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Infraestrutura e burocracia atrasam Brasil, diz CEO da Mercedes

Carro elétrico já é realidade, mas não no Brasil

11/10/2017 10h46
Por: Carlos Roberto Francisquini
Infraestrutura e burocracia atrasam Brasil, diz CEO da Mercedes

UOL CARROS


 

 

Carros elétricos e autônomos serão o futuro da indústria, mas a mudança será gradual. No Brasil, que tem dificuldades de infraestrutura, isso deve ser mais complicado e demorado, diz Philipp Schiemer, presidente da Mercedes-Benz do Brasil e CEO América Latina. Leia abaixo o que ele fala sobre isso:


O carro elétrico já é uma realidade e vai ser o futuro. Mas não vai mudar do carro de combustão normal para o elétrico de hoje para amanhã. Essa transição vai demorar décadas


Mas, sem dúvida, o carro elétrico no futuro vai ter uma fatia maior no mercado global. Isso está claro e vai se desenvolver mais rápido nos países mais desenvolvidos e nos que apoiam esse tipo de tecnologia.


Há muitos países que dão subsídio para a compra desse produto e outro subsídio para infraestrutura, porque você precisa também de equipamentos para carregar o carro, e para isso precisa ter uma preparação. Nesses países, vai ser mais rápido do que em outros que deixam esses produtos sem apoio.


Uma questão dos veículos autônomos é a parte jurídica. Se acontecer alguma coisa, quem é o responsável? Há muitas coisas ainda a serem esclarecidas.


Acho que haverá algumas cidades que vão implementar isso em alguns trechos, não na cidade inteira, mas em alguns pontos bem supervisionados, em um futuro não mais tão demorado. Acho que nos próximos cinco anos vamos ver os primeiros pilotos maiores saindo. Mas, desse piloto até ter um volume maior, vai demorar.


No Brasil a dificuldade da infraestrutura pesa. Para isso você precisa de rodovias com sinalização boa, rodovias com condições de tráfego melhores. Vai demorar ainda mais.


A tecnologia que possibilita isso, os sensores, radares e coisas assim, já temos nos caminhões, utilizando-a de uma maneira ainda rudimentar, mas já temos isso.


Não é uma questão da tecnologia, é uma questão da infraestrutura aqui e de ter os fornecedores que possam produzir essas tecnologias com um custo aceitável.


É quase impossível. Eu diria impossível [produzir hoje um carro autônomo ou elétrico no Brasil hoje]


Difícil estipular prazos para uso em larga escala


Isso vai ser uma transição. É muito difícil de falar, estimar, quando isso vai acontecer. Na Alemanha se tem um objetivo de até 2020 vender um milhão de carros elétricos lá, mas hoje estamos ainda muito distantes deste target e, se continuar a situação atual, faltam três anos até lá, dificilmente se chega a esse número.


Mesmo assim o mercado de carro elétrico vai crescer, a indústria e a Mercedes estão investindo pesadamente neste segmento e haverá muito mais ofertas daqui para frente. Essa transição vai acontecer.


Sem dúvida, o carro compartilhado já é realidade em muitos mercados. A Mercedes foi uma das primeiras empresas que entrou neste negócio. Hoje já temos mais do que dez anos de experiência com a nossa empresa Car2Go, que faz carro compartilhado em muitos lugares do mundo.


É uma demanda que se criou principalmente para grandes centros, onde o pessoal não precisa de um carro próprio, quer compartilhar um carro ou alugá-lo por um curto espaço de tempo. Essa é uma alternativa principalmente para essas pessoas. Agora também não vai substituir em 100% o carro normal. É uma alternativa, sem dúvida.


O carro compartilhado é mais uma alternativa. Mais uma vez, vão surgir novas possibilidades para você andar de carro, a demanda é diferente. Às vezes, durante a semana, você não precisa de um carro grande, mas no fim de semana precisa de um carro maior. Então, vão ser encontradas novas formas de comprar carro ou de utilizar carro, sem dúvida.


A Mercedes está ciente de que nós vamos cada vez mais ser um provedor de serviços de mobilidade do que ser um simples produtor de automóveis. Vamos ter que ser um provedor de serviços de mobilidade, disso estamos cientes. Mas isso também não vai ser de hoje para amanhã, isso vai demorar algum tempo.

 

Impostos encarecem carros e deixam Brasil sem competitividade


Philipp Schiemer diz que os carros no Brasil são mais caros porque o país tem muitos custos financeiros, como impostos. Também afirma que as novas tecnologias demoram para serem produzidas aqui, o que prejudica a competitividade do produto nacional no exterior. Ele também nota que o brasileiro usa bastante a emoção na hora de comprar um veículo, e isso é levado em conta pelas empresas. Veja a seguir o que ele comenta sobre esses temas: 


Muitas vezes as pessoas reclamam do preço elevado dos produtos, mas a gente tem que perceber que esse preço elevado depende muito mais dos custos financeiros, como impostos, do que do custo realmente de fabricação interno. A indústria automobilística do Brasil não tem competitividade em termos de custo. Tem em qualidade, mas não em custo.


Outra coisa também que o Brasil está atrasado é em trazer novas tecnologias rapidamente aos produtos nacionais. Como essas novas tecnologias requerem um investimento muito elevado, e no Brasil não há esses fornecedores ou não tem o volume de produção para valer a pena, demora um tempo até que essas tecnologias cheguem aqui


Essas tecnologias se referem à direção autônoma e também a carros elétricos. Como não há uma base de fornecedores locais e como aqui o conteúdo local ainda tem que ser muito elevado, demora um tempo até que essas novas tecnologias sejam implementadas.


E isso tira a competitividade da produção brasileira lá fora. Como o consumidor lá fora quer essas novas tecnologias, e o produto brasileiro não oferece, a produção brasileira não tem mercado lá fora.


Brasileiro é ligado às tendências internacionais


Acho que o brasileiro é um consumidor bastante atento e ligado ao que está acontecendo no mundo. Não podemos oferecer produtos que não sejam atualizados. Isso o consumidor brasileiro jamais aceitaria.


Além disso, como o brasileiro gosta de design e de conforto no carro, ele nunca aceitaria um carro que não fosse atrativo no desenho ou teria um conforto que não combina com a marca. 


No Brasil, as coisas são mais complicadas às vezes do que outros países, devido às estradas e às condições daqui. O carro tem que aguentar mesmo assim. A Mercedes sempre olhou para isso, e logicamente os carros aguentam, mas é um desafio a mais. A infraestrutura ruim prejudica mais ainda o país, não prejudica o carro, prejudica o país porque ele não consegue se desenvolver como poderia, tendo uma infraestrutura melhor


Para o brasileiro, há muita emoção que faz parte do negócio. No Brasil, se você quer fazer negócio, tem que falar com a razão de um lado, mas não pode esquecer da emoção. Se você esquece a emoção, acho que não há chances no mercado aqui.

 

Fábrica da Mercedes não será fechada, diz presidente


A Mercedes-Benz não pretende fechar uma fábrica de automóveis de luxo inaugurado em 2016 em Iracemápolis (SP), disse o presidente da empresa, Philipp Schiemer, após essa notícia ter sido divulgada na imprensa. Neste trecho da entrevista, ele fala das dificuldades da crise econômica, subsídios para a indústria e fraude ambiental:


Nunca falei que a fábrica teria riscos de ser fechada no final do ano. Nós falamos que a fábrica foi construída com base em incentivos e, como esses incentivos acabam no final do ano, estamos agora verificando qual é a nova política que está sendo discutida dentro do Programa Rota 2030 junto com o governo. Com base nisso, vamos poder avaliar a competitividade da nossa fábrica.


A Mercedes investiu praticamente R$ 700 milhões nessa fábrica e não vai jogar este investimento fora. Não há nenhum plano de

fechar a fábrica, nunca teve. Mas logicamente estamos preocupados com a competitividade e estamos discutindo isso e vamos avaliar depois, quando sair a nova legislação, quais as consequências que isso possa ter. Agora, fechamento nunca foi discutido


A questão se refere também a muitas outras montadoras. Por isso está sendo discutida em conjunto com o governo. Acho que o governo tem toda a atenção e entendeu. E temos a certeza de que vamos achar uma solução.


Não é subsídio, é manter a competitividade


Não estamos falando sobre subsídios. Estamos falando sobre qual é a forma de manter as nossas fábricas competitivas. Isso é uma questão que hoje é unanimidade, ninguém quer o fechamento do mercado, toda a indústria procura uma abertura do mercado, procura que a indústria se torne competitiva.


Para 2017, as perspectivas são mornas. A gente teve um ano de 2016 de dificuldade, e a situação não melhorou muito por enquanto.


Vemos alguns indícios de certa melhora no clima, mas depende muito da estabilidade política e, como todo mundo sabe, isso está com altos e baixos. Precisamos de uma estabilidade política também para a economia avançar mais


Mesmo assim, com a nova equipe econômica, vemos uma nova perspectiva para um futuro melhor, sem perceber isso ainda na prática. O clima em geral, eu diria, melhorou em relação ao ano passado.


Temos plano de investir R$ 1,5 bilhão e vamos continuar com ele


Sobre os nossos investimentos, a Mercedes é uma empresa que pensa a longo prazo, não pensa a curto prazo, está no Brasil faz 60 anos. Nem na pior crise mudamos os nossos planos de investimento. Temos um plano de investimento até 2018 em torno de R$ 1,5 bilhão, que vamos colocar neste país e continuar com esse plano.


O Brasil é um mercado que tem crescido para nós nos últimos anos e, por isso, nós montamos aqui a nossa fábrica, em Iracemápolis.


O brasileiro quer inovação e as mais modernas tecnologias dentro de seus produtos. Então, todos esses sistemas de assistência que ajudam o motorista, o dirigir autônomo, são coisas de que o brasileiro gosta. Também gosta das "brincadeiras", do novo design, diferente, moderno e atrativo. É isso que agrada o brasileiro. E logicamente o dirigir esportivo é também uma coisa que atrai.

Fraude ambiental prejudica toda a indústria


Um episódio desses [fraude ambiental nos carros a diesel] tira certa credibilidade de toda a indústria, mesmo se uma empresa ou outra não tenha sido diretamente afetada. Mas isso tirou um pouco da credibilidade do motor a diesel para veículos de passageiros. A gente sentiu.


Isso é um problema muito menor para os EUA, onde esse mercado de veículos a diesel é muito pequeno, mas é um pouco maior para a Europa, onde o produto a diesel era uma parcela muito importante para a venda de toda a indústria. Sem dúvida, houve um aspecto de perda de credibilidade e vai ser um desafio para recuperar isso 100%.


Acho que também vamos ter um avanço mais rápido das novas tecnologias, carro elétrico, haverá uma alavanca para aumentar as vendas neste setor, mesmo sabendo que às vezes a comparação entre um e outro não é 100% justo –fala-se facilmente que o carro elétrico é a tecnologia mais limpa, mas ela só é mais limpa em algumas situações.


Se a energia elétrica vem de uma fábrica que trabalha com carvão, acho que o balanço, no final, não é melhor. Um carro elétrico é bom quando ele está sendo suprido por energia limpa. Mas o processo não é tão simples assim. Sem dúvida é um problema para toda a indústria automobilística que o diesel perdeu em alguns segmentos em credibilidade.

A Mercedes-Benz é assim

Início da operação no Brasil

1956

Funcionários diretos no Brasil

Cerca de 9.600. No mundo, o grupo Daimler, que detém dentre outras marcas além da Mercedes-Benz, emprega cerca de 285 mil pessoas em mais de 150 países

Fábricas no Brasil

Fábrica de caminhões, chassis de ônibus e agregados (motor, câmbio e eixo) em São Bernardo do Campo (SP); Centro de Desenvolvimento Tecnológico em São Bernardo (referência mundial em chassis de ônibus); fábrica de cabines e de caminhões de Juiz de Fora (MG); fábrica de automóveis em Iracemápolis (SP)

Faturamento em 2016 no Brasil

Receita bruta acima de R$ 5 bilhões

Outros dados

Investimentos no Brasil: R$ 1,5 bilhão de 2015 a 2018; é a única Empresa a produzir na América Latina todos os segmentos de veículos: automóveis, comerciais leves, caminhões e chassis de ônibus; é a maior fabricante e exportadora de caminhões e ônibus da América Latina; em 60 anos de Brasil, empregou mais de 100 mil pessoas diretos e mais de 500 mil indiretos (funcionários de concessionários e da cadeia de produção)

 

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