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A FERIDA E A CURA DOS HOMENS

O mito demonstra que os homens sofrem da violência, da corrupção pelo poder e são influenciados pelo medo de outros homens

23/03/2021 15h58
Por: Nathália Bonhole Fonte: Jorge Miklos
Jorge Miklos, analista Junguiano e Sociólogo. Graduado em História e Ciências Sociais. Especialista em Psicologia Analítica.
Jorge Miklos, analista Junguiano e Sociólogo. Graduado em História e Ciências Sociais. Especialista em Psicologia Analítica.

 

A Psicologia Analítica fundada pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung (1875-1961) procurou desvendar os aspectos mais significativos da natureza e as motivações da masculinidade, tanto consciente quanto inconsciente, e explica como isso afetou e afeta o desenvolvimento da personalidade subjetiva e social, desafiando-nos a reexaminar nossa compreensão contemporânea da masculinidade.

O analista junguiano James Hollis, em seu livro Sob a Sombra de Saturno, trouxe com profundidade uma abordagem acerca da dimensão psicológica e cultural da masculinidade. O título faz menção a Saturno, divindade pagã perversa que devorava seus filhos para impedi-los de usurpar seu poder. O mito demonstra que os homens sofrem da violência, da corrupção pelo poder e são influenciados pelo medo de outros homens.

O livro focaliza feridas masculinas que regem muitos comportamentos, apesar de ocultas e de não reveladas pelos homens, cujo silêncio é imposto pela cultura patriarcal. Saturno está presente de várias maneiras no cotidiano dos homens. Questões relacionadas à corrupção do poder, do medo, humilhação e desvalorização causam feridas profundas.

Hollis assevera que os homens carregam milenarmente oito segredos em seu coração.
O primeiro pontua que "A vida dos homens é tão governada por expectativas restritivas com relação ao papel que devem desempenhar quanto a vida das mulheres".

Pode-se fazer um paralelo ao mito de Procusto. Procusto é um personagem da mitologia grega. Os viajantes que iam de Mégara a Atenas eram forçados a se deitar em seu leito de ferro. Se fossem menores, Procusto esticava suas pernas. Se fossem maiores, eram esquartejados para se ajustar ao tamanho do leito. O nome Procusto significa "o esticador", em referência à punição que aplicava às suas vítimas.

O leito de Procusto é a metáfora para a performance exigida aos homens pela cultura machista. Para adaptarem-se ao padrão social, muitos homens precisam amputar aspectos significativos do seu ser ou estender aspectos estranhos para corresponder às expectativas do machismo cultural. A condição procrusteana imputa muito sofrimento aos homens, prisioneiros do patriarcado machista.

O leito de Procusto é a normalidade prescrita pela cultura patriarcal. "Ser 'normal' é alvo ideal do fracassado", escreveu o psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Performar-se aos estereótipos é, geralmente, processo torturante para o homem cujo padrão arquetípico desvia-se da subjetividade.

Educar os homens para a normalidade do machismo representa para muitos deles um pesadelo, pois a necessidade mais profunda de muitos homens é, na verdade, poder levar uma vida distante dessa normopatia.
Jorge Miklos, analista Junguiano e Sociólogo. Graduado em História e Ciências Sociais. Especialista em Psicologia Analítica. Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Comunicação Social. Coordena uma pesquisa sobre as masculinidades contemporâneas. Professor Titular no Programa de Pós-graduação em Comunicação e Cultura da Universidade Paulista.
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