

Por Ercílio Alberto
Refrescar a memória em águas turvas chega até encardir o coração de quem viveu a infância nas margens do ribeirão, do qual originou a minha municipalidade.
Acreditando de que a infância é a escritura inconfundível do homem que será, lavrei o meu destino de menino nesse ribeirão, que nele nadava nu para não camuflar a hipocrisia social que o tabelião não registrou na correnteza que existia para matar a sede dos governantes despojados de alma limpa.
Não deixei que a enchente de brincadeiras saudáveis inundasse de entulho a minha imaginação inocente de que as coisas aconteciam por si só.

Para lavar a mente perversa de moleque, o Alambari era a melhor banheira para moldar o futuro limpo de um garoto que tentava nadar contra a correnteza da vida.
De barrancas baixas, o ribeirão permitia somente mergulhos curtos e rasos. Mas com a vivacidade de garoto que tinha, queria mergulhar o mais distante possível para atingir a profundidade das águas.
Pura ilusão!
O salto até que saia com as pernas quase que totalmente esticadas, o mesmo acontecendo com os braços, que ficavam à frente da cabeça, não para protegê-la. A minha ousadia era a de um grande projeto. A coragem de garoto mais a inexperiência em lidar com as águas desconhecidas do ribeirão me deixaram de calças curtas ouvindo as grandes gargalhadas dos meus amigos de infância.
Respirei fundo. Saltei. Minha cabeça afundou na lama.
O meu “bando” de infância ficou, por alguns segundos, enxergando minhas nádegas e as minhas pernas, que chacoalhavam como bambus tentando se equilibrarem dos fortes ventos.
Foi um “deus me acode” aquela cena inesquecível.
Às vezes, agia como moleque. Gostava de testar a natureza. Por isso, vivia batendo a testa em lugares mais duros que a minha cabeça de teimosia. Mesmo assim, não decifrava o que a experiência amarga estava me dizendo. Queria ir além, como dar um mergulho no escuro, sem saber o que encontrar no espaço seco. Na ocasião, não havia espaço e tempo para projetos. Só me bastava a vivência daquele momento. Bebia água do poço artesiano antes de mergulhar no Alambari. Muitas vezes bebia mais água do ribeirão que no poço artesiano.
Tempo que não volta mais.
Mas está vivo o desejo de resgatar o que a natureza me deu.

Cresci, não como o ribeirão Alambari.
Meu pensamento visava algo mais além das minhas condições limitadas, mas nunca me distanciando, definitivamente, do ribeirão.
O processo de transformação se iniciava. Nada há de permanente, exceto a mudança, dizia Heráclito. Assim fortalecia minha mente nas braçadas sobre as águas do ribeirão. Uma mente sã num corpo são. Um chavão que não desaguava no meu rio de conhecimento quando caçava de estilingue passarinhos nas margens do ribeirão.
Começava a esboçar algo para lavar aquela mente perversa de moleque. O meu moinho de água já estava sendo construído com ripas de caixas de sardinhas abandonadas.
Mergulhava menos, pois as braçadas faziam com que eu pudesse explorar mais o rio de minha vida. Não controlava muito bem a respiração. Batia os braços sobre as águas sem bater as pernas. Aos poucos, fui coordenando as pernas, os braços e a respiração. Não demorei a aprender que nadar contra a correnteza era um esforço dobrado e, às vezes, desnecessário.

Iniciei uma busca incessante de referências. Sozinho não iria nadar todo o ribeirão. Não poderia entender o que Antoine de Saint-Exupéry dizia que todo homem traz dentro de si o menino que foi. Muitas águas rolaram para que eu, um dia, compreendesse a importância de tal transformação.
Barry Stevens em sua obra “Não apresse o rio, ele corre sozinho” dizia deixar-se ir junto com a vida, sem tentar fazê-la ir para algum lugar, sem tentar fazer com que algo aconteça, mas simplesmente ir, como o rio. E, sabe, o rio, quando chega nas pedras, simplesmente se desvia, dá a volta. Quando chega em algum lugar plano, ele se espalha e fica tranquilo. Simplesmente vai se movendo junto com a situação em torno, qualquer que seja ela.
Na obra a autora se inspira na cultura dos índios que extraem das dificuldades recursos internos e aprendizados para se aprimorarem. A calma e a confiança em si são os ingredientes básicos para este movimento fluido. Insistia em dizer que por muito tempo se sentia extremamente frustrada por não conseguir cumprir planos de longo prazo. Cada vez que criava planejamentos e estratégias longas (para um ano ou mais) sempre, absolutamente sempre, algum fator externo muito forte interrompia seus planos.
Assim, no decorrer de décadas, aprendeu a trabalhar com planos curtos. De meses, de semanas, até que hoje em dia, é uma grande aliada dos planos curtos e isto quando há um mínimo de planejamento. Acredita no trabalho de formiguinha “se a cada dia fizer um pouquinho de algo” em um certo tempo teria feito muito. Portanto, seu foco foi sempre no hoje, no pouquinho que faria agora.
Afundar a cabeça na lama do ribeirão começava a surtir um efeito positivo. Desprezar os pontos fracos e ruins para sempre aproveitar o que há de bom nessa experiência. Simplesmente assim.
Tanto pela extensão do sentido ou pelo sentido figurado, os sonhos estavam constantemente presentes. Fernando Pessoa dizia que “Entre mim e o que em mim, É o quem eu me suponho Corre um rio sem fim. Passou por outras margens, Diversas mais além, Naquelas várias viagens Que todo o rio tem. Chegou onde hoje habito A casa que hoje sou. Passa, se eu me medito; Se desperto, passou. E quem me sinto e morre No que me liga a mim Dorme onde o rio corre Esse rio sem fim.
O Alambari era infinito na minha imaginária plenitude. Corria com suas águas limpas para um mar que eu jamais sabia de sua existência, da qual pouco tinha consciência.
O Tâmisa da Londres congelada, o Sena da Paris iluminada, o Tietê da São Paulo “embosteada” e o Alambari da Cambará desprezada foram rios de projetos de vida de pessoas que boas lembranças me dão. Mas esses rios quase mataram a esperança de um menino inocente com o desejo de, ainda, poder fisgar um lambari. Mas, como? Hoje, se pergunta “cadê o rio que estava aqui?” Não exterminei do ribeirão os passarinhos com o meu estilingue, mas estão cometendo um crime ainda maior que o meu, matando o “rio” Alambari.

O adolescente Casimiro de Abreu publicou o que sentiu dos “Meus oito anos”: Oh! que saudades que eu tenho, Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais! Como são belos os dias Do despontar da existência! – Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é – lago sereno, O céu – um manto azulado, O mundo – um sonho dourado, A vida – um hino d’amor! Que auroras, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d’estrelas, A terra de aromas cheia, As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar! Oh! dias de minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã! Em vez de mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minha irmã! Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, De camisa aberta ao peito, – Pés descalços, braços nus – Correndo pelas campinas À roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis! Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava à beira do mar; Rezava às Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo, Adormecia sorrindo, E despertava a cantar! Oh! que saudades que eu tenho Da aurora da minha vida Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! – Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!
Saudades dos bons tempos ainda é forte, mas mais ainda é a esperança de reviver esses momentos inesquecíveis, me banhar nas límpidas águas de um rio de histórias para não serem esquecidas.
O que retrata Gonçalves Dias é tão significante quanto o desejo de resgatar as águas limpas do Alambari: Minha terra tem palmeiras Onde canta o Sabiá, As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar – sozinho, à noite – Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.
Há quem se estressa com o canto do sabiá nas margens do Alambari, que ainda vai voltar a ser quando nasceu.
A palavra progresso não terá qualquer sentido enquanto houver crianças infelizes, falava Einstein pensando na sustentabilidade da natureza divina, que o homem não mede esforços para tentar destruí-la. Ainda acredito que o ribeirão será abençoado como Lázaro em sua Ressureição.
A infância deixa viva a memória, a qual é seletiva. A tendência do ser humano é visar o que lhe convém. Portanto, o homem argumenta, tentando ser convincente, que só não esquece das coisas que lhe interessam.
Vistorio o Alambari em todas as suas curvas e em seus pequenos trechos interrompidos como se fosse o rio de minha vida.
Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância, dizia Quintana.
O rio corre sozinho, vai seguindo seu caminho. Não necessita ser empurrado. Para um pouquinho no remanso. Apressa-se nas cachoeiras. Desliza de mansinho nas baixadas. Precipita-se nas cascatas. Mas, no meio de tudo isso vai seguindo seu caminho. Sabe que há um ponto de chegada. Sabe que seu destino é para a frente. O rio não sabe recuar. Seu caminho é seguir em frente. É vitorioso, abraçando outros rios, vai chegando no mar.
A vida do homem deve ser levada do jeito do rio. Deixar que corra como deve correr. Sem apressar e sem represar. Sem ter medo da calmaria e sem evitar as cachoeiras. Correr do jeito do rio, na liberdade do leito da vida, sabendo que há um ponto de chegada. A vida é como o rio.
Não interessa ter nascido a mil ou a um quilômetro do mar. Importante é chegar ao mar. Importante é dizer "cheguei". E porque cheguei, estou realizado.
E o Alambari daqui, vai chegar ao mar?

Ercílio Alberto
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