
Em primeiro plano na foto, Carlos Gnaspini, no auge de seus doze anos, ladeado pelas beldades da época, degustou os tempos áureos da aviação cambaraense, ocasião em que o aéreo clube municipal, era freqüentado por gente bonita da sociedade local.
Hoje se comemora o Dia da Aviação e para celebrar a data o Circulandoaqui relembra, num texto de Carlos Gnaspini, os tempos aureos do Aeroclube de Cambará.
Abaixo, a íntegra do texto publicado pelo colunista Carlos Gnaspini em sua coluna Memórias
Você quer arriscar?
Pelos idos de 1953, o Aero Clube de Cambará já se encontrava desativado, mas dos quatro aviões existentes ali, um foi deixado uns tempos a mais, pelo DAC, talvez para adornar o hangar onde, anos antes, haviam sido brevetadas várias turmas de pilotos.

A imagem revela o piloto Yeyé com a elegante Terezinha do Alencar, uma de suas fãs.
Há relatos de que Terezinha tenha sido o grande amor do Piloto.
Desse saudoso espólio também sobrou, em Cambará, o piloto José Gnaspíni, apelidado de “Ieié” que fora brevetado sob o comando do instrutor cambaraense Nakaóka no ano de 1947 e que era solicitado para algumas viagens inusitadas. Vamos falar desse avião: O empresário Francisco Baby Pignatari começou a produção de aviões no Brasil em 1940. Graças às suas indústrias em Santo André, teve aval do governo para a criação da CAP- Companhia Aeronáutica Paulista. O maior sucesso foi o modelo “Paulistinha”, cuja produção chegou a uma unidade por dia, em 1943. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, o Ministério da Aeronáutica suspendeu o apoio e a produção parou em 1948. E esse que estava em Cambará, era vermelho, modelo “Paulistinha”, CAP 4, para treinamento, motor com 90 HP, com duplo comando, pedais na frente e atrás. Painel com instrumentos só na frente, com quatro tipos de aparelhos: o relógio da pressão do óleo, o relógio da temperatura, a bússola e o altímetro. Numa noite, chega ao restaurante do Gnaspini, o Edgar Ribeiro Lamparelli e pede ao “Ieié” para levá-lo a Mococa (SP), que fica na divisa com Minas Gerais. Como tinha sido o “Ieié”, o último a usar o avião, ele sabia que o combustível não era suficiente para chegar a Bauru que era a primeira cidade com recursos, na rota, para abastecimento. Nisso, o Edgar que tinha apelido de
“Moquinha”, explicou que necessitava da sua certidão de nascimento, para, com ela, inscrever-se no concurso para o Banco do Brasil que estava pra encerrar. No dia seguinte, foram para o campo, “Ieié” e “Moquinha”, sabendo que o combustível não dava, mas ambos prontos para viajar. De fato, a vareta de combustível do “Paulistinha” não recomendava essa empreitada. O “Moquinha” voltou a explicar que precisava da sua certidão de nascimento para se inscrever no concurso do Banco do Brasil. O “Ieié”, sobrevivente de quatro acidentes aéreos nos “Paulistinhas”, falou: “Você quer arriscar?”. O “Moquinha”, desempregado e brigado com a namorada, respondeu: “Pior do que tá, não fica. Vamos!”. E lá se foram: “Paulistinha”, “Ieié” e “Moquinha” para a cabeceira da pista. O CAP 4 correu frio no chão e foi esquentar o céu. O “Moquinha” estava de terno de linho branco. Eles passaram por cima de Cabrália Paulista e a viagem transcorria terrivelmente normal, quando tiveram duas surpresas. Uma boa e uma má. A boa é que avistaram Bauru e a má é que o avião tossiu. O “Ieié”, muito experiente, tinha levado o avião bem alto e de lá, conseguiu avistar uma plantação de batata. O recurso estava ali. Quando virou para ver se o “Moquinha” estava bem afivelado no cinto de segurança, viu que não era só o terno que estava branco. Seguuuura peão!!! O trem de pouso ficou pra trás, mas nenhum arranhão. Retornando a Cambará, num caminhão que parecia mudança de um parque de diversões, na cabina, o motorista, o “Ieié” e o “Moquinha”, este com o terno já não lembrando mais aquele terno da ida e na carroçaria, o agora inútil CAP 4. Quando, novamente, abriu inscrição do Banco do Brasil, o “Moquinha” não quis inscrever-se. Lembrou da certidão de nascimento. E assim se foi o último avião do Aero Clube de Cambará.
Ai, que saudades...

Muito cobiçado, Yeyé sempre estava rodeado de suas fãs.