
*José Machado Botelho
O evento terminado, ao depois de duas horas de apresentações ora técnicas, ora emotivas, as pessoas formavam grupos de apaixonadas conversas. Priscila, sempre gentil, traz alguma coisa em sua mão para me entregar e transmite o recado de um amigo do Dr. Alceu: “Por gentileza, veja se pode enviar de parte de um grande amigo dele; está há décadas com ele.”
A caixa de fósforos traz a marca do tempo; está intocada por dentro e, ali, o selo de imposto ainda pegado aos fósforos de papelão nos recorda outro Brasil, outros tempos.
Há muito que essa caixa de fósforos não é uma caixa de fósforos; é uma lembrança para recordar um amigo admirado; um momento, se quiserem, recorda tempos passados e recorda ainda mais: um preito de admiração por um ilustre Cambaraense.
Atendo o telefone sem reconhecer o número e a voz se me demora para unir-se à lembrança do amigo jornalista; ele diz que não é pedido, é sugestão e diz respeito a matéria que será publicada sobre Dr. Alceu Ântimo Vezozzo. Sugestão de amigo, e sobre outro amigo, tão admirável quanto é Dr. Alceu, vai me pesar por uns dias.
Como descrever ou apresentar um gigante? Como escolher apenas o que caiba num pequeno espaço na grandeza de centenas de obras, de milhares de gestos, ideias, realizações, e comprimir em letras a exaltação que nos anima e a efusão que, apenas lembrado seu nome, nos recorda uma vida inteira de exemplar dedicação aos maiores valores humanos.
A modesta caixinha de fósforos fala de Caetano Vezozzo e filhos, de sua casa comercial na Cambará que todos dessa família admirável amam com paixão. Era na Avenida Brasil e Brasil é central na vida e obra de Alceu Ântimo Vezozzo, primeiro engenheiro filho de Cambará.
Daqui de onde escrevo posso imaginar que meus olhos alongam-se para muito além de Londrina e os dez anos dessa estrada que percorro para contribuir à obra, escolas e milagres da Vila Rotary, se desenrolam cheio de lembranças e devo escolher alguma memória que sirva de exemplo das inumeráveis outras que ficarão no tinteiro.
Um pintor que se dedicasse ao retrato de Dr. Alceu usaria tintas de bondade, inteligência, cultura, dedicação férrea, virtudes cristãs, valores humanos, sabedoria e a visão que Deus concede a filhos diletos para servir. Dr. Alceu é, sobretudo, um grande homem a serviço da humanidade.
A humanidade, para ele, pode ser a criança que precisa de educação e de ser protegida do meio ambiente pobre e podre; pode ser a família em pedaços, os pequenos à roda da mãe abandonada, todos sobrevivendo “debaixo da ponte” como ele mesmo costuma ilustrar; pode ser a amada Cambará cheia de recordações de sua infância, onde apontam muitas obras do Engenheiro Alceu, algumas antigas e sólidas, bem feitas, bem imaginadas, a serviço do bem como o Colégio vetusto e ainda soberbo em sua presença. Pode ser o magnífico Hotel que coroou a praça e a cidade, presente do filho à mãe gentil.
Ele é o amigo que veste os trajes da humildade e abraça velhos e novos conhecidos com a modéstia que ostentam sem alarde os verdadeiros gigantes que se fizeram gloriosos pelos méritos de talento e muito, muito esforço e muita dedicação.
Ao receber a caixinha de fósforos, ao ouvir sua história, sinto que os dez anos do presente que recebi -- colaborar com o projeto grandioso do Dr. Alceu em Cambará -- bem gostaria eu fossem ainda mais. Sou, como esse outro amigo dedicado, grato por ter sido convidado a juntar-me a tanta gente ilustre e boa, orgulhoso de ser amigo de um cristão devoto, convicto e fervoroso, um talento que valorizou com estudo e cultura, leitura de milhares de livros, aprendiz perseverante e cujos olhos sempre estão postos muito além do horizonte que apenas vemos.
Sá de Miranda, poeta muito amado, escreveu há mais de quinhentos anos e as duas linhas de seus versos soam em meus ouvidos: ‘nam posso vyuer comyguo’, ‘nem posso fogir de mim’. É nulo o desejo de conseguir apresentar um gigante cujas obras falam tão alto e são mais do que os edifícios, escolas, as perenes construções de um homem de talento; que eu cite dez dentre tantas, os amigos de há mais tempo somarão a elas dez outras de sua preferência e de sua viva lembrança.
E ‘não posso viver comigo, nem fugir de mim,’ nesta modernidade que nos é dado viver, no dilema de exaltar obras físicas quando há milhares de obras, gestos, exemplos, liderança e força no dia a dia do Dr. Alceu.
Ainda lembrando o evento recente, momentos antes de receber a caixinha de fósforo, falando a gente boa e gentil de Cambará, citei a declaração de um paciente de uma querida psicóloga que atende pelo Instituto Bourbon: “Obrigado, você mudou a minha vida.”
O Instituto Bourbon existe porque existe Dr. Alceu; a excelente profissional que se dedica mais do que é comum, está conosco porque existe Dr. Alceu; o paciente que reconhece mudança em sua vida, foi atendido porque existe Dr. Alceu.
| *José Machado Botelho é Ex-governador do Distrito 4710 do Rotary Clube Internacional e voluntário do Instituto Bourbon |
É impossível apresentar um Dr. Alceu, caro Francisquini; mais do que a engenharia de uma vida ilustre, concretizada em Cambará, no seu Paraná amado, no Brasil que ilustra com sua existência e os muitos trabalhos mundo afora, há milhares de exemplos como esse, e a grandeza desse exemplo fica mais clara quando somos informados da idade do paciente: 7 anos de idade.
Transformar vidas, como transforma paisagens, cidades, estado e país, é o grande dom de um homem admirável, pai extremado e esposo de uma extraordinária mulher, Laila Zacarias Vezozzo; então, o impossível fica apenas registrado, não há memória que baste, tinta e palavras que cheguem, somos apenas amigos leais e admiradores fervorosos; o retrato de um grande homem merece mais do que as tintas de que disponho mas, certamente, como ocorre com todos os demais amigos e admiradores, contento-me com tentar participar de suas obras e, usando as palavras do Poeta Maior, ‘cantando espalharei por toda parte,’ ‘se a tanto me ajudar o engenho e arte.’
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