
Ana Carolina Barreiros Casquel Boriollo
Uma das regras fundamentais para quem tem filhos é: Mentir nunca! Nem mentironas, nem mentirinhas para não magoar, para não haver brigas, para protegê-los, para convencê-los a comer aquele legume refogado ou para fazê-lo ficar por perto. Iludir uma criança, por qualquer motivo que seja, é criar nela mecanismos que serão destrutivos, ao longo de sua vida.
Até mesmo quando o assunto é de adulto, que os pequenos não precisam saber, ou nos momentos difíceis que os pais gostariam de manter os filhos longe, sempre vale a verdade. É somente de cara limpa que se pode merecer a confiança deles, e mesmo quando cometemos um erro devemos assumir e nos desculpar. É importante que as crianças saibam que todos cometemos erros e ainda assim tudo pode ficar bem.
Pode parecer simples e indolor um: “mamãe já volta”, para anestesiar a saudade dos filhos quando a mãe ou o pai estão viajando, mas também trata se de uma mentira como todas as outras. Como também é uma enganação dizer que vão passear e, de repente, parar num posto médico para tomar uma vacina, “que não vai doer nada”. Não menos traiçoeiro é explicar que o adorado vovô está doente e não pode receber visitas, quando na verdade ele já morreu. Ou falar “coma toda a comida se não você não irá crescer”. Tudo isso serve para evitar que eles sofram, coitadinhos, para fazê-los ter atitudes boas, saudáveis para seu próprio bem. Mas o resultado disso não é bom.
Eles sofrem bem mais com a decepção e quebra de confiança de ver os adultos mentindo, afinal de contas, os pequenos não são bobos. São espertos para captar nuances que mostram algo obscuro nos atos e palavras dos pais, avós, professores, tios, etc. Precisam suportar o choque entre a realidade e ilusão, com a confirmação de que estavam sendo enganados. Inventar desculpas para aliviar o sofrimento das crianças é privá-las de enfrentar uma frustração ou uma dor natural, que serve para fortalece-las.
Essas mentirinhas podem fazer com que eles tenham um sério medo de passar por novas decepções, um medo que torna difícil construir sua noção de realidade, que os deixa mais inseguros para encarar a vida. Podem preferir um refúgio nas suas fantasias e no seu próprio mundo, de difícil acesso para os outros. Ou podem também acreditar que a mentira é um bom instrumento para conseguir o que querem e assim terão bons motivos para usá-las quando achar conveniente.
Na realidade, as mentirinhas servem para aliviar os adultos e não para beneficiar as crianças, pois elas são criadas naqueles momentos difíceis, onde é necessário se impor, dar limites, ou não falar sobre assuntos delicados e dolorosos.
Quando os pequenos fazem perguntas desconcertantes ou perguntas que os pais não sabem responder, ninguém precisa mentir, basta dizer que não sabe a resposta e vai procurar saber ou “isso é assunto de adulto e você não pode participar”. Isso é tratar a criança com respeito, e quando são tratados com respeito, também irão saber respeitar.
Dizer a verdade sempre, não importa qual seja, é fortalecer as crianças para que entrem firmes no mundo. A mentira serve apenas para amedrontar e obscurecer. A única imagem não real que pode enriquecer os pequenos é a fantasia, pois ela não oculta a realidade, ela apenas ajuda a revelá-la.
Ana Carolina Barreiros Casquel Boriollo
Psicóloga CRP 08/07384