
| Renata caminha pelas ruínas em Marobo, Bobonaro... |
Da redação
"De pés descalços, já me sinto maubere"
Por Renata Tironi de Camargo
Poucos dias após meu desembarque em Díli, capital do Timor-Leste, pediram-me que eu descrevesse o local em apenas uma palavra. Sem hesitar, respondi: calor. Passados alguns meses, a palavra foi se tornando polissêmica e o clima quente passou a não mais incomodar, pois a aproximação com os timorenses me fez perceber um outro lado dessa palavra - o amor das pessoas. Amor pela família, pela nação e, sobretudo, pela vida. É impossível falar de Timor sem o timorense, sem considerar sua história de dor e resistência.
| ...Cristo Rei, Díli - Timor-Leste... |
No ano de 1512, Portugal chegou a essa ilha em busca de sândalo, um tipo de madeira nobre, e lá permaneceu por quatro séculos, somente com o intuito de explorar o local. No ano de 1975, Timor-Leste declarou sua independência. Em dezembro do mesmo ano, militares indonésios, sob o governo do ditador Suharto, financiado pelos Estados Unidos e sustentado pela Austrália, invadiram e ocuparam violentamente o território recém conquistado por seu povo. O genocídio cometido no local resultou em um massacre desumano, dizimando cerca de cem mil timorenses. Com a queda da ditadura de Suharto em 1998, os governos de Portugal e da Indonésia começaram a negociar a realização de um referendo, organizado pela ONU, que decidisse o futuro do território: anexação à Indonésia ou independência. 78,5% da população votou por sua independência e, com o resultado, as milícias indonésias iniciaram um movimento de extrema violência e a ONU covardemente se retirou do país. Muitas famílias foram executadas, quase toda a infraestrutura construída até então foi incendiada e a região devastada. Desde então a ONU criou uma força internacional para intervir no local e somente em 20 de maio de 2002 Timor-Leste restaurou sua independência.
Você deve estar se perguntando o porquê de não saber desses recentes acontecimentos. Simplesmente pelo fato de a mídia norte-americana e, consequentemente, mundial ter ignorado e se calado diante das atrocidades do governo indonésio em território timorense. Ora, países capitalistas sempre visaram o lucro[1]. O silêncio só foi interrompido em 1991, quando ocorreu um massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli, amplamente divulgado pelo jornalista inglês Max Stahl.
Quando um país está (re)nascendo, ele precisa do apoio de outros para se desenvolver. Em vista disso, desde 2004 o Brasil vem estabelecendo relações de cooperação na área da Educação com Timor-Leste e, atualmente, vigora o Programa de Qualificação de Docente e Ensino de Língua Portuguesa no Timor-Leste (PQLP), amparado pela Capes[2] e coordenado pela UFSC[3]. De maneira geral, o Programa visa à formação inicial e continuada dos docentes, fomento ao ensino da Língua Portuguesa e apoio ao Ensino Superior. Sim, o português é uma das línguas oficiais em Timor-Leste, apesar de sua proibição durante os 24 anos de domínio indonésio. A língua tétum, também oficial, é falada pela maioria dos timorenses. No entanto, há, ainda, mais 15 línguas ágrafas, e seus respectivos dialetos, faladas ao redor de todo o território. As línguas inglesa e indonésia são consideradas, por lei, línguas de trabalho. Por conta do multilinguismo percebido em Timor-Leste, encontramos diversos problemas com relação à reimplantação da língua portuguesa no país.
| “Eu mudei, meus valores mudaram, minha vertente crítica aumentou” Renata Tironi de Camargo
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E onde eu entro nessa história toda? Bem, fiquei sabendo do edital público para integrar o PQLP por um amigo, me inscrevi e participei da seleção, composta por três etapas. A primeira, relacionada à verificação da consistência documental; na segunda, foram analisados a formação acadêmica, experiência profissional e o projeto proposto por mim; na terceira, participei de uma arguição oral e também escrita. Desde o início da seleção, o apoio da minha mãe foi fundamental, pois sem a sua aprovação não sei se eu teria essa coragem, mãe sabe o que faz. E então, fui oficialmente aprovada. Assim, juntamente com mais professores brasileiros, comecei a fazer parte da cooperação brasileira no Timor-Leste em maio de 2014.
O trabalho em Timor pode muitas vezes parecer árduo, cansativo, pode faltar luz elétrica, pode não ter um giz, um banheiro apropriado, um ventilador, uma janela, uma biblioteca digna. Em contrapartida, nós educadores encontramos em Timor o respeito, a dignidade e o valor que talvez aqui no Brasil esteja em extinção. Essa é a minha visão, de uma educadora que atuou em diversos locais na capital timorense, já que o trabalho da cooperação é bastante versátil. Ministrei um curso de português para docentes da Universidade da Paz (UNPAZ) e outro para futuros intercambistas em universidades brasileiras e portuguesas, fui revisora de textos do Jornal Matadalan[4], das notícias do site do PQLP[5] e de roteiros educativos da TV Educação, coorientei a elaboração da monografia de uma aluna da Universidade Nacional Timor Lorosa´e (UNTL), atuei na codocência de uma disciplina na Universidade Oriental Timor Lorosa´e (UNITAL), participei do Grupo de Estudos de Práticas Didáticas de Língua Portuguesa em Timor-Leste (GEDILP), além de outras atividades voluntárias.
| ... e no alto do Monte Ramelau em Hatu-Builico, a mais alta montanha da ilha de Timor, com 2.963 metros de altura. |
Lá, as relações entre professor e aluno vão além do trabalho. Você percebe fora da sala de aula que o timorense é extremamente religioso, é engraçado, às vezes tímido, formal, artista, melódico e, sobretudo, preocupado com o futuro de sua nação. Em um simples cumprimento você já sente a afetividade, quando depois de um frouxo apertar de mãos ele a leva em direção ao coração. A simpatia pelo Brasil é tão grande que por lá eu talvez tenha visto a bandeira brasileira mais vezes do que aqui, em táxis, bares, restaurantes, nos transportes públicos (as microletes), nas ruas, estampada em diversos lugares e pessoas.
| [1] Para saber mais sobre o assunto, sugiro assistir ao documentário Manufacturing Consent - Noam Chomsky and the Media, de 1992. [2] Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior. [3] Universidade Federal de Santa Catarina. [4] Para consultar as edições do Jornal, acesse: http://pqlp.pro.br/publicacoes-2/jornal-matadalan/ [5] Link de acesso: www.pqlp.pro.br [6] Maubere era um termo pejorativo usado no tempo colonial para referir os "pés-descalços", mas que a Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) utilizou em 1975 como emblema de luta pelos mais humildes e oprimidos. |
Timor é uma pequena ilha escondida em formato de crocodilo, localizada no continente asiático e que faz fronteira marítima com a Austrália ao sul e com a Indonésia ao norte. É pouco habitada, mas repleta de pessoas encantadoras. É onde se vê ao mesmo tempo o mar e a montanha. Entretanto, esses elementos antagônicos vão além da virtude, ao mesmo tempo em que se vê uma riqueza natural invejável, vê-se facilmente o rico de um lado e o muito pobre de outro. Esse é o poder que o capitalismo tem de distanciar pessoas e, aos poucos, ele vai adentrando também o Timor.
Enfim, após um ano e vinte dias em solo timorense, volto ao Brasil e tento retomar minha vida de onde parei, e encontro mais do mesmo. Eu mudei, meus valores mudaram, minha vertente crítica aumentou. E o que fica é saudade, de um lugar que renasce a cada dia, de um povo simples que pela simplicidade vai conquistando seu espaço no mundo. De pés descalços, já me sinto maubere[6].
Confira abaixo algumas imagens da cambaraense na ilha de Timor-Leste.