

Cambará
C.Roberto Francisquini
Eriel Barreiros é filho de Cambará, nascido no final da década de 1950. Filho de Alayde Papa Barreiros e Paulo Barreiros - ela, professora de piano; ele, advogado. Estudou nos Colégios Dr. Generoso Marques e Professor Sílvio Tavares (na época, chamava-se Colégio Estadual de Cambará), quando se mudou para Curitiba. Lá, finalizando o segundo grau, cursou três anos de Engenharia Cartográfica e um ano de Ciências Econômicas, ambas na UFPR. Regressando a Cambará na década de 1980, ingressou no curso de Direito, em Jacarezinho, na Fundação Faculdade de Direito do Norte Pioneiro, transferindo os estudos novamente para Curitiba, onde se formou pela Faculdade de Direito de Curitiba.
Seu primeiro emprego foi em Contagem, MG, como fiscal de caixa em hipermercado; depois, na mesma empresa, foi operador de computador. De lá para cá, ainda exerceu diversas atividades profissionais: programador de computador, garçom, vendedor, professor, funcionário público federal, agricultor e advogado.
Retornando a Cambará, em 1998, esteve engajado em trabalhos junto ao Sindicato Rural, Ordem dos Advogados do Brasil, diretoria da Santa Casa de Misericórdia, Centro de Integração Empresa-Escola, Juiz Leigo no Juizado Especial Cível, palestrante, conselheiro em colégios e creche, etc. Hoje, dedica-se profissionalmente à agricultura e à advocacia, que dividem tempo com atividades de cunho social e cultural: ainda como diretor-secretário da Santa Casa e conselheiro do Lar Alice, mais a presidência do Conselho de Execução Penal, teatro, esportes, escrita e projetos sociais que promove de forma particular a pequenos grupos (gincanas esportivas e culturais e torneios esportivos).
Joga habitualmente futebol e vôlei. Ainda toca um pouco de violão, acordeão e piano ("aprendido por osmose", segundo ele, por ter sido sua mãe professora desse instrumento). Dispõe-se a apitar jogos de futebol, tendo feito curso para adequar a essa "às vezes árdua missão". Relembra idiomas cursados (inglês e francês), cita histórias de seu livro, publicado em 2009 ("Contos e Outras Coisas de Eribar"), e busca continuar a gostosa prática de encenações teatrais.
Acompanhe os principais trechos da entrevista.
Roberto Francisquini: Defina a arte de representar.
Eriel Barreiros: Para mim, que não me enveredei pelo aprendizado técnico da matéria, resume-se em fazer aquilo a que gostaria de assistir. Dentro disso, não abro mão de manter uma linha que chamo de "teatro familiar" - aquele a que você pode assistir com seu filho e sua avó, sem apelações desnecessárias.
RF: O que você sente quando esta prestes a entrar em cena?
EB: (riso) Sinto-me em casa! Nunca tive medo, pelo contrário. Quando viro meu personagem, não sou mais o Eriel, sou aquele cara que está lá no palco. É muito bom!
RF: Quando descobriu que tinha o dom de representar?
EB: Primeiro, agradeço dizer que tenho esse dom (riso)! Mas é coisa muito anterior à minha experiência com palco. Desde a primeira faculdade, as apresentações de trabalhos em grupo fazíamos de forma lúdica, teatral, pois penso ser a melhor maneira de os espectadores se manterem atentos e captarem melhor as mensagens. Mesmo hoje em dia, em outras atividades, busco jogar um pouco de teatralidade nas coisas (palestras, apresentações, etc.).
RF: Fale sobre sua primeira experiência no teatro.
EB: Pensando como encenação em palco, foi em 1994, em Curitiba, quando a escola de francês de que eu tinha sido aluno realizou uma apresentação e me convidaram exclusivamente para tocar "O Bife" nos momentos de abertura e fechamento da cortina - a peça em si era encenada por alunos da escola e eu, em verdade, nem era parte do roteiro, só estava ali por decisão do diretor, já que no palco que conseguiram havia um piano num canto. Bem... ao final das apresentações, o público me cumprimentava primeiro, achando que eu era um dos atores principais! Foi muito interessante. Detalhe: eu não podia interferir de forma alguma na peça nem fazer barulho (salvo tocar "O Bife"). Mesmo assim, consegui vivenciar incontáveis experiências mudas com meu piano!
RF: Seus personagens são cômicos, pelo menos os mais conhecidos. Isto é uma escolha pessoal? Por quê?
EB: Força das circunstâncias. O público, por ora, ainda prefere comédia. Mas já fiz algo perto de drama, inclusive com choro real no palco. Havendo hora e lugar, estou disposto a encenar personagens não cômicos. Essa oportunidade vai chegar, claro, mas depende do interesse da plateia, também.
RF: Fale sobre seus personagens: (breve histórico de cada um deles)
EB: Já falei do pianista improvisado. Depois dele, em 1996, numa comédia em Curitiba, fiz o Sr. Doentino, que era um cidadão neurótico e hipocondríaco que tinha dois amores na vida: sua esposa e seu médico, que eram as pessoas que cuidavam dele. No final, a esposa e o médico fogem juntos e o deixam só.
Veio, então, em 2008, o Camelau, que parece ter caído nas graças deste meu interrogador, provavelmente pelo sotaque paulistano que tinha. Na peça de Maria Lea Fragate, no Pro-Cuca, ele era um homem insatisfeito com a vida que levava e com a esposa que tinha.
Em 2009, no texto de Railthon Fávaro ("O Testamento de Um Morto"), eu era o Sr. Rodolfo Cifrão Silva, que encarnava um político safado e corrupto, ávido por ficar com toda a herança deixada pelo falecido tio.
Em 2010, fui um dos palhaços narradores de "A Revolta dos Perus", além de também fazer o papel do Bispo.
Em 2011, nosso grupo particular apresentou "O Casamento de Maria Feia", texto do baiano Rutinaldo, em que representei o Zé das Baratas, caboclo que tinha por profissão exterminar baratas e era bobo até! Também promovemos para as escolas "A mudança de Genésio" (eu era o Genésio, um senhor que morava no meio do lixo e aprendeu a reciclá-lo, mudando sua vida para melhor).
Em 2012, além de reprisar "A Revolta dos Perus", apresentamos "Nos Tempos da Brilhantina", texto também do Railthon. Eu era o boyzinho da turma, metido a conquistador e cheio de tiques.
Nesse meio tempo, pude vivenciar fugazmente o Visconde de Sabugosa, tanto na inauguração da Indústria do Conhecimento como na Expocia, e o Carlitos (de Chaplin), em pequena peça bolada pelo Railthon, que promovia a reciclagem de lixo.
RF: Como os criou?
EB: Numa primeira leitura do texto, eu já vou tendo uma ideia de como será o meu personagem. Raramente altero suas características. Acho que é instintivo. Se me sinto bem interpretando-o da forma inicialmente tentada, daí não mudo mais, mesmo!
RF: Existe algum personagem que considere especial?
EB: Sinto-me muito à vontade fazendo personagens caipiras. O Zé das Baratas eu interpretei assim e foi um dos que mais gostei. Justamente por isso, ao lado dele, o Genésio, pois finalmente matei minha vontade de (tentar) imitar um dos meus ídolos, o Mazzaropi. Mas até agora sempre gostei de todos os que representei. Torço para que o público que nos viu também tenha tido o mesmo sentimento (riso)!
RF: Você é torcedor do São Paulo Futebol Clube, certo? Como foi vestir a camisa do Corinthians para representar o personagem Camelau?
EB: Ai, que saia justa, hem?! Mas a resposta vai para o Ricardo, que foi quem mais me zoou quando viu a foto da peça no Circulando: eu tinha que mostrar que o Camelau era uma pessoa ridícula, então, pensei daqui, pensei dali... e concluí: vai ser corintiano! E o sotaque de que você tanto gosta, Roberto, veio de outro corintiano, meu primo Dr. Júnior (riso)! Obrigado, primão!
RF: Com o grupo Coisa e Tal, você apresentou diversas peças. Como está o projeto?
EB: O Grupo Coisa e Tal, formado por mim, Railthon Fávaro, Maria Lourenço e Helena Cara, por enquanto está parado, por motivos de ordem profissional dos seus integrantes. Não encontramos mais tempo para realizar os projetos sonhados. Foram bons momentos!
RF: ProCuca. Conte-nos como foi à experiência de fazer parte deste projeto?
EB: Excelente, claro! Seja sob a regência de qualquer das pessoas que estiveram à frente do projeto, só me trouxe alegrias e amigos. Aprendi muito, gostei demais! Agora, estamos esperando as novidades que virão, para que possamos nos engajar novamente, pelo menos na parte de teatro, que é a de que mais gosto, embora lá também eu tenha feito dança de salão, canto, trompete, etc.
RF: Com a mudança de governo, o ProCuca ainda está engatinhando. Como você avalia isto?
EB: No meu ponto de vista está caminhando no tempo certo, pois não sou do tipo imediatista. Sei que leva tempo para achar as coisas e as pessoas ideais para desenvolverem as diversas atividades que estarão à disposição da população. Hoje, sob o comando da Maria Neusa, continua em excelentes mãos, é uma ótima pessoa! Lá eu continuo me sentindo em casa, como sempre foi, e tenho como amigos todos os que trabalham no projeto. Aproveito para pedir aos concidadãos a paciência necessária, pois o projeto está caminhando e logo, tenho certeza, estará proporcionando muita coisa boa para Cambará. Na parte de teatro, já neste mês de maio, haverá apresentações de peças trazidas pelo Sesi.
RF: A maioria das pessoas sabe que você é um advogado atuante em Cambará. Em algum momento pensou que o fato de estar num palco fazendo as pessoas rirem pudesse atrapalhar sua carreira profissional?
EB: Quem não me conhece não vai perceber que um é um e outro é outro (que linda frase!). E quem já me conhece sabe que são pessoas diferentes. Minhas atividades de sobrevivência do corpo (advocacia e agricultura) eu procuro exercer com o profissionalismo e a dedicação necessárias. E minhas atividades que alimentam o espírito (sociais e culturais), também têm de mim o meu máximo. Não se misturam. Vivo de ambas as espécies e devo acrescer que só me têm dado satisfação.
RF: Já foi questionado a respeito?
EB: Sim, já me fizeram tal pergunta. E foi essa a resposta dada. Os fatos, depois, mostram que uma coisa não abala a outra.
RF: Em algum momento você pensou em ganhar a vida sobre o tablado?
EB: Não, mesmo! (riso) Em verdade, eu só gasto dinheiro com essas atividades teatrais, mas é um pequeno investimento que me rende muitas satisfações! Faço com prazer e faço tanto para mim quanto para o público.
RF: Projeto Stand Up. Fale sobre este novo desafio.
EB: Estamos começando uma coisa ainda diferente para Cambará, que é algo parecido com "stand up". Como você disse, é um desafio, dá um medinho, mas pensamos que, com a intenção de divertir, será uma ideia bem aceita. Esperamos agradar os que nos prestigiarem, isso será o nosso motivo para continuar a desenvolver esse trabalho.
RF: Está sozinho neste projeto?
EB: Estamos eu, Cláudia Silvério e Mariá Paula. A Cláudia tem me acompanhado em quase todas as outras peças, desde 2008 (Camelau), ótima companheira de palco! A Mariá esteve conosco em "A Revolta dos Perus" e está se saindo muitíssimo bem!
RF: O stand up virou mania nacional, especialmente para os comediantes em ascensão. Em muitos casos, os atores vão de cara limpa e abusam do besteirol. O que pensa sobre esta tendência?
EB: Não é minha linha falar de assuntos que possam afrontar conceitos familiares, como palavrões, temas chulos, etc. Por questões filosóficas e religiosas, não pretendo trilhar este caminho. Por mim, continuarei sempre seguindo o teatro que possa trazer diversão para crianças, moços, adultos e idosos, sem que qualquer deles fique constrangido com o tema ou as palavras apresentadas.
RF: O que falta para que os movimentos culturais ganhem força nos pequenos municípios, como é o caso de Cambará?
EB: Acho que falta um pouco de interesse de ambos os lados: de quem faz e de quem assiste. Temos tanta dificuldade em conseguir atores ou atrizes que se dediquem, que se comprometam, quanto com o público, que ainda é pequeno, considerando o universo cambaraense. Há cinco anos apresentamos teatro em Cambará e ainda tenho centenas de amigos que nunca foram prestigiar nosso trabalho! E olha que, modéstia à parte, sempre contamos com casa cheia! Às vezes deixamos de fazer apresentação com medo de faltar público! A par disso, ainda há muita relutância daqueles que poderiam patrocinar projetos culturais; parece que cultura não dá retorno.
RF: Algum outro projeto em mente, feito ou a fazer?
EB: Tivemos a satisfação de realizar um projeto chamado "Lá do Sol do Brasil", encenado por minha irmã, Noara Barreiros, apresentado em Curitiba, no final do ano passado. Conta as histórias de Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e Zequinha de Abreu, entremeadas de apresentações de músicas desses compositores, tendo também Noara ao piano. Textos dos personagens são meus; textos de apresentação, de Angelina Mattar; e a direção é de Stella Mattar. É um excelente projeto, penso em trazer para Cambará quando encontrar as condições certas (piano no palco). Igualmente, estamos buscando trazer "A Sogra que Pedi a Deus", tendo a personagem central encenada por Renato Papa, peça que tem feito muito sucesso na capital paulista.