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Preço do trigo já subiu quase 70%, mas agricultores ainda não ganharam nada

Aumento histórico de preço, impulsionado pela greve dos caminhoneiros e aquecimento da demanda mundial, pode não se sustentar até a entrada da próxima safra

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19/07/2018 às 13h40 Atualizada em 19/07/2018 às 13h45
Preço do trigo já subiu quase 70%, mas agricultores ainda não ganharam nada

 

Gazeta do Povo

 


 

 

A cotação da saca de 60 kg de trigo no Paraná disparou quase 70% desde o início do ano, saindo de um patamar de R$ 600,00 em janeiro para mais R$ 1.000,00 em julho, segundo o acompanhamento mensal de preços do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA/Esalq).

 

O grande salto na cotação aconteceu entre maio e junho, durante a greve dos caminhoneiros, e está relacionado também à incerteza quanto às políticas de tabelamento de fretes, além de refletir uma menor oferta de trigo no mercado mundial decorrente de perdas climáticas em grandes países produtores como Ucrânia, Rússia e Austrália.

 

A alta vem sendo repassada quase imediatamente aos preços de pães, massas e biscoitos.

 

“Essa transmissão da matéria-prima para o consumidor é muito rápida e já se reflete nos índices de inflação, mesmo que os moinhos estejam estocados com produto colhido anteriormente”, observa Lucílio Alves, pesquisador de trigo do CEPEA.

 

Para os agricultores, no entanto, ainda não é hora de achar que o trigo finalmente dará lucro, deixando de ser pouco mais do que uma cobertura de inverno para preparar o solo para a safra de verão.

 

“O trigo é uma cultura de alto risco e de oscilações muito fortes de preços.

 

É comum as cotações subirem na entressafra para depois caírem bastante na colheita. Em vários anos isso aconteceu”, adverte Alves.

Pé atrás

 

A prudência também está no discurso do agricultor Eduardo Medeiros, que cultiva 400 hectares de trigo em Castro, nos Campos Gerais do Paraná.

 

“Esse preço atual é surpreendente, mas é duro acreditar que vá seguir assim até o final da colheita, lá por outubro e novembro. A gente sempre fica com um pé atrás.

 

Em toda lavoura, tem anos ruins e anos bons, mas, no trigo, geralmente, é mais ruim do que bom”, diz Medeiros.

 

Para grande parte dos produtores, o trigo é uma lavoura complementar, importante para deixar o solo pronto para a cultura de verão seguinte, mas que não rende como a soja, que cobre todos os custos fixos e variáveis de produção e remunera o produtor.

 

“Se tirar o custo variável com o trigo, já é um sucesso”, assegura Medeiros.

 

Por ser uma cultura muito sujeita a altos e baixos o trigo não tem negociação de contratos futuros ou venda antecipada.

 

“A gente tanto pode ter uma safra muito boa quanto algum fator climático pode prejudicar a colheita. Se houver geada ou chuva intensa na fase final do ciclo, há muitas perdas.

 

Por isso quase todo mundo que planta trigo faz seguro”, comenta Lucílio Alves.

 

O economista do CEPEA lembra que a cotação atual, acima de R$ 1.000,00 a tonelada, é apenas nominal, e não beneficia os agricultores, que venderam o trigo no final do ano passado ou início deste ano.

 

“As negociações hoje estão no mercado de atacado, das cooperativas para os moinhos e com a importação do produto”.

 

Neste ciclo, os paranaenses aumentaram a área cultivada com trigo para 1 milhão de hectares, tomando espaço do milho safrinha.

 

Isso ocorreu, em grande parte, devido ao atraso no ciclo da última safra de verão, que estreitou a janela para plantar o milho 2ª safra em algumas regiões.

Estiagem

 

A arrancada do trigo, contudo, não tem sido boa, pela falta de chuva no Paraná. Segundo o boletim do Departamento de Economia Rural da Secretaria de Agricultura, de 17/07, o índice de lavouras consideradas “ruins” subiu de 3% para 5% em apenas uma semana.

 

Cerca de 85% das plantações ainda estão em fase de desenvolvimento vegetativo, o que mantém boas chances de recuperação do estresse hídrico.

 

O Paraná deve colher nesta safra 3,36 milhões de toneladas, respondendo por mais de 60% da produção nacional.

 

Mesmo assim, o Brasil deverá importar pelo menos 6 milhões de toneladas, mais de metade da necessidade de consumo.

 

O grande fornecedor é a Argentina, que produziu no último ciclo um recorde de 17 milhões de toneladas, contra um consumo interno de 5 milhões de toneladas.

 

“A tendência é que o produtor seja bem remunerado, mas a estiagem, que já dura 35 dias, vai pressionar a qualidade do grão das primeiras colheitas em setembro.

 

O trigo está precisando de chuva”, enfatiza Daniel Kümmel, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo no Paraná.

 

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