

Cambará
C.Roberto Francisquini
O Circulando publica, a partir desta edição, o espaço ”Conte sua História”. O objetivo da nova coluna é criar uma interatividade maior com seus leitores. A proposta é publicar, a cada mês, textos escritos por personagens da cidade, sob sua ótica e com temas abrangentes que podem retratar sua própria história ou mesmo assuntos do cotidiano.
Neste primeiro fascículo, Marcos Pureza é o nosso convidado. Ele é Tatuador, um dos primeiros a atuar profissionalmente em Cambará.
Neste texto, Marcão, como é mais conhecido, descreve o início da carreira e aborda os obstáculos também, e, sobretudo, fala das conquistas, especialmente do respeito e admiração de seus clientes.
Tattoo à chinelada
Eu me lembro vagamente da primeira vez que vi uma tatuagem, foi entre 78/79... eu estava jogando bafo com um amigo quando percebi uns caras ali do lado fazendo um desenho de uma enorme borboleta no peito do pé de um desses e enfiava a tinta com uma agulha e iam seguindo o traço picando e davam chinelada em cima e o cara fazia uma pa de careta e eu pensando, porra, que negócio louco, desenhar na pele e pintar com agulha, pra quê?... e passaram-se uns dias eu vi que ficou o desenho no pé desse brother, e depois ele foi aparecendo com mais desenhos e tal... eu achava legal aqueles desenhos.
Relógio quebrado....
De vez em quando aparecia alguém com uma tattoo no meu bairro, geralmente eram os “malaco veio” da quebrada, umas tattoo meio pa, mas eram tattoos, e assim o tempo foi passando até que a galera começou a se tatuar . Na época a turma da minha rua ia se tatuar com o grande Ney Galo, no Ecologic Tattoo, ai começou a rolar umas tattoos legais mais elaboradas e sem “chineladas” (risos), eu já queria uma, mas não tinha dinheiro nem idade, até que saiu um álbum de figurinhas chamado Tattoo Colors (tenho até hoje), tinha monte de figurinhas com uns desenhos loucos e tal... e como eu sempre curti desenhar, desde muleque, aquele negócio me instigou de uma forma!... Eu lembro que comprei nanquim, peguei umas agulhas da minha mãe, um palito de fósforo, uma caneta, sentei no quintal e comecei a desenhar entre o polegar e o indicador, fiz uma caveira... Feito o desenho, peguei as agulhas amarrei uma agulha em um palito de fósforo, deixei mais ou menos uns dois mm de agulha e mergulhava na tinta e furava a pele e assim foi até acabar a obra que ficou parecendo um relógio quebrado kkkkk, ficou muito feia, mas nem liguei, tinha a minha tattoo.
A bronca
Levei umas broncas dos meus pais, claro, mas não desisti, mas pra frente fiz outro desenho no ombro e mais uns rabiscos, nesses, eu usei 3 agulhas alinhadas, julgava que ficaria melhor o traço, e ficou um pouco melhor, aprendi fazer maquininha com motor de carrinho rabisquei uns maloca da quebrada, mas ficou naquilo, passaram uns anos
uns brothers mais próximos começaram a tatuar e eu fui mandar umas tattoos com eles, na época, quem dominava na vila eram o Paulo “Oval”e o “Walace Lale” e o Marcelo “Lepra”, curti muito as tattoos, não terminei algumas porque doeram pra “caralho” kkkk, mas assim o tempo foi passando e a paixão pela arte aumentando, fui estudar, trabalhar, até mais ou menos no ano de 1992 quando comecei andar com uma galera que curtia desenhar, pintar, graffitar e tal, tudo artista fudido (neste caso muito bons), e fui aprendendo algumas técnicas de desenho, fui trabalhar com eles, mas foi em 1997 que eu fui à 3º Convenção Internacional de Tatuagens, aí a coisa ficou séria.
Achei meu caminho
Quando eu entrei naquele ambiente cheio de pessoas tatuadas e tatuadores, não que eu não estivesse acostumado a isso, mas foi algo diferente, eu senti uma energia, me deu uma extrema alegria de estar ali, respirar aquele ar, pessoas diferentes, mas todo mundo se tratando igual, rolava uma troca de idéias sobre técnicas equipamentos, desenhos, eu me senti bem com pessoas que se tratavam todos como amigos mesmo sem eu conhecê-los, parecia uma nova Família. Foi ai que eu decidi, “vou tatuar”. É isso que eu quero pra mim, foda-se o resto, é isso.... achei meu caminho.
A primeira maquininha
Então resolvi, estava cansado do trabalho que estava insatisfeito profissionalmente. Acabei sendo despedido, por um desentendimento com o patrão, e fui mandado embora. Aí pensei, essa é a minha chance. Peguei o cheque num dia de tarde, cheguei em casa, minha irmã Marcia trocou o cheque pra mim, saí “vuado” pra pegar duas conduções pra ir buscar meu equipamento na casa do Lorival, na época, Lorival e André, cheguei meio tarde lá, o tempo fechado pra chuva, peguei, paguei e vazei numa tempestade pesada, mas tava feliz, tinha comprado meu equipamento, peguei minha condução e me mandei pra casa, na época não morava mais na Vila Maria, já estava morando em Guarulhos, cheguei em casa eram umas 11 hrs da noite fui pro quarto, liguei a maquininha, montei um set, e fui retocar minhas tatuagens zuadas, foi testar a pegada da maquina, a profundidade da agulha, nunca tinha usado uma máquina daquelas... era forte a batida parecia que ia pular da mão, mas fui pegando a manha de firmar a mão e regular a pegada na fonte. Fui treinando em mim, em uns amigos, até que fui pegando o jeito.
Na época, quem me deu preciosas dicas foi o Oval, me ensinou a soldar agulhas, dava dica de regulagem da máquina e tal... fui vendo ele tatuar, quando ele deixava kkkk, fui vendo os outros brother tatuando também, alguém ia tatuar, eu ia junto só pra ficar ganhando como era feito o processo todo, quando era mais muleque, década de 80 na época do Ney Galo, cheguei a ir ver meus amigos serem tatuados, mas era mais pra mim roubar umas folhas de desenhos kkk, tenho até hoje guardadas...
Fama: Tem um tatuador de São Paulo na área...
Em 1998 vim passear em Cambará, cidade em que nasci e tenho muitos parentes, e trouxe o equipamento de tattoo, falei pra um e pra outro, logo virei o tatuador de São Paulo que tava na cidade kkkk, a procura foi grande que logo voltei pra Tatuar mais. Tatuava na casa da minha tia, enchia de maluco querendo tatuar, ela “adorava” kkkkk, no outro ano voltei e fiquei numa casinha no fundo da vidraçaria do meu primo, ali foi meu primeiro estúdio de Cambará, nessa eu tatuava em Sampa e em Cambará, até que resolvi mudar de vez pra Cambará. Tive que arrumar outro lugar pra tatuar, atendia na casa de um grande amigo, Celsinho, tatuei 3 dias na casa dele, a Dona da casa queria despejá-lo. Falava que ele tinha montado uma boca de fumo no seu quintal, porque todo maloqueiro da cidade tava indo pra lá, inclusive eu, um tatuador no estilo moicano com dreads azuis, cavanhaque vermelho, no mínimo era um traficante, mas como tinha conseguido levantar um troco, fui atrás de alugar um ponto.
Amizades eternas
Consegui, com a ajuda de um amigo e a confiança da Dona Carmem, hoje minha segunda mãe. Ela me alugou um ponto e lá foi meu segundo studio e casa também. Lá eu improvisei uns esquemas tipo mobília de trailer, de dia ficava tudo moçado, virava studio, de noite virava uma casa. Neste ambiente morava eu e minha mulher, era phoda... Com o tempo mudei pra uma casa, montei um novo e maior studio e estou eu e minha mulher Arlete aqui até hoje.
Conquistas: Respeito e confiança
No começo foi difícil. Sabe como é, até conquistar a confiança das pessoas tive que me desdobrar, o preconceito, a falta de informação, os calotes de pessoas que acham que tatuador vive de vento, não tem conta nem responsabilidades como todo mundo, e até mais, sou responsável pela segurança de pessoas que confiam no meu trabalho e entregam sua pele pra eu trabalhar. Tenho que oferecer segurança de materiais descartáveis, a segurança de usar um material bom e executar bem esse trabalho, esta confiança que me faz estar tatuando aqui desde 1998 e continuarei por muito mais tempo.
Sempre estudei para me aperfeiçoar, busco oferecer o melhor em qualidade técnica e material aos meus clientes e tentando conscientizar o pessoal do que é a tatuagem.
Esta é uma arte milenar, que deve ser respeitada, talvez a mais antiga arte, onde o processo é o mesmo há milhares de anos. Introduzir tinta na pele com técnicas diversas através de algum objeto pontiagudo, pra dar o aspecto ou forma que se queira, pra expressar diferentes intenções ou motivos, sejam eles culturais, religiosos, sociais, ou simplesmente decorativos, com objetivos e resultados diferentes.
É isso aí, mano!
Marcão