para igual. Estou careca, estou com câncer, mas vou me curar. Pronto!

 

Circulando: Simples assim...

Cleuza: Sim! Enquanto estiver viva, estou viva. E tudo que quero é ser tratada como sou, não como estou.

 

Circulando: Isto ainda te incomoda?

Cleuza: Não... não mais. Sou o que sou e pronto!

 

Circulando: Então você se curou?

Cleuza: Seguinte, estou passando pelo segundo câncer no mesmo local. O primeiro foi diagnosticado em 2004 mais ou menos, me curei dele, só que aí eu teria que tomar uma vacina como complemento do tratamento, essa vacina é muito cara, não tínhamos condições e nem informações detalhadas sobre o assunto. Meu esposo é caminhoneiro, muitas pessoas o conhecem, a gente não tinha condições financeiras de comprar essa vacina, e como éramos inexperientes, não sabíamos também que poderíamos entrar na justiça para consegui-la. Então, como estava bem e tinha a notícia de que não havia mais o câncer em mim, eu passei sem tomar a vacina e, como deu como curado na época, eu pensei que ele (câncer) não iria voltar mais. Mas, infelizmente, em 2012, tive a ingrata notícia de que ele tinha voltado.  Não me abalei, se venci o primeiro, não seria o segundo que iria me derrubar. Iniciei o tratamento novamente, fiz a quimioterapia intratecal, que é feita diretamente na coluna onde estava o tumor, é muito dolorido, você não faz ideia, é muito sofrido. Na primeira vez eu fiz o tratamento quimioterápico convencional na veia, mas essa, da última vez, é muito brava, foi bem forte mesmo, tanto que na segunda sessão que eu fiz caiu todo meu cabelo, mas pensei, cabelo nasce de novo, meus cabelos já estão crescendo novamente e se precisar raspar meu cabelo para doar eu raspo de novo, cabelo não faz a gente.

 

Circulando: O que causou o surgimento da doença?

Cleuza: Foi um acidente de trabalho. Carreguei peso acima do que podia. Sofri uma grave lesão na coluna que resultou em tudo isto que te contei. Fiz dezessete cirurgias no local até que um dia, quando achei que tinha passado por tudo, recebi a notícia de que estava com câncer.

 

Circulando: Qual foi a tua reação quando veio o diagnóstico do Câncer?

Cleuza: A primeira reação, como todo mundo que recebe essa notícia, é um choque muito grande, no primeiro momento fiquei desesperada, fiquei muito triste, mas sou uma pessoa de muita fé, dobrei meu joelho no chão e pedi a Deus que me desse forças, que eu queria ver meu filho crescer, continuar meu trabalho, porque meu trabalho sempre foi ajudar o próximo sem ver lucro sem visar nada em troca, não sou política, quero deixar bem claro, vou continuar fazendo meu trabalho enquanto eu estiver viva, enquanto Deus me der  duas pernas para andar, porque pelo médico e pela medicina eu não estaria mais andando, meu câncer era um câncer raro mas estou melhor, não tenho mais lesões nenhumas graças a Deus, porém tenho que seguir em vigilância, seguindo as recomendações médicas.

 

Circulando: Você fala com muita naturalidade. Em algum momento, pensou no pior?

Cleuza: Claro que sim... Em um primeiro momento pensei sim, por que vem a depressão, só que eu tenho muita fé, herdada de minha mãe, que faleceu dia 28 de dezembro, vai fazer um ano agora, minha mãe sempre nos dizia que se há alguém em quem podemos confiar, esse Alguém, é Deus. Minha mãe sempre foi uma mulher muito espiritual, eu tenho certeza que herdei isso dela e isto me ajudou muito. Pensava muito na minha irmã, também, que considero como uma segunda mãe pra mim, eu buscava força nela. Então eu falava para mim mesma, se tenho bons exemplos na família, porque eu vou me desesperar?  Se eu sirvo a Deus, se Deus me trouxe até aqui, contrariando os diagnósticos e após 17 cirurgias na coluna, então, pensei, não tenho o que temer, não vou morrer antes da hora.

 

 

Circulando: Existe uma formula para encarar a situação ou depende de pessoa para pessoa?

Cleuza: Não sei. O que estou certa é que não há muitas escolhas a fazer. Eu acredito que ou você encara tudo de frente ou encara tudo de frente. Não tem essa de meio termo. Entre rir e chorar, a primeira opção salvou a minha vida.

 

Circulando: Você falou em depressão, passou por isto também?

Cleuza: Eu passo por isto. E não desejo para ninguém. Tomo meus medicamentos e tento estar sempre na ativa, senão pira.  Contudo, não é o fim do mundo. A pessoa que estiver lendo este texto e que talvez esteja passando por momentos semelhantes aos meus, pode ter certeza que não é o fim do mundo. Você tem que ter garra, tem que ter fé e disposta a lutar, não deixa a depressão te pegar, se trata, procura pessoas para conversar, procure-nos lá na ONG. Quando tive meu primeiro câncer não tinha ONG, eu não tinha amigos para conversar, enfrentei sozinha e me considero uma vitoriosa, porém, não é o recomendado. Hoje é diferente, temos apoio da nossa ONG e logo estaremos fazendo visitas residenciais às pessoas que não podem se locomover até a nossa sede.

Agora contamos com o suporte de uma psicóloga, nós vamos começar com oficina de artesanato, vai ser duas vezes por semana, um dia vai ser para homens e outro dia vai ser para mulheres. Por isto que estamos pedindo apoio da prefeitura para nos ajudar com uma sala, uma casa, enfim, um lugar onde poderemos ampliar nosso trabalho.

 

Circulando: quem pode ajudar a ONG?

Cleuza: qualquer pessoa pode nos ajudar. Vou deixar um número da conta para quem queira contribuir conosco: Banco Bradesco: Ame-se – Organização de Combate ao Câncer: Agência 728 Conta : 795-1.

 

Circulando: Para finalizar, alguém em especial para agradecer?  

Cleuza: Quero agradecer a Deus por mais um dia, por mais uma etapa vencida. Deus tem sido muito generoso comigo. Quando soube da doença pensei que não viria meu filho crescer, se tornar homem e pai de família. Hoje comemoro e sou grata a Deus por isto. Então, espero que Ele continue me ajudando a seguir adiante com este projeto e que eu seja um instrumento Dele para levar conforto a quem precisa.


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