
Por Carlos Roberto Francisquini
Em meio às inúmeras campanhas de conscientização que colorem os meses do ano, setembro também carrega uma causa que, embora silenciosa, ecoa em cada canto do país: a luta pelos direitos da comunidade surda. Conhecido como Setembro Azul, o mês é dedicado à visibilidade das pessoas com deficiência auditiva, resgatando sua história, suas conquistas e, sobretudo, apontando os obstáculos que ainda persistem — principalmente na esfera das políticas públicas.
Durante entrevista concedida à Rádio Circulando FM, a professora e especialista em Linguagens de Sinais, Jéssica Keka Rosso, lançou luz sobre as dores e vitórias de quem convive diariamente com a surdez no Brasil. Com experiência em educação inclusiva e defesa dos direitos da comunidade surda, Jéssica fez um alerta: “Muito se avançou, mas ainda falta o essencial — vontade política para transformar direitos em realidade”.
O mês de setembro é simbólico para a comunidade surda. Nele, comemora-se o Dia Nacional do Surdo (26/09), o Dia Internacional da Língua de Sinais (23/09) e, mais do que isso, reforça-se o orgulho de uma identidade linguística e cultural própria, que vai além da deficiência.
Segundo Jéssica, uma das maiores conquistas foi o reconhecimento da Libras (Língua Brasileira de Sinais) como meio legal de comunicação e expressão, por meio da Lei nº 10.436/2002, regulamentada pelo Decreto nº 5.626/2005.
“Esse foi um marco civilizatório. A Libras é a porta de entrada para a cidadania do surdo. Sem ela, não há acesso à educação, à saúde, à justiça”, explica.
Em Cambará, no norte do Paraná, a Câmara Municipal analisa um projeto de lei da vereadora Tania Lima que pode tornar o Setembro Azul parte do calendário oficial do município. A proposta, segundo Keka Rosso, visa desenvolver atividades voltadas ao tema e conscientizar a população sobre a realidade das pessoas surdas.
“É uma iniciativa importante porque coloca a pauta da inclusão em evidência, especialmente no âmbito local, onde as transformações podem ser mais rápidas e concretas”, destaca a especialista.
Apesar dos avanços e das boas iniciativas locais, Jéssica denuncia que a inclusão ainda é, em muitos casos, apenas formal. “O que temos é uma política de fachada. A lei existe, mas não é cumprida como deveria. Faltam profissionais qualificados, intérpretes, material didático adaptado, acessibilidade nos serviços públicos”, afirma.
A campanha Setembro Azul tem justamente o papel de dar visibilidade a essas questões e mobilizar a sociedade para além da empatia superficial. Para Jéssica, o mês precisa ser mais do que uma agenda simbólica: deve ser um ponto de partida para ações efetivas, tanto do poder público quanto da iniciativa privada.
“Não se trata de caridade, mas de justiça social. O surdo não quer ser tratado como coitado, mas como cidadão pleno. Ele quer acesso, participação, respeito à sua língua e cultura”, defende.
Setembro Azul, portanto, não é apenas um mês de celebração, mas de denúncia e resistência. É o momento de ouvir com atenção — e com os olhos — uma parcela significativa da população que, mesmo silenciada, não se cala.
Como sintetiza Jéssica Keka Rosso.
“A comunidade surda tem voz. Só precisa ser ouvida — ou melhor, compreendida. E isso começa por aprender a sua língua e respeitar o seu lugar no mundo”.
Rádio CirculandoFM