
Gabriela Papa
Esses dias fui a um bar de comédia em São Paulo. Desses que estão na moda agora, sabe? De stand up? O cara sobe no palco e começa a contar histórias com o objetivo de fazer a plateia rir, sem usar personagens ou grandes produções para isso. Pois bem, estava eu no Clube do Minhoca e enquanto aguardava o início do show reparei que, ao fundo do palco, decorando a parede, havia um poster antigo anunciando um “grande show de piadas do Ari Toledo”.
Enquanto o show não começava, me ative olhando para este poster e meus pensamentos mergulharam no tempo, direto para a década de 90, quando o ápice da minha vida e dos meus irmãos era convencer o nosso avô a deixar a gente escutar o CD de piadas do Ari Toledo, que estava no auge do sucesso naquela época. O tal CD era carregado de piadas “podres”, cheias de palavrões e segundos sentidos, que a gente, no alto dos nossos 10, 12 anos, não fazíamos sequer ideia (ou já fazíamos, sem nem saber).

Mesmo assim, sem muita compreensão do contexto das piadas, nós amávamos profundamente as besteiras daquele CD e idolatrávamos o grande comediante Ari Toledo. Vez ou outra, reproduzíamos em voz alta para os nossos pais, uma piadoca do CD, o que custava ao meu avô uma grande bronca: – “Onde já se viu deixar seus netos ouvirem piadas de cunho sexual, palavrões e duplo sentido?” E a resposta estava bem ali, nos anos 90! Que década extraordinária para ser uma criança! Explico: na tela da TV não era raro ter crianças disputando a melhor dança de “boquinha da garrafa”, ecoando pela sala “no samba ela gosta do rala, rala. Me trocou pela garrafa. Não aguentou e foi rala...” (eu sei que você continuou a letra na sua cabeça).
É claro que não poderia deixar de mencionar aqui a nossa “querida” Xuxa. Não são poucas as pérolas que a trazem até aqui. Vocês, que assistiram ao Xou da Xuxa, Xuxa Park, Planeta Xuxa e outros programas desse ícone, com certeza se lembram que a rainha dos baixinhos se locomovia numa nave espacial, usando micro roupas num programa infantil e mandava – sem qualquer cerimônia – a Cláudia, uma criança indefesa (e chata, diga-se de passagem) sentar de volta ao seu lugar e ficar bem quietinha na sua.
Além da Xuxa, outra vilã que estava presente nos anos 90 era a gordura trans. Seria a gordura trans uma metáfora da década sexual que vivíamos e nem sabíamos? Quer ver? Lá estava ela na famosa cena de sexo do Último Tango em Paris. Ninguém deixava a gente assistir, é claro, mas sempre tinha um coleguinha que conseguia alugar na locadora do bairro e marcava de assistir com a turma toda quando os pais não estavam em casa. Você deve se lembrar que não tínhamos internet naquela época!
E por falar em filmes, que criança nunca entrou escondido na sessão “só para adultos” de uma locadora? Ficava sempre ao fundo, separado apenas por uma cortininha que escondia prateleiras e mais prateleiras dos melhores pornôs dos anos 90!
E as lembrancinhas das festinhas de criança, que vinham recheadas de cigarrinhos de chocolate da Pan, que era a sensação da criançada? A embalagem da famosa lembrancinha exibia uma criança com um sorriso maroto fumando um cigarro (de chocolate, claro!). Lembro que uma vez, eu e meus amigos fizemos um concurso para ver quem conseguia imitar melhor o garoto da embalagem que fumava sorridente o seu cigarro. Seria essa nossa tentativa de imitar os famosos concursos do programa do Gugu?
Falando em Gugu, o Domingo Legal era o perfeito retrato do que vivíamos nos anos 90: Concurso Gata Molhada, Concurso da Boquinha da Garrafa, a Brincadeira da Bexiga (procurem lembrar!), assistentes de palco dançando com seus mini biquínis, a Gretchen dançando Conga, Conga, Conga e causando uma ereção ao vivo no Van Damme, dentre tantas outras bizarrices que éramos agraciados nas tardes de domingo! Na minha família, era regra: acabávamos de almoçar na casa da minha avó, sentávamos todos juntos no sofá (adultos e crianças de todas as idades!) e assistíamos naturalmente ao uba-uba-uba-ê, aos peitos saindo pra fora dos biquínis, as passadas de mão descaradas. Vez ou outra, tínhamos a sorte de nos deparar com apresentações inesquecíveis dos grupos de pagode: Pau Que Nasce Torto, Dança do Maxixe, Brincadeira da Tomada, etc. Tudo, absolutamente tudo no Domingo Legal, era inadequado!
Inadequado? Aqui era onde eu queria chegar: eu e meus irmãos vivemos tudo isso, dançamos Boquinha da Garrafa juntos, fumamos o cigarrinho da Pan e convencemos a Rose, nossa professora de história do ensino fundamental, a colocar o famoso CD do Ari Toledo no ônibus da excursão escolar. O ônibus seguiu para Holambra e nós seguimos nossas vidas, acompanhados de tantos Aris e Gugus, que forjaram o caráter de toda uma geração que embarcou feliz nesse ônibus chamado anos 90.
Quando é que tudo virou tão chato?
Gabriela Papa é advogada e cronista nas horas vagas. Apesar de estar sempre conectada, não dispensa um bom livro. É fã declarada de Mario Prata e dos anos 90. Gosta de ler bulas de remédio e detesta beterraba e coentro. Comentários: [email protected]