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Tem quem goste. Mas o horário de verão pode prejudicar a saúde e o trabalho

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini
13/10/2017 às 17h15 Atualizada em 13/10/2017 às 17h18
Tem quem goste. Mas o horário de verão pode prejudicar a saúde e o trabalho

 

 Uol


 

Ele causa desconforto para a maioria das pessoas, podendo prejudicar a saúde, o rendimento no trabalho e nos estudos e levar a acidentes. Foi considerado ineficaz para gerar economia no setor elétrico, seu principal objetivo, e o governo cogitou descartá-lo esse ano. Mesmo assim, mais um horário de verão vem aí. Os relógios deverão ser adiantados em uma hora à meia-noite deste domingo (15).


"Todo mundo vai sentir certo desconforto nos primeiros dias", diz Cláudia Moreno, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP (Universidade de São Paulo) e da Universidade de Estocolmo. Mesmo quem gosta do horário de verão deverá sentir algum efeito, como se tivesse viajado para um lugar com diferente fuso-horário.


Isso ocorre porque temos dois relógios. Um é o biológico, ligado ao ritmo das secreções hormonais e do funcionamento dos órgãos do nosso corpo. O outro, o social, que marca a hora de entrar no trabalho, na faculdade ou escola. Nosso relógio biológico está sincronizado com o ambiente, o dia e a noite. Obedecer o horário social depende de adaptação do organismo, que varia de pessoa para pessoa. E quando esse horário muda, cria-se um descompasso que exige nova adaptação.


"Toda vez que muda o horário externo, o corpo precisa ajustar o horário de dormir e de acordar, a secreção de melatonina [que dá sono] e de cortisol [que desperta]", diz Fernando Louzada, professor de neurociência da UFPR (Universidade Federal do Paraná).


A entrada do horário de verão reduz o nosso relógio social em uma hora. Nosso ritmo biológico é de um pouco mais de 24 horas. Isso tem um efeito no organismo humano Cláudia Moreno, pesquisadora da USP


A adaptação ocorre, claro. "Nosso sistema nervoso é plástico. É o que nos permite viajar e se adaptar à variação temporal", diz a pesquisadora. O problema é que há pessoas que têm dificuldade muito maior de se adaptar. Um estudo feito com mais de 12 mil pessoas, publicado na revista Annals of Human Biology, mostra que a maioria (54,57%) relata desconforto com o horário de verão. E cerca de 25% dizem sofrer desconforto durante todo o período em que o relógio adiantado fica em vigor.


Quem mais sofre são as pessoas vespertinas, que gostam de ir dormir mais tarde e possuem dificuldade natural para acordar cedo. Quem tem flexibilidade para acordar mais tarde, pode se adaptar melhor. "O sofrimento é maior para quem bate cartão", diz Louzada.


Os vespertinos muitas vezes já estão no limite para ajustar o horário de acordar, dormindo menos do que gostariam. Com o horário de verão, vão ter que dormir ainda menos Fernando Louzada, pesquisador da UFPR


A desarmonia entre o horário do corpo e o do despertador pode causar consequências graves, dizem os especialistas. Sonolência e a privação de sono são apontadas como causas de acidentes de trânsito e de trabalho. As mudanças nos horários das refeições levam a alterações gastrointestinais. E mudanças no humor elevam as chances de brigas com o chefe e de conflitos familiares.


Dificuldade para acordar cedo não é só preguiça, é genética


Não é preguiça ou mau hábito. Preferir acordar tarde pode ser uma característica pessoal determinada pelos nossos genes. A descoberta de mecanismos moleculares por trás dos ritmos circadianos e dos genes que regulam o relógio biológico rendeu o Nobel de Medicina deste ano para pesquisadores dos EUA.


As pessoas têm diferenças genéticas. Não é simples dizer para alguém 'agora você vai acordar mais cedo porque precisa Fernando Louzada, pesquisador da UFPR


Para o pesquisador, conhecemos o perfil de sono de uma pessoa nas férias. "Uma coisa é o que a pessoa faz e outra é o que gostaria de fazer. Uma pessoa matutina acorda às 6h, 7h mesmo nas férias. A vespertina vai dormir às 5h, 6h da manhã e acordar depois do meio-dia".


A maioria das pessoas possui um período de sono intermediário, dormindo mais ou menos entre as 22h e às 6h. E uma minoria tem relógios biológicos mais extremos, que levam a dormir e acordar muito cedo ou muito tarde. A quantidade de sono necessária para cada pessoa também varia. Quem está no limite da adaptação ao relógio social dá sinais disso nos finais de semana. "É quem acorda meio-dia, uma hora, dorme muito, tentando compensar", diz.


Adolescentes e mulheres sofrem mais


De acordo com a pesquisa da Annals of Human Biology, adolescentes vespertinos e mulheres relataram mais desconfortos com o horário de verão. "Na adolescência, a criança matutina fica um pouco menos matutina. Já a vespertina fica mais vespertina ainda", explica Louzada. É a que sofre para acordar cedo, chega atrasada na escola, fica mal-humorada, o que pode ter reflexo na atenção e no desempenho acadêmico.


Para o especialista, a maior dificuldade de adaptação das mulheres ao horário de verão pode estar ligada a aspectos da desigualdade de gênero, com a dupla jornada de trabalho ligada às tarefas domésticas e a uma menor flexibilidade para negociar horários no emprego.


Cuidar da claridade e dormir mais cedo ajuda adaptação


Não basta adiantar o relógio no domingo para adaptar a vida ao novo horário. É o nosso cérebro, de acordo com a claridade, que sinaliza para o resto do corpo o ritmo do dia e da noite. É possível ajudar o cérebro a realizar esse ajuste criando claridade ao acordar -- ligando a luz ou abrindo a janela -- e escurinho para dormir. "Temos nos olhos fotorreceptores que reconhecem a iluminação e passam informação para o cérebro, que regula o organismo", explica Moreno.


Uma sugestão é ir dormir mais cedo nos dias que antecedem o horário de verão, para se preparar melhor ao novo horário de trabalho na segunda. E respeitar a necessidade de sono Cláudia Moreno, pesquisadora da USP


Mas controlar esse ajuste não é nada fácil. "Se costumo acordar às 6h, com o horário de verão vai estar escuro. E se sou vespertino, meu cérebro vai querer aproveitar essa hora a mais de luz no começo da noite", diz Louzada.


De acordo com ele, o ideal seria ter uma flexibilidade de horários e maior respeito ao ritmo de cada um. "Por que não mais tolerância com atrasos?", defende. Para Moreno, a relação custo-benefício do horário de verão não é boa. "Quem acorda mais cedo acende a luz de manhã, o argumento de economia de energia é frouxo. E prejudica as pessoas", diz.


Segundo especialistas, o horário de verão já não tem mais tanta eficácia na economia de energia no Brasil. No ano passado, a mudança gerou uma economia de R$ 159,5 milhões por causa da redução do uso das usinas termelétricas durante o período de vigência da medida. O valor é considerado irrelevante para o setor elétrico. A ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) mostra que o uso de ar-condicionado devido ao calor é o que mais pesa no consumo de eletricidade.

 

O consolo é que as coisas são mais fáceis quando o horário de verão acaba. "Quando termina o horário de verão, e ganhamos uma hora, fica mais fácil o ajuste. O dia com 25 horas fica mais próximo do nosso ritmo endógeno", explica a pesquisadora. 

 

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