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Ricardo Viveiros fala de Corrupção, poesia e justiça

Em meio à complexa realidade envolvendo políticos supostamente corruptos, surgiu o texto poético de inquestionável qualidade. O poder paralelo, que já àquela época causava danos ao País

Carlos Roberto Francisquini
Por: Carlos Roberto Francisquini
15/01/2020 às 14h40 Atualizada em 15/01/2020 às 14h49
Ricardo Viveiros fala de Corrupção, poesia e justiça

Ricardo Viveiros*

 


 


No momento em que, no Congresso Nacional, são debatidos temas relacionados à corrupção e a outros crimes, recordo-me que há exatos 26 anos acontecia o que se denominou “CPI do Orçamento”. Nessa comissão especial eram analisados 84 disquetes, então apreendidos na construtora Norberto Odebrecht, quando se encontrou uma crônica dedicada a quem não tem namorado, redigida em um estilo muito peculiar, sem identificação da autoria.
 

Em meio à complexa realidade envolvendo políticos supostamente corruptos, surgiu o texto poético de inquestionável qualidade. O poder paralelo, que já àquela época causava danos ao País, mostrava um lado cultural inesperado. Mesmo sob o risco de ser punido por vazar informações confidenciais, o técnico da Prodasen que descobriu o misterioso e indecifrável texto em meio à apuração dos fatos, emocionado pela beleza e sabedoria contidas na obra, tirou cópias e as distribuiu no Congresso. 
 

Entretanto, à luz dos objetivos da CPI, seria alguma mensagem em código cifrado? Revelaria novos envolvidos nos crimes investigados? Como um possível corruptor poderia escrever com tanta sensibilidade e perfeição? Ninguém se interessou em saber as respostas. Todos buscavam os valores das propinas e os nomes dos parlamentares que as teriam recebido. Literatura não era o foco. 


Até porque, observando o conteúdo, se tratava de um romântico ensinamento. O texto mostrava que não ter namorado era “tirar férias do melhor de si”, e a conclusão final recomendava uma dose de insanidade para evitar a solidão: “Enlou-cresça”. Só não considerava o extremo em apelar para a condição de mal acompanhado, como no caso dos investigados e suas relações com a empresa apontada como corruptora. 


Entre inúmeros desvios de recursos públicos feitos pelos deputados e senadores que ficaram conhecidos como os “Anões do Orçamento”, surgia algo metafórico e que, por ser atípico, gerou piadas entre os parlamentares. O senador gaúcho José Paulo Bisol (PT), ironizou: “É... Os brutos também amam”. Já o deputado baiano Benito Gama (PFL), arriscou a rima: “A CPI do Orçamento mais parece um tormento. Tem de tudo um pouco, e o pior é ouvir lamento”. 


O deputado Gedel Vieira Lima (PMDB-BA), um dos envolvidos nas denúncias, era dos que mais reclamava da acusação junto aos membros da CPI. E isso, no espírito do texto encontrado, gerava mais versos. A ele atribui-se a frase dita a um dos investigadores: “Se você é vidente, verá que sou inocente!”. Pelo visto, não era. Em um apartamento que lhe foi emprestado por um amigo, na cidade de Salvador (BA), 24 anos depois, a Polícia Federal encontrou nove malas e sete caixas de papelão que somavam 51 milhões de reais e 2,688 milhões de dólares.


O que se descobriu, afinal, além de que há quase três décadas já havia corrupção endêmica envolvendo empreiteiras de obras públicas, parlamentares e gestores públicos? Que isso poderia ter sido evitado desde então, sem causar tanto prejuízo ao Brasil? Não, o problema seguiu acontecendo e se agravando. A novidade ficou por conta do texto poético ser apenas trabalho universitário da filha de um dos diretores da Odebrecht que, por acaso, misturou-se com os demais disquetes do que se revelou ser o Setor de Operações Estruturadas (entenda-se “Propinoduto”) da construtora. 


Outra descoberta foi que a imaginada mensagem codificada que identificaria mais um possível envolvido na roubalheira, era uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, “Namorado: ter ou não, é uma questão”. O poeta maior da literatura brasileira, morto em 1987, não viu seu texto arrolado no contexto da CPI. Mas, com certeza, como todos nós, teria ficado sem entender o porquê da demora para que as pessoas envolvidas começassem a ser denunciadas, investigadas, processadas, condenadas e, finalmente, punidas. Resta a máxima popular: “Antes tarde do que nunca”, como lembraria o próprio Drummond, sempre tão sensível ao que vive e sofre a sociedade.



    *Ricardo Viveiros,
jornalista e escritor, é autor, dentre outros livros,
de “A vila que descobriu o Brasil”, “Doces beijos amargos”
e “Justiça seja feita”.

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