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Pensando com os meus botões

A liberdade como “possibilidade que tem o indivíduo de exprimir-se de acordo com sua vontade, sua consciência, sua natureza..."

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini
27/11/2012 às 12h37 Atualizada em 30/11/2012 às 16h00
Pensando com os meus botões

 

 

*Ercílio Alberto

 


 

A situação me causou indignação. Era sábado, 18h50. O sol ainda estava alto. Minha visão estava perfeita.Quando adentrei o pátio da igreja matriz, pude observar alguns adolescentes – três na esquina da livraria e mais três na esquina oposta – com expressão de estudantes do crime. Foi um julgamento efêmero. Minha dúvida era constante. Durante a celebração religiosa meu devaneio levava a me desligar temporariamente do que o padre fomentava sobre o Evangelho. Fiquei pensando com os meus botões o tempo todo. Nesse dia, a missa em si não serviu de nada para mim. Quero dizer, diretamente não, indiretamente muito. Após o término da missa – 20h15 –, o sol estava se esvaindo, fraco. Mas o meu pensamento se encontrava forte e perturbado. Parei alguns segundos do lado de fora, bem em frente à entrada principal da igreja, e constatei a presença de três policiais municipais. Aí tem! Não imaginava exatamente do que se tratava. Continuei com passos lentos até a casa de minha irmã sem me desvencilhar da cena no pátio da igreja. Nesse início de noite não consegui digerir os princípios teológicos. Os filosóficos, sociais se afloraram como os girassóis da Rússia do tamanho da beleza de Sophia Loren. Beleza esta que contrasta totalmente com a do cenário de minha indignação.

Consultei várias pessoas, e de formas diferentes, constatando que realmente havia uma exagerada preocupação social em relação aos adolescentes que meus olhos registraram. Confesso que fiquei demasiadamente chocado e triste.Indaguei porque essa situação estava se tornando uma constante nos arredores da igreja e se expandindo pela cidade. O sossego acabara de findar – eu pensava inquieto. O que é pior. A liberdade ficara coberta de coroa de flores.

 

*Ercílio Alberto - nascido em Cambará, psicólogo, psicanalista,gerontólogo e escritor.

Não quero aqui polemizar a criminalidade, mas o quê você faz para evitá-la, combatê-la? Simplesmente esbraveja aos quatro ventos e toma a atitude petista sem mover sequer uma ação digna? Não. Você não é um daqueles que adota a postura de “quem tem cavalo não anda a pé”. Aposto que não. Ou é? Prefiro acreditar que você não cruza os braços imitando um psicótico amarrado por uma camisa de força em direção ao manicômio por não poder enfrentar as adversidades que a vida nos apresenta. Se algumas autoridades municipais propiciaram o surgimento dessas situações e outras não querem solucionar esses incômodos sociais, você simplesmente toma a atitude de Pilatos? Construir um palácio de covardia pode ser sinal de falência existencial. A conseqüência disso pode ser um comportamento similar ao de Judas. Trair a própria cidade. Era a especialidade dos franceses.

Bem, não estou procurando quem tem culpa no cartório, quem cometeu os erros que propiciaram essas inquietações sociais, familiares e pessoais. Mas lamentar a morte de uma preciosidade inigualável da vivência humana: liberdade. Também não é momento de proferir sobre as causas e efeitos da criminalidade social. É, sim, o momento de fomentar a respeito dos crimes pessoais que você comete quando a destruição de pensamentos se sobrepõe à liberdade de falar e agir. A verborréia com discurso vazio é o que mais se vê nas esquinas policiadas por um grupo de quatro ou cinco cidadãos tocando a tecla da mesmice. É o sinal de que a transformação não pousou na mente dessas pessoas. Lastimável.

Construir um palácio de covardia pode ser sinal de falência existencial.

Há uma infinidade de textos filosóficos que enaltecem a liberdade como um tesouro sem preço no mercado universal das conquistas. Desde Voltaire, Russel, Dostoievski, Nietzsche, Camus – todos que viveram intensamente em busca da liberdade morreram presos aos seus anseios – até os nossos dias, grandes pensadores, considerados modernistas, exploram a capacidade do cérebro humano em prol da benfeitoria social. Caberiam milhares de páginas para digerir um mínimo do que eles profetizam sobre a condição presidiária em que ainda se encontra o indivíduo. “O homem nasce livre, e em todo o lado ele está acorrentado”, já dizia Rousseau em “O Contrato Social”.  Aliás, é uma ótima indicação para leitura. Como imperador, Júlio Cesar, – o filósofo – também buscava a liberdade de pensamento, mas morreu enjaulado pelo próprio Senado corrupto que ditava as regras do poder da ilicitude. Esses magníficos pensadores, permita-me fazer uma citação que resume a imparcialidade por leitura, definem que “uma coletânea de pensamentos é uma farmácia moral onde se encontram remédios para todos os males”.

A liberdade como “possibilidade que tem o indivíduo de exprimir-se de acordo com sua vontade, sua consciência, sua natureza” não estabelece como padrão o comportamento existencial definido como trajetória única na caminhada da conquista, mas demonstra que o homem tende a edificar a individualidade. Frenesi do individualismo. Está causando muito sofrimento. É o preço alto que o homem está pagando. Em pequenas parcelas e a longuíssimos prazos. É como o mar: tem início, mas não tem fim. A modernidade. Sempre a mesma modernidade justificada como instrumento da destruição da espécie humana.

Não quero me alimentar das raízes do saudosismo, mas me remeto aos tempos em que as famílias punham as cadeiras preguiçosas na calçada e lá ficavam horas e horas “jogando conversa fora” – muitas vezes surgiam discussões inteligentes –, e dando boas gargalhadas sem a mínima preocupação de que estavam correndo o risco de serem assaltadas. Empanturravam-se de ares frescos. Hoje, vejo-as enjauladas em suas próprias casas.O panorama mudou. O comportamento se alterou. Os conceitos evoluíram. A industrialização e a corrida frenética da informática se incumbiram de causar enormes transformações sociais. Além da liberdade coberta por coroas de flores também se encontra a coletividade social. Criaram um novo mundo. Cada um por si. Depois, ainda acabam apelando: Deus para todos. Você não é daqueles que estudaram no colégio do egoísmo e na universidade da prepotência, onde sempre pediam auxílio ao espírito individual, é? Então, você foi acolhido e ensinado a cruzar os braços quando lhe pedissem ajuda. Mude sua caminhada acadêmica. Aprenda a se libertar do que é possível. É ridículo que o homem não queira fugir dos próprios vícios. Refugia-se do espírito coletivo. A força vital é maior. O estresse pode ser bem menor.

Privar-se dos elementos da liberdade é como amputar as pernas e furar os olhos.

A destruição do Muro de Berlim serviu de exemplo. Agora é preciso detonar a muralha da vergonha para sair do anonimato e exibir o estandarte da adjunção. A segregação da coragem com a covardia pode levar ao fortalecimento existencial. A dicotomização de personalidade não é normal, mas se tornou comum entre os indivíduos que precisam e necessitam ser incoerentes com suas atitudes. Falar muito para os outros e agir bem menos com o social. Privar-se dos elementos da liberdade é como amputar as pernas e furar os olhos. Negar tudo, tornar-se estático e embotar-se na escuridão são o preço do ganho direto que lhe renderá o maior troféu da covardia. Já sei. Você vive entrelaçado ao comodismo somente para se isentar de um sentimento de culpa, sobre o qual nunca apelou à razão para decifrar suas dúvidas, dilemas, conflitos. A liberdade interna é o que mais aflige o homem moderno, que justifica suas oratórias e comportamentos em função do tempo escasso que lhe cabe para não auscultar o som do silêncio. Este som do silêncio pode ser o instrumento maior de ameaça à sua existência. Você também não tem tempo?

Então, o que você tem feito para libertar sua cidade? Não me responda que você se tranca em casa. O que realmente você tem feito para exibir a própria liberdade conquistada?

Os solavancos da fraqueza – que a muitos levam ao chão em lentas fases de desolação – são admissíveis ao ser humano. As diferenças intelectuais, sociais, raciais existem justamente para não cairmos no universo da mesmice. Agora, ficar indiferente ou alheio às aberrações presidiárias que nos são impostas a todo o momento, não é admissível. As pequenas vivências que causam desprazer ou medo adquirem extrema importância na mente da pessoa. A licitude de suas ações é que serão julgadas quando você foge do enfrentamento com a liberdade. Esta também pode ser uma ilusão. As normas sociais nem sempre têm seus cumprimentos lícitos. Transgredir as próprias regras é característico do ser humano. Julgar este fato não é incoerência de atitude. Portanto, o homem não é confiável em sua totalidade, mas é admissível que reside num submundo da hipocrisia quando não se rende ao universo da mudança.

A doença da preguiça,o vírus da fraqueza, a bactéria da fuga, a infecção da mentira são cabíveis à frágil espécie humana. A modernidade não permite que o homem viva no isolamento da evolução. Não se definha aos desafios. A estagnação é o câncer maior da liberdade.

*Ercílio Albertonascido em Cambará, psicólogo, psicanalista,gerontólogo e escritor.

Co-autor de "Urgências Psicológicas no Hospital";
co-autor das Ontologias: Clarice Lispector, Luis Vaz de Camões,
Dante Alighieri e Milguel de Cervantes Saavedra; autor de "Desejos em Guerra".
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