

Da redação
Guilherme Lopes Mair
Muita gente me pergunta o que me levou a estudar sobre vinho e, mesmo, a escrever sobre ele. Tudo teve início numa situação bem corriqueira, há vários anos. Num supermercado, que contava com um “atendente de vinhos”, pedi uma sugestão, pois não tinha a menor idéia do que esperar dos rótulos disponíveis. O único parâmetro que pedi foi o preço máximo. Acolhi a sugestão, comprando o vinho. Provei e gostei. Numa segunda oportunidade, aumentei um pouco o limite de valor e pedi nova sugestão, também acolhida. Provei o vinho ligeiramente mais caro e não gostei. Foi daí que surgiu meu interesse: eu queria ter condições de escolher o vinho que compraria, por mim mesmo, diminuindo a chance de “erro”. Errar, nesse caso, seria comprar um vinho que não me agradasse, independentemente do seu preço.
A partir daí, fiz cursos, passei a ler revistas especializadas nacionais e estrangeiras, bem como muitos livros sobre o tema.
Mas o que eu não sabia quando comecei é que, ao estudar sobre vinho, eu acabaria tendo contato com diversas disciplinas. À medida em que o estudo se aprofunda, mais nuanças dessas outras áreas ficam nítidas. E, recentemente, tive a oportunidade de ler um livro, em francês, em que o autor sintetizou, de forma brilhante, essa sensação que tive e ainda tenho. Em seu livro “Histoire du Vin & de l’Eglise" (História do Vinho & da Igreja), o historiador francês Jean-Baptiste Noé, assim escreveu (numa tradução livre para o português):
“Estudar o vinho é estudar as ciências, quanto aos conhecimentos e domínios técnicos para fazer um grande vinho. Estudar o vinho é estudar a antropologia, quanto aos comportamentos culinários que informam sobre a maneira de viver. Estudar o vinho é estudar economia, pois o vinho é um produto que deve ser vendido e deve obediência às regas do comércio. Estudar o vinho é estudar a educação, pois, ao se aprender a beber, pode-se ser distinto e evitar a bebedeira. Estudar o vinho é estudar a arte, pois essa bebida está refletida na pintura, na escultura, na literatura, no cinema. Estudar o vinho é estudar a cultura, pois não era necessário esperar a UNESCO para saber que o vinho é um objeto cultural. Em síntese, estudar o vinho é estudar o homem; conhecer o vinho é conhecer o homem, pois quando se bebe uma taça de vinho, não se bebe a terra, bebe-se o gênio do homem. Gênio dos monges da Côte d’Or, que inventaram os melhores vinhedos para dar os suntuosos bourgognes que degustamos nos dias de hoje (…).”
Isso explica, em alguma medida, o fato de tantas pessoas se apaixonarem por esse fascinante mundo do vinho.