
Por Carlos Roberto Francisquini
Há músicas que envelhecem. E há músicas que simplesmente não aceitam envelhecer.
Foi nesse território, entre guitarras, amplificadores e memórias de outras décadas, que a Banda Sociedade Anônima, de Cambará, voltou ao palco neste domingo durante o 11º Encontro de Carros Antigos de Cambará. Entre automóveis que carregam histórias próprias, a banda colocou o rock novamente em circulação — aquele rock feito para ser ouvido alto, cantado junto e reconhecido já nos primeiros acordes.
À frente do grupo, Leandro Moreira, vocalista e líder da S/A, mais uma vez deixou evidente a relação visceral que mantém com o repertório que escolheu interpretar. No palco, não se trata apenas de executar canções conhecidas. Moreira mergulha nos clássicos e devolve ao público uma interpretação marcada pela presença, pela voz e pela energia de quem conhece o peso de cada canção.
Além de Leandro Moreira nos vocais, o quarteto é formado por Kleber Cordeiro, na guitarra; Felipe Destefani, na bateria; e Lucas Marins, no baixo.
A apresentação foi uma das atrações do encontro e dialogou diretamente com a atmosfera do evento. De um lado, carros antigos, representantes de diferentes épocas da indústria automobilística. Do outro, o rock que nasceu, cresceu e atravessou essas mesmas décadas sem perder sua capacidade de provocar reação.
A Sociedade Anônima aposta em um repertório que passa por grandes nomes e clássicos do rock. São canções lançadas muito antes de parte do público presente nascer, mas que continuam reconhecíveis — e, principalmente, continuam funcionando quando executadas ao vivo.
É justamente aí que está uma das forças da banda.
Em tempos de playlists instantâneas, músicas produzidas para disputar poucos minutos da atenção do público e sucessos que desaparecem tão rapidamente quanto surgem, a Sociedade Anônima trabalha com outra lógica: a permanência.
O bom e velho rock and roll.
A guitarra, o baixo, a bateria e a voz formam uma espécie de máquina do tempo. Não para reproduzir o passado como peça de museu, mas para mostrar que determinadas músicas continuam tendo lugar no presente.
Se a banda é o instrumento, Leandro Moreira é uma de suas principais vozes.
Vocalista e líder da Sociedade Anônima, ele conduz as apresentações com a experiência de quem não precisa transformar o palco em espetáculo artificial. A energia aparece na interpretação, na escolha das músicas e na maneira como estabelece conexão com quem está diante dele.
No Encontro de Carros Antigos, essa característica voltou a aparecer.
Enquanto o público circulava pelo espaço, fotografava os veículos, reencontrava amigos e acompanhava a programação, a Sociedade Anônima criava sua própria paisagem sonora. E, quando os primeiros acordes dos clássicos surgiam, a distância entre gerações diminuía.
É uma das particularidades do rock: uma música gravada há décadas pode encontrar alguém que sequer havia nascido quando ela foi lançada — e ainda assim fazer sentido.
O passado continua tocando
O encontro de carros antigos talvez seja um dos ambientes mais naturais para uma banda como a Sociedade Anônima.
Os veículos expostos representam uma época em que desenho, mecânica e personalidade mantinham outra relação com a cultura. O rock que a banda leva ao palco pertence ao mesmo universo simbólico.
São máquinas diferentes, mas movidas pela mesma ideia: preservar aquilo que o tempo não conseguiu apagar.
E Leandro Moreira, ao microfone, e seus comparsas Kleber, Gonha e Felipe Destefani parece saber exatamente o que tem nas mãos: um repertório que não depende de novidade para continuar relevante.
No palco, os clássicos voltam a respirar.
E, em Cambará, o rock continua fazendo barulho.